Capítulo 7 – Os Contos de Hysteria

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Os Contos de Hysteria

Capitulo 7: Se Entregue

Mary não conseguia entender o misterioso sentimento dentro de seu peito que a fez dizer sim. Qualquer um a aconselharia de que era uma ideia bem idiota deixar a Vila Hard Rock para entrar numa jornada perigosa com pessoas que ela mal conhecia, embora soubesse que eles fossem bons. Ela tinha tato para esse tipo de coisa. Era quase como se conseguisse ver por baixo da pele de alguém descobrindo se ele era bom ou mau. Além disso, ela tinha um forte por aventuras, mesmo que nunca tivesse sido parte de algo grandioso.

Depois que os garotos foram para os seus quartos na estalagem da vila, a elfa voltou para o Às de Espadas e quando Angus viu seu estado, a recebeu com abraço apertado, vendo que ela tinha passado por maus bocados, mas ao mesmo tempo, aliviado. Seus pais estavam lá também conversando com o tio no balcão do bar. Sabia que se contasse no que tinha se enfiado, aquelas pessoas jamais permitiriam que ela fosse caçar os tais artefatos.

— O que foi que houve com você? – Angus perguntou ainda sem tirar as mãos da menina, com olhos preocupados.

— Adivinha quem tinha razão, Angus? Eu disse que mandar eles irem atrás do Procurador era uma ideia ruim… – ela respondeu ajeitando o arco que ainda carregava. — Mas já resolvi o problema.

Antes que seu amigo pudesse dizer qualquer coisa mais, os pais de Mary acenaram dizendo que os dois se aproximassem para jantar, o que ela queria muito no momento. Mas se sentia dolorida e cansada, e para evitar perguntas que ela não queria responder, disse que iria tomar um banho e logo voltaria.

Não ficou muito depois da janta, decidindo seguir as ações do anão, Vinyl, de deixar uma carta para seus pais na manhã seguinte para que eles soubessem da situação toda. Acordou cedo e juntou o que faltava: algumas trocas de roupa, dinheiro e mais flechas para o arco. O bar ainda estava fechado e todos, dormindo. Ela saiu silenciosamente pela porta da frente, trancando-a assim que transpassou e caminhou em direção à estalagem onde o trio estava a esperando.

 

Assim que ultrapassam os limites norte da Vila Hard Rock, Mary sentiu um frio na espinha. Era estranho sair dali sozinha. As únicas viagens que tinha feito para fora da vila foram pequenas expedições na floresta que ficava ao sul do reino, quando ela era bem mais nova, e sempre estava acompanhada dos pais e de outros elfos. Angus não estar ali também era um problema. Eles sempre foram grandes amigos desde que Mary conseguia se lembrar e qualquer pequena aventura que ela tivesse vontade de tentar, era sempre ele quem estava ao seu lado. Mas afinal, tudo estava estranho ultimamente. Desde que vira Max pela primeira vez quando estava no palco. Tinha algo naquele menino da Capital, que mesmo que ela não soubesse o que era a fez perceber que a coisa certa a fazer era ajudá-lo a qualquer custo. Só teve mais certeza disso quando viu a pedra vermelha se transformar em suas mãos.

Estava tão absorta em seus pensamentos que mal percebeu que Max estava ao seu lado caminhando e dizendo algo. — Muito obrigado por aceitar nos ajudar. Você nos poupou muito tempo ontem e… – ele disse fazendo uma pausa e deixando escapar um suspiro triste. — Foi importante já que o meu prazo está acabando.

— Oh… Não se preocupe, vamos encontrar as outras pedras. A sua princesa vai ficar bem! – ela disse dando um sorriso reconfortante em direção a ele, voltando das distrações que estavam em sua cabeça. — Mas… Posso lhe perguntar algo?

— Claro. – ele respondeu depois de retribuir o sorriso, mas não um tão confiante como o de Mary.

— Não acha estranho? Digo, em todas as lendas que já li a respeito da origem do mundo, Harmos é sempre descrito como o irmão bom. Metal é o ruim que achava que os humanos eram seus brinquedos, por isso foi exilado, não é?

— Sim. Mas o que quer dizer?

— Você já se perguntou por que ele está agindo assim? Pelo que você contou ele parece bem cruel e maligno. Não condiz com o perfil dele nas lendas… – Mary disse erguendo levemente a sobrancelha esperando que ele concordasse com ela.

