Capítulo 5 – Os Contos de Hysteria

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Os Contos de Hysteria

Capitulo 5: Crise de Personalidade

Vinyl abriu os olhos na manhã do terceiro dia do prazo de duas semanas. Gotas de água caiam do teto devido à chuva da madrugada passada e batiam no seu rosto escorrendo por seu nariz. Ele olhou em volta e não viu os amigos, mas escutou barulho de golpes do lado de fora do galpão. Se levantou para espreguiçar-se e dirigiu-se até o exterior. Viu Jack de pé concentrado dando instruções a Max, que golpeava uma árvore com sua nova espada.

— E ai, carinha? – Max gritou quando viu o amigo e antes que o anão pudesse acenar, ele se virou e golpeou a árvore novamente, que tremeu fazendo com que todos os frutos caíssem em cima de seu corpo. Vinyl correu para ver se estava tudo bem, mas Max saiu da pilha de frutas sorrindo, segurando uma na mão. — Café da manhã?

Vinyl apanhou a fruta e os três sentaram-se para comer. — Não sabia que Jack podia ensinar a lutar. – ele disse olhando para o homem, mas se sentia bem por ver que Max parecia animado naquela manhã. Fazia tempo que não via o amigo daquele jeito e se fosse porque ele estava aprendendo a manusear a espada, que assim fosse. — Mas então, para onde vamos agora?

— Montanha Punk. – disse Max levantando-se e recolhendo algumas frutas do chão, já que estavam diante de comida de graça e o dinheiro que tinham não era muito. — Vamos indo assim que terminarmos de juntar as coisas.

Max prendeu a nova espada em seu cinto. Ela não era muito pesada na verdade, mas o fardo que ela representava pesava mais que uma tonelada. O fato de eles a estarem vendo significava que não tinha mais volta, que Max era o escolhido e tudo estava em suas mãos. Pelo menos já tinham o primeiro artefato garantido, faltavam mais quatro. Nos momentos em que sua cabeça estava tão cheia de pensamentos, ele desejava ser frio e menos sentimental como Jack. Embora o grandão tivesse lhe ajudado pela manhã e ele tivesse descarregado um pouco no pequeno treinamento, ainda era difícil raciocinar sobre o que estava acontecendo.

 

O menino caminhava a frente com Jack ao seu lado e só voltou à realidade quando percebeu que Vinyl estava bem atrás caminhando sozinho. Freou Jack e trouxe o anão para mais perto deles. — Ei, está tudo bem?

— O que…? Sim, estou bem. Só meio cansado. – ele disse dando um longo suspiro.

— Quer fazer uma pausa? Podemos parar um pouco. – disse Max em um tom preocupado.

— Não! Não precisa. É só que… – ele se interrompeu e engoliu a seco. — Acho que estou com medo. Ainda penso em como fiquei paralisado ontem. E se acontecer de novo e…

— Cara… Não se preocupe. Vamos te ajudar para não acontecer de novo, e se acontecer, Jack pode sair correndo com você nas costas. – Max disse rindo lembrando-se da cena da noite anterior. Claro que ela não havia sido engraçada no momento, porque o pavor que estavam experimentando era grande demais, mas agora que o pior já tinha passado, tinha se tornado algo muito cômico. — Mas não se sinta envergonhado por ter medo. É normal.

— Jack não pareceu sentir medo ontem à noite.

— Acho que ele não sente muita coisa… – Max cochichou, já que Jack andava alguns passos na frente. Vinyl desviou o olhar antes de conseguir dizer mais alguma coisa. Respirou fundo e continuou.

— Eu só… Escuta, não quero que arrisque o seu rabo por mim, está bem? – ele disse num tom decidido e confiante. — Quero dizer, eu sou obviamente a pessoa com menos chances de voltar pra casa, de qualquer forma.

Max parou onde estava e brecou Vinyl com suas duas mãos. O olhou nos olhos e suas sobrancelhas estavam curvadas de uma maneira tão séria quanto o anão nunca tinha visto o amigo usar. — Vincent Vinyl, quem vai me escutar é você! Se for necessário eu me arriscar pra salvar sua pele, é exatamente o que eu vou fazer. A perspectiva de perder a Aria já é muito grande, e eu não posso perder você também. – o menino percebeu que seu melhor amigo estava tenso e atônito com aquelas palavras. Ele retirou as mãos do anão e deixou sua expressão suavizar-se. — Alias, você faria o mesmo por mim.

