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Favela do Vidigal, Rio de Janeiro


AMANDA - Então é por isso que você é contra meu namoro, porque ele é meu primo? Sinto muito dizer mais é tarde demais nós dois nos amamos.


LUCIANA - Acalme-se Amanda.


AMANDA - Como pôde tia? Abandonar o seu próprio filho na porta de um qualquer, você era a pessoa que mais gostava depois do meu pai era uma amiga para mim... Como pude ser tão burra e não ver que aquela Luciana do facebook era você, como pôde tia? Como pôde?


LUCIANA - Eu sei que não tem explicação minha querida, eu estava desempregada e não tinha marido engravidei em uma festa que fiquei bêbada e acabei indo pra cama com o playboyzinho filhinho de papai, quando soube da gravidez ele me levou para fazer o aborto, mas não tive coragem, mentir que tinha perdido espontaneamente, tentei me virar nos primeiros meses com sua mãe após o nascimento da criança, mas não tinha dinheiro e resolvi que era melhor pra ele que fosse de uma família melhor, que pudesse dar as coisas para ele.


AMANDA – (indo em direção a tia furiosa) Nada justifica esse ato repulsivo, é uma vida, não se pode tratar uma criança como um objeto.


MARTA - Se acalma Amanda.


AMANDA - Se acalmar? Agora sei porque não queria que eu namorasse com ele, sua monstra! Tinha que está metida nisso, né? Bem do seu tipo, não sei nem porque estou surpresa.


ANTÔNIO - Você passou totalmente dos limites agora Marta, como pode fazer isso como uma pobre criança? Será que faria isso com nossa filha?


MARTA - Claro que não!


AMANDA - Você acabou com minha vida, não podia esconder essa história de mim.


MARTA - O que você sabe dos meus direitos em menina, fala, eu te disse que não gostava desse namoro e te proibir, agora não tenho culpa se você prefere sair por ai se distribuindo pra qualquer um.


 Amanda vai até onde sua mãe e dá uma tapa nela


MARTA - Como ousa sua fedelha (devolve o tapa).


AMANDA - É por isso que toda vez que eu falava dele você ficava curiosa ne, o que você esconde mais de mim?


MARTA - Sai daqui!


ANTÔNIO – (puxando Amanda para o quarto) Vem Amanda deixa que eu resolvo isso.


AMANDA - Me solta pai, vai me dizer que não sou sua filha? Que também sou adotada.


Luciana começa a chorar


LUCIANA - Para, por favor, Amanda a culpa não é de sua mãe é minha.


ANTÒNIO - A culpa é das duas, vem Amandinha você não merece ficar nesse ambiente com essas duas víboras.


Antônio leva sua Filha para o quarto


LUCIANA - Isso não poderia ter acontecido Marta, por que não me disse isso antes?


MARTA - Iria mudar alguma coisa, faz tempo que estou tentando separar esses dois, quero ver esse relacionamento durar depois disso.


LUCIANA - Credo, você não liga para a felicidade de sua filha?


MARTA - Claro que não, eu ligo para um bom futuro, onde ela seja rica e se prepara porque isso é só o começo da confusão ninguém mandou você ter essa ideia.


Antônio sai do quarto


ANTÔNIO - Você vai pegar suas coisas e sair dessa casa agora Marta, não quero mais você aqui.


MARTA - Essa casa é minha e quero ver que vai me tirar.


Antônio vai até Marta, a pega pelo cabelo, sai para a rua e a joga no meio da calçada


MARTA - O que você pensa que está fazendo?


ANTÔNIO – (Gritando) Aqui você não fica mais... Vai embora... Ruaaaaa... (fecha a porta).


LUCIANA - Antônio, acalme-se você não pode fazer isso.


Marta bate incessantemente na porta e Antônio entra no quarto pega as roupas de sua mulher no armário e coloca em uma mala, volta abre a porta de entrada e joga a mala na rua.


ANTÔNIO - Vai sair por bem ou por mal Luciana?