Max abriu a boca, mas então a fechou exibindo uma expressão reflexiva. Mary sabia que não podia cobrar muito da mente do garoto, que já devia estar bem bagunçada com tudo que ele tinha passado. A pressão psicológica que Max devia estar fazendo em si mesmo era um fardo grande demais para qualquer um carregar. Antes que ele pudesse responder algo, foi interrompido pelo anão, que andava mais a frente junto com Jack.

— Ei Max! Para onde vamos agora?

Max voltou a si, apanhando o livro de dentro da mochila. Folheou algumas páginas antes de encontrar o que procurava e leu o título do capitulo em voz alta. — Para Disco City. Parece bem bonito. – a gravura no livro dos artefatos era de fato incrível. Uma cidade grande e iluminada, que quase emanava esplendor. — De acordo com o livro, a pedra verde está lá. É o quarto artefato e quando eu segurá-la vai virar um…

— Um arco e flecha! – Mary disse, interrompendo notando o esboço de um belíssimo arco verde e flechas decoradas com gravuras de galhos e plantas.

— Exato. – ele respondeu vendo a expressão maravilhada da menina em direção ao livro. — Quando encontrarmos pode ficar com você se quiser. Nós já temos as nossas armas.

Ela olhou para ele com uma expressão agradecida e ainda mais animada e os dois caminharam um pouco mais rápido para acompanhar os passos dos que estavam mais a frente. — Espero que tenhamos sorte como da última vez. – disse Vinyl positivamente para Max.

— Eu não chamaria aquilo de sorte, carinha.

 

O sol havia começado a se por no horizonte quando avistaram as primeiras luzes de Disco City. A noite parecia ter chegado com mais rapidez do que o normal. Há quantas horas estavam andando? Max pensou que com certeza deveriam estar mais cansados do que de fato estavam, levando em consideração o quão cedo acordaram. Ele olhou vagamente para trás e tomou um susto. Às suas costas o sol ainda brilhava tardiamente enquanto a sua frente, eles caminhavam em direção à noite. Só não podiam dizer que estava escuro, pois Disco City era pelo menos três vezes mais iluminada do que Glam.

O menino pegou novamente o livro, forçando levemente os olhos para ler o que estava escrito. Aparentemente a legenda sobre a cidade – Disco City: a cidade que nunca dorme – não era um simples trocadilho. Max pensou que provavelmente sempre era de noite naquele lugar e pela música alta que podiam escutar, havia alguma festa rolando no momento.

Nada guardava a entrada da cidade, para a sorte do grupo, mas ao entrarem, eles não podiam acreditar no que viam. Era definitivamente muito informação para apenas quatro pares de olhos. Grandes edifícios cujas torres se iluminavam com luzes de led multicoloridas. Todo o chão da cidade era uma gigantesca pista de dança e as cores dos pisos de alternavam no ritmo da música. As ruas eram uma festa. Um palco extraordinário todo decorado com espelhos e holofotes estava montado ali perto e uma banda com cerca de dez membros tocava e dançava, agitando o público que se estendia por toda a pista.

O povo estava se divertindo tanto que era contagiante. Era impossível não querer participar da farra. Os quatro se entreolharam, claramente com o mesmo pensamento nas mentes, enquanto as luzes dos pisos da pista de dança se alternavam de vermelho para amarelo, e então de amarelo para azul. Sim, era verdade que estavam com uma pressa terrível e Max não queria arriscar perder mais tempo, mas a batida constante da música, o riso das pessoas, todo aquele brilho, bebidas e comidas deliciosas sendo servidas… Era maravilhoso demais para deixarem a oportunidade passar. Afinal, e se nunca mais retornassem?

Quando Max se deu conta, ele já estava no meio da pista, completamente entregue á música segurando um copo de bebida na mão. A melodia era fenomenal e de vez em quando ele podia ver algum de seus amigos por perto, curtindo também. Sentiu-se bobo por pensar em deixar a festa de lado por um momento. Depois de tudo o que passou nos últimos nove dias, ele merecia uma folga. Era bom poder finalmente se divertir um pouco.

Depois do que pareceram alguns minutos, Max sentiu um intenso cansaço nas pernas e uma urgência de sentar-se em algum lugar, o que era inusitado já que não fazia muito tempo que havia começado a dançar. A banda ainda estava no palco, o que queria dizer que eles não estavam na festa mais que algumas poucas horas. Devia ser a bebida, com certeza tinha exagerado sem perceber e agora estava tonto. Ele saiu da pista e foi para perto do bar, onde conseguiu uma banqueta para se sentar.