— Certo… – disse o anão. Ele tinha muito medo de Max perder a vida por sua causa e aquela conversa só tinha confirmado que seu melhor amigo estava muito disposto a se comprometer se fosse preciso. A parada deu um tempo para Jack ficar bem a frente deles e logo os dois viram seu rosto surgindo numa colina e sua voz chamando-os para que se apressassem.

Quando o alcançaram, do alto da colina, ele apontava em direção a um pico grande e escuro, não muitas milhas de distância da onde eles estavam parados. De vez em quando, eles podiam enxergar raios cruzando o céu nublado que estava à cima da montanha. Um grande portão negro encontrava-se nos limites do pico e, daquela distância, os edifícios visíveis atrás no enorme portão pareciam apenas borrões. Parecia inútil ir até ali, já que o lugar aparentava estar desolado e sem nenhuma alma viva habitando, mas todos pressentiram a verdade e Max sabia o que aquele exterior significava.

— A Montanha Punk.

Continuaram andando por mais alguns minutos. Max folheava o livro, lendo tudo sobre a Montanha Punk e sobre o artefato que supostamente estava escondido ali: a Adaga Dourada, ou a pedra amarela, já que era assim que estaria disfarçada antes de Max tocá-la. De vez em quando o menino sentia seu melhor amigo estreitando os olhos em direção ao livro, tentando ler as informações também.  Eles, de repente, olharam para cima se deparando com o inicio do pico que deveriam subir. Era uma ladeira extremamente íngreme, e não havia nenhuma alternativa para alcançar o topo, senão subi-la.

— Por que não vai lendo o livro enquanto subimos, Vinyl? – Max perguntou de forma discreta para não dar a entender que percebeu o anão tentando espiar em seu livro nos últimos minutos.

— Eu posso? Quer dizer, claro! Se você insiste. – ele respondeu pegando o livro nas mãos e lendo enquanto subia.

 

Quando alcançaram o topo, se viram frente a frente com o portão negro que dava acesso a Montanha Punk. De pé, em frente à grandiosa passagem de ferro, estava um homem. Ele usava um uniforme de couro preto e um cinto de metal, que não chamaria muita atenção em uma multidão, se não fosse pelas dezenas de piercings espalhados por seu rosto e pelo moicano verde no alto de sua cabeça.

Ele ergueu suavemente uma sobrancelha quando viu o trio se aproximando, algo que Max retribuiu. Aquele homem, que nem sequer era muito alto em comparação ao garoto, parecia jovem demais para possuir o importante cargo de segurança dos portões da Montanha Punk. Ainda sem muita conexão em relação a eles, o homem decidiu falar.

— Posso ajudá-los?

Após a pergunta, Vinyl saiu de trás das costas de Jack e perguntou cautelosamente. — Nós queríamos entrar na Montanha. Estamos procurando algo… E não temos muito tempo. – o segurança, entretanto, não pareceu convencido com as palavras do anão, não movendo um passo da onde estava.

— Senhor… – disse Max, em sinal de súplica, interrompendo a mirada do homem em Vinyl, e o deixando confuso. — Por favor, nos deixe passar.

— Vocês são um trio um tanto quanto peculiar. O que estariam procurando um menino, um filhote de anão e um… – ele foi dizendo olhando um por um, mas quando seu olhar caiu sobre Jack, o punk parou de falar e ele estreitou os olhos em direção ao semideus, que pareceu ligeiramente desconfortável. — Você me lembra muito alguém…

— Ah, tenho certeza que vocês nunca se viram. – disse Vinyl dando uma leve risada. — Ele foi criado há apenas alguns dias e… Ai! – Max havia empurrado o anão para que ele parasse de falar coisas que não devia, mas o rosto do segurança já havia se iluminado com compreensão.

— Criado? Estão a serviço de Harmos, não é? – ele disse chegando próximo do anão como se sentisse que, caso pressionado, aquele seria o primeiro a abrir a boca. — Foi Ele quem criou o seu amigo grandão, não estou certo?

— Não! Não é nada… – disse Max puxando Vinyl para longe do homem e tentando disfarçar qualquer deixa. Jack parecia perturbado com a situação.

