VIOLETA - WELLYNGTON VIANNA


 "Um luxo de mau caráter"


Recife é uma das maiores capitais brasileiras. Sua região metropolitana, ocupa o posto de oitava mais populosa do país, segundo dados obtidos pelo IBGE em 2016. Pessoas de todas as classes e personalidades se misturam a imensidão da capital pernambucana.

Madura, mulher e no auge de sua beleza aos 35 anos, Violeta não hesitava em suas saídas a shoppings e outros lugares elegantes. Adorava gastar o que mais lhe sobrava: o dinheiro. Era baixinha, porém de corpo escultural, amava se exercitar, amava tanto, que decidiu montar uma academia completa em sua casa. Nos primeiros dias, estava lá pontualmente cedo. Ficava mais bonita a cada movimento que concluía nos aparelhos.

Afonso Albuquerque tinha 70 anos, era um senhor carente, era viúvo e apesar de já ter sido casado por muito tempo com a ex, nunca teve filhos. Há dois anos oficializou seu relacionamento com Violeta, ele passava sempre pela academia da casa antes de sair para o trabalho, só pra admirar as curvas molhadas da jovem e atual esposa.

- Maravilhoso amor. Às vezes me pergunto: O que fiz de tão bom na vida pra merecer um mulherão desses na idade que estou? - Disse ele sorridente.

- Estou me esforçando pra continuar assim. Você merece! - Afirmou ela ofegante e com um largo sorriso no rosto.

- Então tudo isso é pra mim? – Questionou ele, surpreso.

- Claro que sim, não está o velho decrépito que anda pintando - enfatizou ela.

Havia três empregadas na mansão: Juvenalda cozinhava, Paula faxinava e Marinalva atendia e servia as visitas. Muitas vezes, elas faziam escala pra definir quem serviria o café da manhã da patroa, essa tarefa era sempre muito complicada. Juvenalda foi a encarregada daquele dia.

- Café com açúcar, torrada cheia de carboidratos, bolo de chocolate, iogurte tradicional? O que é isso? Como assim, gente? Acabei de sair da academia, preciso de algo mais leve.

- Desculpe senhora. Vou providenciar! - Dizia a Juvenalda aflita.

- Leva, leva! Vai, pelo amor de Deus! Como vocês são inúteis... - exclamava Violeta estressada com as mãos na cabeça.

Custou um pouco até Juvenalda voltar com outra refeição. Eram dois ovos, duas torradas integrais, uma xícara de chá verde e uma maçã.

- Desculpe a demora dona Violeta! Dizia Juvenalda enquanto servia a patroa.

- Pode levar de volta! Exclamou Violeta com olhar de repúdio e levantando se da cadeira.

- Mas eu preparei tudo como a senhora pediu! - explicou Juvenalda.

- Demorou demais, você ficou louca? Perdi até a fome. Estou de saída! - afirmou Violeta.

- A senhora também né, gosta de nos fazer de besta - resmungava Juvenalda enquanto recolhia a refeição da mesa.

- Como é? Eu pago seu salário pra ouvir isso? - Respondeu Violeta já em tom de voz alterado.

- Não senhora, mas pagar meu salário também não lhe dá o direito de me humilhar - retrucou Juvenalda olhando diretamente nos olhos da patroa.

- Pois aqui é assim querida, se não fizer o que eu quero, vai pra rua! Simples assim. Tem 12 milhões de brasileiros querendo estar no seu lugar agora, trabalhando - disse Violeta enfurecida.

- Trabalhando sim, sendo destratados não! Garanto que um emprego como este meu, não interessaria a nenhum dos 12 milhões de desempregados no país.

- Mas isso é uma afronta! - Gritou Violeta ofegante e batendo com força na mesa. Um copo de vidro e alguns talheres caíram no chão.

Paula e Marinalva se aproximaram assustadas e curiosas pelo barulho que haviam escutado desde a cozinha.

- Entenda como quiser senhora! - Disse Juvenalda virando as costas pra Violeta.

- Ei, pode parar! Você não entra mais na minha cozinha! Entrega a bandeja a Paula e desapareça da minha frente. Você está demitida! - Exclamou Violeta, com ódio no olhar.

- Antes de desaparecer da sua frente, terá que pagar minha rescisão senhora, depois disso, não voltará mais a me ver - respondeu Juvenalda com serenidade.

- São 58 dias não vai me sair caro. Esnobou Violeta com um rápido sorriso cínico.

- Claro, meu salário é uma miséria.... Talvez se recebêssemos proporcional aos nossos afazeres, garanto que minha rescisão, sairia bem mais caro para a senhora.