Luciana pega suas malas e sai chorando, Antônio fecha a porta


MARTA - Ta vendo o que essa sua ideia fez Luciana, agora não tenho mais marido, não tenho filha e muito menos casa.


LUCIANA – (chorando) Vamos para o hotel.


***


Casa dos Albuquerque, Leblon, Rio de Janeiro – 7:00


Mesa do café da manhã.


CRISTIANA - Mãe... Pai... essa é a Maria Tereza, ela veio do Maranhão a procura de emprego aqui no Rio de Janeiro e ontem começou a chover e resolvi acolhe-la aqui, já que ela não tinha para onde ir e resolvi oferecer o emprego de faxineira.


FERNANDO - Por mim tudo bem, já trabalhou de empregada em outro local?


MARIA TEREZA - Sim, lá no Maranhão eu fazia faxina na casa de umas pessoas


HELENA - Quantos anos você tem Maria?


MARIA TEREZA - Tenho 25.


HELENA - Muito nova para vir para o Rio


MARIA TEREZA- Lá não temos muitas oportunidades e resolvi tentar a vida aqui.


HELENA - Foi um grande risco seu vir até aqui sozinha, mas será bem-vinda, o Fernando vai cuidar de sua contração, pagamos o salário de domestica mais bônus, horas extras tudo conforme a lei, também oferecemos moradia para você.


MARIA TEREZA - Obrigado pela oportunidade não vou decepciona-los.


Gabriel desce para tomar café e Teresa sai para fazer seu trabalho.


GABRIEL - Quem é essa gata?


CRISTIANA - A nova empregada da casa.


GABRIEL - Uma gatinha em.


FERNANDO - E não é pro seu bico filho.


GABRIEL - De boa coroa, cadê o Tony? Nunca mais o vi.


Cristiana e seus pais se olham até que Fernando responde


FERNANDO - Ele teve que fazer uma viajem pelo hospital para decidir algumas coisas, deve demorar pra chegar.


O celular de Gabriel começa a tocar


HELENA - Nada de celular na hora das refeições.


Ele ver quem é e não atende


GABRIEL - Tudo bem é a Amanda depois eu falo com ela.


***


Favela do Vidigal, Rio de Janeiro


AMANDA - Droga que ele não atende.


ANTÔNIO - Filha será que não é melhor você deixar do jeito que ta?


AMANDA - Ele tem o direito de saber que ele não é filho dos Albuquerque. O que acontecerá com nossa família pai?


ANTÔNIO - Sinceramente eu não sei, sua família agora sou eu e você, sua mãe nos decepcionou muito.


AMANDA - Nunca esperava isso dela, eu sei que ela é daquele jeito, eu sabia que iria terminar em alguma tragédia.


ANTÔNIO - Não sei porque ela ficou assim, acho que a culpa é minha.


AMANDA - Não se culpe, você fez o seu melhor e o exemplo disso sou eu, você é o grande pai, o melhor do mundo.


Amanda vai até onde o pai e abraça


ANTÔNIO - Obrigado minha filha.


AMANDA - O que será que ela deve estar fazendo? O que nunca imaginei foi a tia Luciana envolvida, era parecia ser tão mais calma que a mãe e nunca imaginei ela fazendo uma coisa dessa.


***


Hotel, Leblon, Rio de Janeiro


MARTA - O que será de minha família agora em Luciana?


LUCIANA - O que importa sua família, você nunca valorizou ela, depois que perde que você quer valorizar, não achas que já é tarde demais? Para de choramingar que isso ia acontecer a qualquer momento, essa sua antipatia que fez isso.


MARTA - Essa sua ideia que fez isso acontecer.


LUCIANA - Será que não foi essa sua chatice?


MARTA - Ah cala boca!


LUCIANA - Queria que o tempo voltasse e relembrar tudo aquilo que vivemos na fazendo do nosso pai, as tardes de correrias pelo campo, andar a cavalo era um tempo muito bom que eu não tinha que me preocupar com filho abandonado e irmã mimada.


MARTA - É irmã, infelizmente não temos mais 14 anos de idade e temos que encarar a realidade, que não está muito favorável para nós neste momento, tenho quase certeza que o Gabriel já sabe que é seu filho.