Pediu algo para comer ao garçom que logo o trouxe. Estava tão feliz e sereno que era difícil de acreditar. Recostou-se no balcão e começou a comer pensando em quanto tempo não se sentia verdadeiramente leve, já que ele não contava o encontro com o Procurador. Estava hipnotizado na situação e o relaxamento não passara de uma cruel ilusão. A última vez fora provavelmente quando ele e Aria dançaram no baile antes dos testes. Lembrou-se novamente de como ela estava bonita e o quanto ele ansiava por vê-la outra vez. Max olhou novamente a sua volta pensando em como Aria adoraria um lugar como aquele, e o quanto ela poderia se sentir livre ali.

Suas pernas estavam de fato dormentes. Ele tentou massageá-las, mas algo que se aproximava chamou sua atenção e por um segundo ele a viu. Aria estava com uma bela roupa de festa, toda iluminada assim como as luzes da cidade. Usava botas brancas cheias de brilho que geravam belos reflexos com os pisos luminosos e coloridos. Ela se aproximou do balcão lentamente como se flutuasse e colocou as mãos na gola da camisa da Max, inclinando-se para frente para beijá-lo. Ele sorriu como um idiota apaixonado, também chegando perto dos lábios da menina quando de repente ela parou e gritou, mas sua voz não era a dela.

— MAX! – O menino se afastou, piscando algumas vezes antes de ver miragem de Aria se transformar em Vinyl, que estava coberto de suor e parecia desesperado, ainda que momentaneamente confuso com o fato de que seu melhor amigo tinha se inclinado para beijá-lo. — Max… Que merda é essa?!

— O quê…? Vinyl? Mas… A Aria… – ele disse corando e sacudindo a cabeça percebendo que Aria não estava ali. Pensou por um segundo que supostamente estava muito bêbado.

— Cara, você me precisa me ouvir! Faz mais de vinte quatro horas que estamos aqui nos divertindo!

— Espera, o quê?!

— Eu disse que estamos aqui a mais de um dia! – ele gritou desesperado sacudindo Max pela camisa como se tentasse acordá-lo de um sonho.

— Carinha, você está se estressando demais. – Max disse com a maior tranquilidade do mundo, se espreguiçando levemente. — Estamos aqui há apenas algumas horas.

— Não Max! Aqui é sempre noite, lembra? – ele disse antes de perceber que seu amigo inclinava a cabeça sutilmente para o lado a fim de olhar para a pista de dança, ansioso. Vinyl entrou novamente na frente de seu campo de visão estralando os dedos na frente de seu rosto. — Droga, Max! Sai dessa cara! Você precisa acreditar em mim, o tempo parece que passa mais devagar e a gente ainda precisa encontrar o quarto artefato!

A palavra “artefato” parecia ter causado algum efeito em Max, que ergueu levemente a cabeça em direção a Vinyl e então levantou uma sobrancelha sentindo-se um pouco confuso. Vincent sabia que precisavam sair dali o mais rápido possível e então resolveu apelar notando que aquilo talvez funcionasse.

— Max, pense na Aria…

Aria. Aria certamente gostaria de Disco City, se ao menos ela não estivesse presa no castelo real com aquele deus horrível. Ela estava em perigo mortal e seu tempo estava acabando. Novamente Max se lembrou de como suas pernas pareceram ficar entorpecidas tão rápido e associou isso com as palavras do amigo. Vincent Vinyl jamais mentiria para ele e o que havia dito soou como uma cutucada no cérebro de Max. Seu queixo caiu, assustado, quando ele finalmente processou tudo e percebeu o que realmente estava acontecendo.

Ele se levantou derrubando o resto da bebida que estava em seu copo no chão. Sua respiração estava ofegante e perturbada assim como sua expressão. Estavam novamente perdendo tempo, o qual não podiam se dar ao luxo de perder. Instintivamente subiu em cima da banqueta em que estava sentado enquanto Vinyl o observava sem dizer mais nada. Ao longe avistou Mary dançando e curtindo com várias pessoas desconhecidas em sua volta.

Rapidamente apanhou Vinyl pelo braço e saiu em disparada em direção a onde tinha avistado a elfa e assim que a alcançaram a empurraram para um canto e contaram tudo a ela.

— Pelos Deuses! Temos que sair daqui! – ela disse também no mesmo tom desesperado.

— Onde está o Jack? – perguntou Vinyl olhando em volta tentando encontrá-lo.

 

Os três andaram durante alguns minutos tentando não focar na diversão sabendo que não podiam cair na tentação produzida cidade outra vez. Não pareciam encontrar Jack em lugar nenhum, até que Mary viu algo à distância.