- Garanto que seu salário “miserável” sempre deu pra pagar o aluguel do quartinho de dois cômodos onde vive - disse Violeta a fim de humilhar.

- Com a ajuda de Deus sim - respondeu Juvenalda com lágrimas nos olhos.

- Tá, tá! Chega de papo! Pegue suas coisas e me encontre no escritório. Vou pagar sua rescisão - disse Violeta em tom irônico.

Depois daquela situação, Juvenalda se despediu das colegas que tanto amava, acertou as contas com a patroa e desapareceu. Violeta revelara assim seu lado desumano. Era calculista, ambiciosa e debochada. Suas idas e vindas aos shoppings em quase todos os dias da semana, na verdade tinham um propósito: encontrar seu amante. Juliano tinha a mesma idade de Violeta, era o tipo de homem apaixonante. Bonito, educado, simpático, divertido, ele aparentava realmente ser alguém de boa índole. Violeta buscava em Juliano, a virilidade que não era possível encontrar em seu milionário esposo idoso. Sempre que se encontravam, o local mudava de shopping para Motel, aquelas tardes na companhia de Juliano deixavam Violeta completamente realizada. Ele a satisfazia no sexo. Num desses encontros, Juliano lhe deu uma notícia entristecedora.

- Vou me mudar pra São Paulo! - Avisou enquanto se vestia.

- O quê? Perguntou ela, surpresa.

- A empresa vai me transferi pra matriz. Explicou ele.

- Quando? Você tem que ir? - Questionou ela.

- Claro, é meu emprego, é minha vida.

- E eu? - Entristecida e desapontada perguntou ela.

Assim como Violeta, Juliano também era casado - ele até há mais tempo que ela. Violeta sabia de tudo, ambos sabiam que estavam traindo seus respectivos companheiros. Mas se sentiam fortemente atraídos, um pelo outro.

- Tenho que ir, eu adorei te conhecer, adorei estar com você, mas tenho que ir, mas um dia voltarei pra te ver - dizia ele enquanto escorregava os dedos nos cabelos lisos e longos de Violeta.

- Deixaria sua esposa por mim? - Perguntou ela.

- Deixaria seu esposo milionário por mim? - Perguntou ele com ironia.

Violeta ficou sem palavras pra responder, o dinheiro de Afonso era importante pra ela, como conseguiria manter o enorme ego que possuía?

- Eu deixaria minha esposa por você, mas se você aceitasse ser só minha! Pena que não é capaz de trocar dinheiro por amor, Violeta. Então, escolho ir embora - acrescentou ele antes de beijá-la e sair do quarto.

Depois daquela tarde de sexo no motel, eles não se viram mais. Por orgulho, Violeta não o procurou. Quis entender que Juliano não gostava dela de verdade e decidiu afastar-se. Chegou até a imaginar que ele já tivesse ido embora da cidade, no fundo estava louca pra saber se isso realmente havia acontecido, mas preferiu conter-se.

 



 

Passaram-se dias até Violeta contratar uma nova cozinheira. Isabela era jovem e desde seu primeiro dia na casa vinha surpreendendo na cozinha, era um prato mais saboroso que o outro. Violeta se rendeu as perfeições da nova empregada e rasgava elogios a sua comida. De manhã era comum Isabela entrar no quarto da patroa e lhe servir o café na cama.

- Bom dia senhora! - Cumprimentou Isabela enquanto se aproximava da cama com uma bandeja nas mãos.

- Bom dia querida! Nossa, que comida linda! Deve estar maravilhosa hein?

- A senhora terá que provar - respondeu Isabela colocando a bandeja no colo da patroa.

- Meu marido já foi trabalhar? - Questionou Violeta ao perceber a ausência de Afonso.

- Já sim! Acabou de sair, como levantou mais cedo, decidiu não lhe acordar – respondeu.

- Esse bolo é de que? - Perguntou Violeta cheirando a fatia do bolo. - Cenoura! Leve, com pouco açúcar, do jeito que a senhora gosta - respondia Isabela sorridente enquanto abria as cortinas do quarto.

- Muito bom, nossa, está uma delícia - afirmou Violeta ao provar o bolo.

- Acho que também vai gostar do suco - sugeriu Isabela.

- Hum, maravilhoso! Maracujá é fácil de reconhecer! - Disse Violeta sorridente.

- Verdade. Preciso preparar algumas coisas para o almoço, deseja algo mais? - Questionou Isabela.

- Não, obrigada, vou comer isso aqui rápido e já desço para a academia - respondeu Violeta mastigando.

- Então com licença! - Despede-se Isabela antes de deixar o quarto da patroa.