— É dos artefatos mágicos que estão atrás? – disse o segurança interrompendo Max, exibindo um sorriso cheio de sarcasmo e vitória, que pegou todos de surpresa. Eram lendas famosas, mas o garoto pensava que a maioria das pessoas as encarassem apenas como histórias, com porcentagens mínimas de serem reais. Vinyl ergueu sua cabeça em direção a Max, completamente pasmado como se perguntasse “Como é possível que ele saiba?”. O menino sentia o anão lhe perguntando silenciosamente, mas ele estava igualmente surpreso.

— Como sabe sobre Harmos e os artefatos? – Max perguntou e dava para sentir a perturbação na sua voz.

— Isso não importa. Vocês não vão poder passar. Não quero problemas com gente da laia de Harmos. – dissera isso dirigindo-se especificamente à Jack e depois apontou para o céu. – Ele já trouxe problemas demais pra mim e pra esse lugar.

— Qual o seu problema, hein? – disse Jack subitamente se sentido ofendido com as palavras do punk e partindo para cima do homem. Cada um dos garotos o segurou por um de seus enormes braços, tentando impedi-lo de fazer uma besteira, mas foi em vão. Jack conseguiu se soltar e puxando o segurança para perto, acidentalmente, rasgou uma das mangas de seu uniforme, expondo sua pele.

A maneira como seu rosto parecia jovem não refletia no resto de seu corpo, que parecia enrugado e desgastado pelo tempo. Em seu antebraço, antes coberto pela roupa, era possível ver uma marca feita a ferro quente, conferida apenas a criminosos aos olhos dos deuses. Jack estava esperando alguma reação do homem, que apenas o olhava de volta com a expressão vazia. Vinyl e Max, ao contrário, estavam atônitos demais com a marca para tomar qualquer outra atitude, já que os dois sabiam exatamente o que aquilo significava. A velhice escondida, o cargo humilhante e criminalidade perante os deuses atribuíam àquele homem apenas uma coisa.

— Foi você… Você quebrou a lei do silêncio quase trinta anos atrás… – Max disse voltando seus olhos para o segurança que apenas grunhiu irritado.

— O que mais você quer lembrar? Que eu desafiei Harmos? Que trouxe desgraça para a minha família e para o meu lar? – ele disse abaixando a cabeça e cerrando os punhos, porém, quando se ergueu novamente, seus olhos brilhavam como a chama de uma fogueira e sua boca se transformou em um sorriso maníaco, como se uma nova personalidade tivesse se apossado dele. — EU SEI BEM O QUE AQUELE DIA ME CUSTOU! E NO QUE A MALDIÇÃO ME TORNOU EM TODOS OS QUE SE SEGUIRAM!

Ele lançou as mãos em direção ao céu produzindo alguns raios a mais que o natural daquele ambiente e até mesmo Jack deu alguns passos para trás com a cena. Logo criou coragem novamente e sacou suas armas. Max fez o mesmo segurando a espada azul como toda firmeza. Vinyl pareceu inicialmente desesperado, mas forçou-se a parar de tremer. Ele não ia ter medo dessa vez, não ia ser um covarde ou um peso extra. Precisava ajudar Max, custasse o que custar.

O anão apanhou o pequeno martelo de seu pai no mesmo momento em que o punk tirava uma faca extremamente afiada de dentro dos bolsos de couro, dando inicio a briga. Vinyl tentava desviar-se dos raios que caiam do céu, ao mesmo tempo que pensava se realmente eles eram produzidos pela loucura do segurança. Um deles atingiu Jack que foi arremessado alguns metros de distância da luta.

— JACK! – Max gritou preocupado vendo seu gigante guarda-costas voar pelos ares, o que deu brecha para o punk investir contra o menino, que não prevendo o que ia acontecer, foi acertado em cheio na lateral de seu corpo pela faca do inimigo.

Max sentiu a pontada aguda seguida de um tremendo frio na espinha. Ouvia o riso louco do protetor do portão e conseguiu visualizar Vincent correndo em sua direção. Sentiu que havia perdido a batalha e que tudo estaria acabado quando escutou um gemido escapar da própria boca. O mundo já havia ficado em câmera lenta quando sua cabeça encontrou o chão. Começou a perder os sentidos e seu último pensamento antes do blecaute foi constatar que tinha fracassado.