LUCIANA - Será bem mais fácil se ele já souber, pelo menos me livro dessa responsabilidade de dar essa notícia.


MARTA - Vá pensando que será mais fácil, os problemas só estão começando.


***


Gávea, Rio de Janeiro
Hotel Abeville


Tony conversa com Vanda por telefone.


TONY - E então como ta as coisas ai?


VANDA - Eles me aceitaram como você disse, ta sendo bem fácil, são um bando de otários.


TONY - Te disse, mas já descobriu algo?


VANDA - Até agora não, acabei de chegar acalme-se!


TONY - Estava pensando em vigiar a Cristiana na escola pra ver se descubro algo lá o que achas?


VANDA - Se não for fazer nenhuma besteira acho interessante.


TONY - Vou ficar de olho na saída dela.


VANDA - Por favor não vá fazer nenhuma besteira, seu filme já está bastante queimado, fica de longe para não ser reconhecido.


TONY - Tudo bem e quando vou ver você?


VANDA - Não sei quando der eu aviso.


TONY - Não vejo a hora de acabar com a raça dessa família.


VANDA - Só quero o dinheiro desses bobos aqui, estou com saudades de você também meu bem.


TONY - Por que você não dá uma fugidinha e vem aqui?


VANDA - Como se eu não conheço nada e nem ninguém aqui? Dou um jeito depois.


TONY - Espero que dê mesmo!


Silveira entra na Cozinha da casa do Albuquerque.


MARIA TEREZA - Agora vou ter que desligar mãe, estou bem depois falo com a senhora estou no trabalho.


TONY - Como assim mãe?


MARIA TEREZA - Beijos te amo mãezinha! (Desliga o celular)


SILVEIRA - Vamos algumas regras senhorita Tereza. É proibido usar celular durante o serviço, exceto em casos extremos, é sua responsabilidade limpar os quartos, a sala, os banheiros, a cozinha, tudo, não vou tolerar corpo mole.


MARIA TEREZA - Sim senhor!


Silveira se vira pra sair.


MARIA TEREZA - Senhor Silveira, posso lhe perguntar uma coisa?


SILVEIRA - Sim


MARIA TEREZA - Por que tanta amargura em seu coração?


SILVEIRA - Você vai aprender com a vida.


MARIA TEREZA - Não quero ser igual a você.


SILVEIRA - Então nunca confie nas pessoas


Silveira sai mas para no corredor que dar acesso a sala


SILVEIRA – (olhando o celular) Muito menos em mim.


***


Leblon, Rio de Janeiro


Gabriel havia acabado de sair do treino de basquete e ia em direção a sua casa quando seu telefone toca.


GABRIEL - Oi Amanda o que foi?


AMANDA - Preciso conversar com você.


GABRIEL - Aconteceu algo?


AMANDA - Aconteceu tudo, podes vir aqui em casa?


GABRIEL - Posso sim, me espera na entrada do morro.


AMANDA - Ta bom, não demora!


Minutos depois Gabriel está subindo o morro com Amanda


GABRIEL - Então o que tem para me contar?


AMANDA - Melhor deixar pra quando chegar lá em casa, é muito grave.


GABRIEL - Você ta me deixando tenso.


AMANDA - É melhor você se segurar.


Eles chegam à casa de Amanda


AMANDA - Sente-se, quer uma agua, suco?


GABRIEL - Não, me conte logo o que você tem a dizer.


AMANDA - Vou chamar meu pai, é melhor que ele esteja presente.


Amanda volta com o seu pai


GABRIEL - Boa tarde, senhor Antônio.


ANTÔNIO - Sente-se Gabriel o assunto é sério.


GABREL - Alguém pode me dizer o que está acontecendo?


ANTÔNIO - Fique calmo!


AMANDA - Pai, vou direto ao assunto, nós dois somos primos.


GABRIEL - Como assim?


ANTÔNIO - Tudo indica que você não é filho da Helena Albuquerque, mas da Luciana irmã de minha mulher. Ela abandonou você na porta dos Albuquerque porque não tinha condições de cria-lo e achou melhor você ter um futuro com eles.