Violeta comeu tudo, realmente estava tudo muito saboroso. Nada restou. O suco foi tomado aos poucos cada gole lhe satisfazia mais. Em certo momento, Violeta sentiu-se zonza e sonolenta, não conseguia sair dali uma imensa vontade de dormir. Acomodou-se na cama e dormiu. Passaram-se horas e ao abri-los novamente, percebeu que já estava escurecendo. Havia dormido o dia inteiro. “Mas como isso foi possível?”, pensou.  A bandeja do café da manhã não estava mais em seu colo. Violeta decidiu sair do quarto e descer as escadas, estava sentindo-se desorientada, não imaginava a causa daquele mal-estar. Ao aproximar-se da sala de jantar, pôde perceber que Afonso estava sério e irritado.

- Amor? Tudo bem? Eu estava dormindo até agora? Que horas são? Violeta tentou beijar o esposo, mas foi empurrada.

- O que houve? Porque fez isso? - Perguntou-lhe aflita e surpresa.

- Isabela! Venha aqui, por favor! - Chamou Afonso.

Isabela surge na sala de jantar, abatida e com lágrimas nos olhos. Afonso levantou-se olhando nos olhos da esposa com indignação.

- Mostre a ela Isabela! - Pediu ele já chorando.

Isabela mostrou um hematoma em seu braço. Violeta não estava entendendo o porquê daquela situação.

- O que foi isso? O que está acontecendo aqui? - Perguntou Violeta assustada.

- Por favor Violeta, sem teatro... Quero resolver isso com você numa boa, respondeu Afonso.

- O que? Resolver o que? O que você está dizendo?

- Não seja cínica! Já sei de tudo, a Isabela me contou tudo. Você a agrediu, você fez isso no braço da moça! - Disse Afonso gritando extremamente irritado.

Violeta ficou em choque, ela estava sendo acusada de uma coisa terrível, algo que não fez. Algo que ia além de sua má conduta com os empregados. As outras empregadas surgiram na sala de jantar espantadas.

- Agredi? Eu não agredi ninguém, eu dormi o dia inteiro! - Explicou Violeta tentando defender-se.

- Repete para ela o que me contou Isabela, por favor! - Pediu Afonso enquanto colocava a mão na cabeça sentindo-se decepcionado.

- De manhã, por volta das 9 horas, eu entrei em seu quarto e lhe servi o café da manhã, enquanto a senhora se alimentava, abri as cortinas e organizei as gavetas do closet, numa delas, acabei encontrando umas fotos suas muito pessoais. A senhora viu, e me ameaçou apertando com força o meu braço, disse que se eu contasse pra alguém o que havia visto nas fotos eu iria me arrepender - contou Isabela com voz tremula.

- Que mentira é essa garota? Que invenção é essa? Você ficou louca! Eu jamais toquei em você! Afonso! Você acredita nisso? De que fotos ela tá falando? Nossa quanta besteira!

Afonso interrompeu as palavras de Violeta jogando as tais fotos sobre a mesa, nelas estavam Violeta e Juliano fazendo sexo, eram várias fotos, nítidas e esclarecedoras. Violeta calou-se por um instante, não sabia o que fazer pra se sobressair.

- Vai dizer que não é você nessas fotos? Eu sim posso afirmar que não estou nelas. Essa imundice estava em uma das gavetas do nosso closet. Essa safadeza estava dentro da minha casa, no meu quarto!

- Como... eu... Afonso, essa vagabunda me dopou! Nada disso aconteceu. Não a agredi, não a ameacei e essas fotos são montagens. Peguei no sono logo após ela me servir o café da manhã, o que você colocou naquela comida sua bandida? - Gritou ela tentando agarrar Isabela.

- Chega! Não interessa. Essas fotos não são montagens. Elas são reais! Essa situação em que você se encontra nelas aconteceram. Você me traiu! Por favor, pelo pouco de dignidade que lhe resta, pegue suas coisas e saia da minha casa! - Suplicou Afonso enquanto juntava as fotos da traição.

- O que? - Perguntou Violeta chorando.

- Por favor, só faça o que lhe pedi. Com certeza seu amante poderá acolhê-la - insistiu Afonso.

Violeta só chorava. Estava sem chão, não tinha mais argumentos, definitivamente, a nova empregada destruiu sua vida, mas porque ela fez isso? Diferente das outras que passaram por lá, Isabela era admirada por Violeta, a decepção foi grande demais. Aquela noite, Violeta acatou a decisão do esposo e decidiu juntar seus objetos pessoais antes de se retirar. Quando Violeta saiu da casa, Isabela já havia largado. Não foi possível conversar a sós com a empregada misteriosa que provocou sua derrota. Mas uma mensagem surgiu em seu smartphone, era Juliano oferecendo um encontro de despedida. Violeta sorriu nesse momento, pois era justamente ele quem ela mais desejava ver naquele instante. Ela chegou ao bar combinado com ele via mensagens, mas não o encontrou. Logo sentiu uma presença em suas costas, ao virar-se, se deparou com Isabela.