 

No que pareceu uma questão de horas, a luz começou a voltar e Max foi capaz de abrir seus olhos. Estava vivo. Não sabia exatamente como, mas estava. Demorou alguns segundos para que sua vista se ajustasse a luz do ambiente onde se encontrava: um pequeno quarto de madeira com uma aparência descuidada. A cama onde estava, porém, era muito confortável. Ele começou a olhar ao redor tentando notar o máximo de coisas possíveis só para chegar à conclusão que tinha certeza que não sabia onde estava. Do seu lado esquerdo havia uma janela decorada com uma cortina preta e, em cima de um criado-mudo pintado a mão, estavam dispostos um copo da água e um pano sujo de sangue. À direita, ele encontrou Vinyl recostado em uma velha cadeira dormindo. Seu amigo não parecia estar tendo um sono pacifico e tranquilo, mas sim, turbulento e horrível.

Max tentou se virar para chamá-lo, mas então sentiu a fisgada. Uma dor aguda transpassou por todo seu corpo até atingir a sua cabeça e lembrá-lo dos acontecimentos na entrada da montanha. Logo que se ajeitou, a dor passou e o garoto concluiu que já havia sentido dores piores. Deu novamente uma olhada em direção ao pano sujo ao seu lado e então deu um longo suspiro. Estava na hora de dar uma olhada no machucado, mesmo que ele estivesse com medo de sua gravidade. Lentamente empurrou os cobertores para longe de si e levantou a camisa limpa, que não era dele, para só então conseguir contemplar uma ferida na sua lateral esquerda, um pouco abaixo do peitoral. Estava melhor do que ele esperava, sem pus e com uma casca já se formando, mas mesmo assim, não era algo bonito de ver em seu próprio corpo.

Ele só abaixou a camisa novamente quando ouviu Vinyl se mexendo ao seu lado e aos poucos abrindo os olhos.

— Max! – gritou o anão em êxtase, levantando da cadeira para ver o melhor amigo mais de perto. — Você finalmente acordou!

Dava para sentir o alivio na voz do anão e as olheiras em seus olhos confirmavam a teoria de que as sonecas de Vinyl não tinham sido as melhores. Seus olhos estavam marejados como se, depois de um longo sofrimento, ele finalmente tivesse certeza que Max estava mesmo vivo. — É… Acho que não sou tão fácil de matar. – o menino respondeu com um sorriso bobo no rosto, tentando tranquilizar seu amigo. — Carinha, onde estamos?

— Aquele cara te acertou com a faca e você caiu no chão. Eu achei que tudo estava acabado e corri até você para ver se o seu coração ainda batia, mas ele me atacou também. Eu… Eu usei sua espada, Max. Me defendi até que Jack conseguiu voltar a resolveu a situação. Ele te carregou nas costas até aqui.

— Certo, mas… Onde exatamente é aqui?

— Umas das residências da Montanha Punk. – a expressão de Max se tornou confusa com essa resposta. — Ah sim, conseguimos entrar. Uma velha senhora chamada Sarah nos ajudou. Você vai conhecê-la e já digo de dianteira que vai querer agradecê-la, já que ela deu um jeito em você. – ele disse apontando suavemente em direção aonde a ferida de Max estava. — Demos muita sorte de tê-la encontrado. Se ela não tivesse parado o sangramento…

A voz do anão de repente morreu e Max voltou-se novamente para ele, vendo o quanto parecia difícil relembrar que ele quase se encontrou sozinho em uma luta que não podia vencer. Completamente desamparado ao lado do cadáver de seu quase irmão e, nesse momento, Max deu graças silenciosamente. Ficou feliz por estar vivo, por ter uma nova chance de salvar a princesa e por Vinyl estar aliviado por ele. Ainda se sentia confuso pelos eventos que tinha perdido, como por exemplo, como os dois tinham escapado do segurança punk? Ele ainda não tinha visto Jack e começava a se preocupar com seu protetor e se ele estava bem.

— Ei, não se preocupe, já passou. Eu estou bem. – disse Max novamente levantando sua camisa para mostrar que a ferida já no processo de cicatrização, mas isso o levou a pensar que nenhum machucado se curava tão rápido e o quanto Vincent pareceu aliviado ao vê-lo acordar. — Espere… Vinyl, por quanto tempo eu dormi?

— Não sei como contar… – ele respondeu coçando a nuca nervosamente. — Você esteve apagado há quase quatro dias, Max… Amanhã vai fazer uma semana que deixamos a Capital.