A alguns metros dali, uma enorme figura de homem estava ajoelhado olhando curiosamente para o chão. Mary puxou a manga de Max e apontou para o que tinha acabado de ver e reconhecendo seu guarda-costas, o menino começou a correr sinalizando para que os outros dois o seguissem.  Quando chegaram mais perto conseguiram ter uma visão do que estava chamando a atenção de Jack. Era, assim como todo o chão de Disco City, um pedaço de piso luminoso de pista, mas tinha algo de diferente nesse em especial. Ao contrário dos outros, onde as cores se alternavam, este piscava incessantemente com apenas uma cor: Verde. Max olhou em volta analisando que nenhum dos outros tinha essa tonalidade, embora de longe fosse impossível localizá-lo, já que as cores trocavam tão rápido que criavam uma ilusão de ótica, escondendo a diferença daquele.

Seria possível que o que ele estava pensando era correto? – Nós achamos… A pedra está por baixo do piso.

— Max, deve ser só uma coincidência. A pedra não poderia estar ai, brilhando na cara de todos. – Vinyl ponderou, então olhando para Mary, como se perguntasse se ela concordava com ele, e esta deu de ombros, igualmente confusa.

— Não está na cara. As pessoas estão tão entregues a festa que jamais a perceberiam aqui. Alias, não finjam que também não estão sentindo.

Os outros dois reconheceram a verdade. Ambos já tinham sentindo o intenso poder que emanava das pedras e podiam sentir a mesma energia vindo de baixo daquele piso. — Tudo bem, mas como vamos pegá-la? – Mary perguntou olhando novamente para o brilho, mas depois erguendo uma expressão tensa em direção a Max.

O menino colocou a mão sobre o piso pensando em algo. Não parecia muito resistente, na realidade. Logicamente foi feito para aguentar o peso de muitas pessoas dançando por cima, mas se alguém estivesse disposto a destroçá-lo, não seria uma tarefa muito complicada. Seu plano era arriscado e não muito elaborado, mas não tinham muito mais tempo para ficar bolando ideias sofisticadas. Notou que Jack tinha parado de olhar para o chão e agora apenas o observava, como se tentasse sentir o que se passava na mente do seu protegido. Max franziu o rosto decidido e então o virou para o homem.  Mesmo que ele parecesse confiante, seus olhos mostravam o quanto estava desesperado. — Jack… Pode quebrar.

O homem sorriu como se tivesse esperado essas palavras desde que avistara o piso verde horas atrás. Aparentemente o feitiço não tinha surtido nenhum efeito muito poderoso nele e logo no começo, vendo-se perdido dos outros, ele encontrou o piso, já entendendo o que estaria por baixo. Jack levantou-se e sinalizou para que os outros se afastassem um pouco antes de levantar seus dois punhos gigantescos no ar e lançá-los de volta ao chão com toda a sua força. O piso se rachou e Jack removeu um dos punhos fechados do buraco, já com a pedra envolvida. Os três conseguiram ver os pequenos raios luminosos que saiam das curvas da mão do homem e então sorriram aliviados.

O refolgo durou pouco já que assim que Jack exibiu a pedra em seu punho, todos os outros pisos começaram a se apagar, juntamente com a música que parou instantaneamente. A banda se entreolhava sem entender nada, assim como os habitantes festivos que logo localizaram aonde a falta de energia tinha começado. Viram o quarteto em volta de um piso quebrado e logo imaginaram que o que aquelas pessoas tinham feito havia resultado numa reação em cadeia que matou a celebração.

Max viu centenas de expressões tornando-se ódio e curvando-se em direção a ele e seus amigos. Antes que eles pudessem sofrer uma perseguição de uma multidão enfurecida, o menino deu uma risada sem graça e tentando disfarçar e sussurrou em direção aos outros. — Corram…

Seus amigos pareciam ter entendido a mensagem já começando ouvir os passos do povo se aproximando deles. Viraram-se e começaram a andar sem parecerem muito desesperados, mas depois de alguns passos, a adrenalina em seus corpos não podia mais aguentar e explodiu, fazendo com que eles corressem como loucos em direção à saída daquela cidade. Max podia segurar a pedra mais tarde quando finalmente estivessem seguros sem ninguém querendo matá-los por destruírem uma festa disco.

 

Notas Finais do Capítulo:

O nome do capítulo, assim como os eventos ocorridos nele, são baseados na letra da música “Give it Up” da banda Disco Kc And The Sunshine Band. A escolha da banda e da música foram essenciais para a criação de sentido e o ritmo dos personagens durante o capítulo, já que de fato foi imaginado como se a banda estivesse tocando a música enquanto as ações acontecem.

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