GABRIEL - Vocês estão mentindo


AMANDA - Claro que não amor, eu não queria que fosse assim, se fosse mentira para que eu iria envolver meu pai nisso, a nossa família está de cabeça para baixo, minha mãe foi expulsa dessa casa junto com a irmã dela, elas estão em um hotel no Leblon, vamos lá que vão te contar tudo.


GABRIEL – (chorando) Mas por que isso agora?


AMANDA - Minha mãe queria nos separar faz algum tempo, eu não sei o que vamos fazer agora, já que somos primos.


GABRIEL - Jamais irão nos separar.


***


Escola Johnson Junior, Leblon, Rio de Janeiro


MATIAS - O que você fez é muito grave Lorena.


LORENA - A culpa toda é daquela Cristiana, ela que me irritou.


MATIAS - Nada justifica essa atitude, o vídeo mostra claramente que você é a única culpada, isso é crime, se ela quiser denunciar ela pode e você vai se dar mal, já que é de maior, isso é xenofobia.


LORENA - Xeno... o quê?


MATIAS - Xenofobia, é o preconceito com pessoa de outras regiões, culturas diferentes, dá até cadeia, você tem sorte de ela não fazer a denúncia imagina como ficaria a imagem da escola?


LORENA - To nem ai pra escola, fala logo qual vai ser meu castigo.


MATIAS - Você vai ficar na cozinha para lavar todos os pratos durante essa semana e sinta-se satisfeita por não ter contado pro seu pai, porque senão você já sabe.


LORENA - Aff, e a Cristiana?


MATIAS - Ele teve culpa nenhuma.


LORENA - Ela nunca tem!


Lorena sai da escola bufando de raiva e atravessa a rua e se encosta em um carro preto


LORENA - Aquela maldita da Cristiana Albuquerque vai me pagar, ah se vai, mas vai ser uma vingança muito boa.


Um homem branco alto sai de dentro do carro e vai em direção a ela


TONY - Oi, me chamo Tony e vejo que você quer vingança contra a Cristiana, eu posso te ajudar, pois estamos no mesmo barco.



DEPOIMENTO REAL


Fortaleza, Ceará. Maio de 1983.



Um casal, com três filhas pequenas, chega em casa. O marido é economista e professor universitário. A mulher, farmacêutica bioquímica com mestrado em parasitologia. Ela põe as crianças para dormir. Ele vai para a sala e liga a TV. Ela toma banho e vai se deitar. De repente, acorda com um tiro nas costas. Imediatamente pensa: "Acho que meu marido me matou". Desmaia. Quando recobra a consciência, vê muitas pessoas à sua volta. São os vizinhos. Assustados, enquanto esperam a ambulância, comentam que houve uma tentativa de assalto. O marido está na sala com o pijama rasgado e uma corda enrolada no pescoço. Por enquanto, só ela sabe que o homem - que sempre agrediu a ela e às crianças - está fazendo um teatro. Mais tarde as investigações vão provar que o marido foi o autor do disparo. Mas o terror não acabou naquela noite. Depois de várias cirurgias e meses de hospital, presa para o resto da vida a uma cadeira de rodas, ela sofrerá um segundo atentado dentro do banheiro da casa. O marido tentará eletrocutá-la. Não consegue, pois ela grita e a babá das filhas aparece.


O nome dele é Marco Antonio Heredia Viveros. O dela, Maria da Penha Maia Fernandes. Vinte e três anos depois do tiro nas costas, a mulher seria homenageada dando seu nome à Lei 11.340, assinada pelo presidente Lula, em 2006. A Lei Maria da Penha que responsabiliza autores de ameaças, agressões, assassinatos embaixo do guarda-chuva da violência doméstica. Mas Maria da Penha é uma entre uma multidão de outras que são submetidas à violência por parte de namorados, noivos, maridos, amantes atuais ou ex. O caso da farmacêutica demonstrou para a opinião pública que a violência doméstica ocorre em qualquer classe social e nível de escolaridade.