— O que?!? Mas nós nem encontramos a segunda pedra ainda! – Max gritou, chocado, levantando bruscamente da cama e esquecendo-se do machucado. Sentindo novamente o incomodo, ele gemeu e sentou-se relutante. — Ah deuses… O que eu vou fazer?

Vinyl levantou a mão, disposto a dizer algo que trouxesse um pouco de esperança ao amigo, mas as suas próprias estavam abaladas. No mesmo momento, a porta do quarto se abriu, e Jack entrou acompanhado de uma senhora baixinha, com cerca de oitenta anos de idade, cabelos arroxeados presos em um coque, que carregava uma bandeja com comida e remédios em uma das mãos. Na outra, ela se apoiava em uma bengala com uma caveira na ponteira e assim como o segurança, suas roupas eram feitas de couro preto.

Ela sorriu ao ver Max acordado, e as rugas em seu rosto se exaltaram ainda mais. Ela dispôs a bandeja em uma cômoda perto da porta e se encaminhou em direção ao menino. — É um prazer finalmente conhecê-lo, Maxwell. Como se sente?

Max logo agradeceu a senhora por ter salvado sua vida e que seja lá o que ela tivesse feito, havia tido um efeito muito veloz e que ele já se sentia muito bem. A velha insistiu que ele tentasse comer alguma coisa, mas ele recusou, tristemente. Estava preocupado demais para que qualquer coisa descesse por seu estômago.

A expressão de Sarah, como Max tinha ouvido que ela se chamava, havia se tornado igualmente melancólica. Ela, educadamente, pediu que Jack e Vinyl se retirassem do quarto, e assim eles fizeram, deixando Max e a velha a sós, dando liberdade para que ela perguntasse exatamente o que estava acontecendo e ele lhe desse as respostas do porque ela teve de cuidar de um garoto esfaqueado nos últimos dias. Sarah ouviu com atenção tudo que Max contou, e conforme foi se abrindo, de fato conseguiu comer. Narrou tudo o que passara até o momento, e quando ele terminou, ela apenas deu um longo suspiro.

— Creio que estejam com pressa então. – ela se levantou retirando a bandeja, agora vazia, do colo de Max. — Melhor você tomar um banho. Consegui tirar o sangue das suas roupas, mas pode levar essa troca. Eram do meu filho, mas ele não mora mais aqui. Ah, e não se esqueça de esfregar o remédio no machucado quando sair do banho, sim?

Ela então deixou o quarto e Max continuou sentado hesitante na cama por alguns minutos. Talvez sua história não a tivesse convencido, o que era natural. Ele se levantou e seguiu as instruções da senhora. Depois de colocar suas roupas limpas, que encontrou dobradas sobre a cama em que esteve apagado, Vinyl e Jack voltaram ao dormitório.

— Querem me explicar o que aconteceu depois que eu desmaiei?

Jack pareceu vacilante com a pergunta e Vinyl refletiu um pouco antes de responder. — Foi como eu disse, eu tentei me defender com a sua espada, até que Jack conseguiu voltar e… Bem, Jack o matou, cara.

Max encarou o gigante de forma receosa, sem saber o que dizer. Sabia que provavelmente tinha sido difícil para Vinyl assistir Jack tirando a vida daquele homem, devido a suas recentes reações em Glam. Depois de um curto silêncio, Jack abriu a boca para falar. — Eu vi Vinyl lutando e você morto. Pensei que tinha falhado em te proteger.

— De qualquer forma, foi estranho. Nos seus últimos minutos foi como se duas personalidades diferentes se dividissem e se libertassem uma da outra. Me levou a pensar sobre a tal “maldição” que ele mencionou.

A maldição. Max se lembrava. O segurança havia mencionado o fato de sua vida ter sido destruída depois que ele descumprira a lei do silêncio e que uma terrível maldição havia caído sobre ele depois do acontecido. Antes que aquela conversa pudesse continuar, Sarah os chamou para jantar antes que eles seguissem viagem. O jantar foi mudo. Nenhum dos três queria fazer comentários e de vez em quando, apenas a velha tentava iniciar uma pauta, que logo morria. Ao terminarem de comer, juntaram suas coisas e se encontraram à porta de Sarah para se despedirem da velha mulher.

Max foi o último a se aproximar e quando o fez, ela o puxou para mais perto e sussurrou em seu ouvido. — Meu jovem, tome cuidado com Harmos. – o conselho havia o pegado de surpresa, fazendo ele se afastar um pouco, mas não o suficiente para que ela deixasse de tocá-lo.

— Quer dizer que acredita em tudo o que eu disse lá no quarto?

— Mas é claro, todos na Montanha Punk temem o grande Deus, principalmente depois do que ele fez com esse lugar. Eu sei o que as lendas dizem, sobre ele ser o irmão bom, mas ele está mudado. – a seriedade com a qual ela pronunciava as palavras era alarmante. — Jack também me contou o porquê você está o ajudando, mas confie em mim. Ele não vai poupar a sua princesa.

— Do… Do que está falando?

— Ele sabe muito bem que precisa de você para conseguir o que quer. Sabe que tem nas mãos alguém com as qualidades necessárias para encontrar os artefatos, mas Harmos é cruel, e assim que entregar as armas, Ele vai se livrar de você. – ela fez uma breve pausa, desviando o olhar, mas sem soltá-lo. — Este lugar não costumava ser tão sombrio, mas… Meu filho. Há anos, ele o desrespeitou. Harmos o castigou impiedosamente. O amaldiçoou e o colocou como segurança da montanha. Eu nunca mais o vi.

A cor sumiu do rosto de Max ao perceber que a bondosa mulher que havia salvado sua vida e ajudado seus amigos de fato, jamais veria seu filho outra vez. Não porque ele estava amaldiçoado e condenado a uma loucura interminável, mas porque estava morto, e por mais que fosse difícil de aceitar, o menino assumia sua parcela de culpa. Ele, inconscientemente, desviou-se de Sarah, como se agora que ele sabia a verdade, fosse duro encará-la, mas a senhora não parecia satisfeita.

— Ele não vai cumprir o que disse. – ela afirmou, puxando o queixo de Maxwell de volta a uma posição que ele pudesse olhá-la de uma maneira quase maternal.

— Ele me prometeu, senhora…

Ela largou as mãos do garoto e deu novamente o mesmo longo suspiro de quando Max terminou de contar sua história no quarto. Sem dizer mais nada, ela caminhou casa adentro e por um segundo, o menino pensou que ela não ia mais voltar, mas se enganou. Ela levemente depositou algo redondo e maciço embrulhado cuidadosamente em uma trouxa na palma da mão direita de Max. — Então prometa você algo a mim. Prometa que tomará cuidado com Ele!

Assim que ela a largou, a trouxa se abriu exibindo a brilhante esfera dourada, que mais parecia uma pepita de ouro. Os olhos de Maxwell se arregalaram de maneira assustadora ao vislumbrar o segundo artefato em suas mãos. Ele direcionou-se novamente para Sarah. — Eu… Eu prometo. – ela sorriu ao ouvir o voto, algo que Max retribuiu ainda mais agradecido. Ela acenou com a cabeça e entrou em casa.

Max correu em direção aos amigos, que o esperavam em uma árvore próxima a casa de Sarah. Assim como ele, Jack e Vinyl não podiam acreditar no que viam. — O que está esperando? – disse Vinyl alegremente, e Max, jogando a trouxinha no chão segurou a pedra amarela com as esperanças renovadas, embora as últimas palavras trocadas com senhora tivessem lhe levantado milhares de novas dúvidas. Novamente o menino sentiu um choque de energia atravessando todo o seu corpo, e dessa vez, escutou a risada ácida do Deus por uma fração de segundo. Logo em seguida a luz dourada que o envolveu e tudo ao seu redor se extinguiu e ele viu-se segurando uma bela adaga de ouro.

— Sem descanso hoje à noite? – Max disse ainda sentindo suas moléculas agitadas. Sabia o tempo que haviam perdido e não podiam perder mais.

— É… Sem descanso hoje à noite. – Vinyl respondeu em concordância. Max mirou a adaga novamente. Já tinha sua espada e aquele riso medonho só o fez querer ter distância da arma. Ele apanhou suas coisas e antes de tomar dianteira na caminhada, colocou a adaga nas mãos de Jack.

— Melhor você cuidar dessa ai, grandão.

 

Notas finais do capítulo:

O nome do capítulo, que se passa todo o tempo na localidade chamada de Montanha Punk, foi batizado em homenagem a música “Personality Crisis” da banda New York Dolls, que participa desse movimento dentro do Rock.

 

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