- Procurando o amante, dona Violeta? - Disse Isabela com ironia.

- O que você está fazendo aqui? Sua vaca miserável! Porque inventou tudo aquilo?

- Você sabe que não inventei tudo... - Respondeu Isabela.

- Quis bancar a justiceira salvando o velho dos chifres né? Você não me conhece garota?

- Você é quem pensa que não te conheço! Assim que descobri, tive receio, mas decidi agir: fazer a puta do meu pai pagar por fazê-lo trair a minha mãe!

Violeta ficou pasma, Isabela era filha de Juliano.

- Você é tão cachorra, que bastou te mandar uma mensagem com o celular dele e veio correndo né? - Esnobou Isabela. - Vamos embora daqui e você nunca mais voltará a vê-lo. Vê se aprende agora que não dá para colocar todo mundo nas mãos. Algumas pessoas são como água, escapam entre os dedos - avisou Isabela antes de sair do bar.

Sozinha, Violeta aproveitou que estava no bar e bebeu todas, cada copo de álcool que tomava, lhe provocava mais desespero. O restante da noite se estendeu dessa maneira. Já era madrugada quando Violeta decidiu sair dali bêbada e abatida. O sol estava surgindo quando decidiu sentar-se na calçada de uma das lojas onde costumava gastar seu dinheiro. Ali ela refletiu sobre suas atitudes e as terríveis consequências que seu grande amor pelo luxo provocou em sua vida. Violeta só percebeu que havia dormido ali, quando abriu os olhos e se deparou com Juvenalda, sua ex-empregada.

- O que aconteceu, dona Violeta? Dormiu aqui?

- O quê? Não, não eu cheguei muito cedo aqui estava esperando a loja abrir! Disse Violeta tentando disfarçar a situação em que estava

- A senhora está cheirando a álcool. Avisou Juvenalda, preocupada.

- É, é, eu sei. É verdade, tô na pior Juvenalda. O Afonso me colocou pra fora de casa, tô “fudida”! Sem dinheiro, sem cartão, sem nada! - Desabafou Violeta chorando.

Juvenalda procurava emprego naquela manhã, mas decidiu dedicar-se a ajudar a patroa que mais lhe humilhou. Ela ofereceu leva-la até sua casa. Sem melhores opções, Violeta concordou. No quartinho de dois cômodos onde Juvenalda vivia, ela foi mais bem recebida do que pudera imaginar. Após um banho gelado, uma toalha seca e uma xícara de café quente, sua consciência tornou a gritar sobre a situação em que se encontrara. O desabafo sobre todos os seus erros e sentimentos foi inevitável. Tocada com as palavras de arrependimento de Violeta, Juvenalda lhe deu um forte abraço. A lágrima que correu pelo rosto de Violeta, revelava sua sinceridade.

- Quero te pedir desculpas por toda humilhação que te fiz passar. Dias atrás estava te expulsando de minha casa. Hoje, estou sendo recebida por você na sua. Muito obrigada.

- Quando sai de lá naquele dia, pedi muito a Deus que um dia, a senhora passasse a ser uma pessoa melhor. Você vai conseguir, já deu o primeiro passo reconhecendo seus erros. Sou cristã, sei que não direito de recusar o perdão e sei que apesar de dolorosos, esses acontecimentos foram necessários - dizia Juvenalda sorrindo enquanto acariciava os ombros de Violeta.

Depois daquele dia, meses se passaram. Era difícil pra Violeta seguir sem suas facilidades e mordomias, mas a paz e serenidade tomaram conta de seu coração. Morando com Juvenalda no simples quartinho de dois cômodos, passou a trabalhar ganhando a vida honestamente. A partir disso, para ela, nada de valor lhe importava mais. Tudo o que mais desejava a partir de então, era usufruir o que é oferecido de graça pela vida: A VERDADEIRA FELICIDADE, a flor Violeta, seguiu os demais dias, exalando o seu mais agradável perfume.

 

 


Próximo episódio: Nasceu Francieli, cresceu como Lili já usou várias identidades e agora é Áster, a "dama de preto", uma prostituta muito cobiçada. Nunca poderia se imaginar apaixonada, mas o que aqueceu seu coração também foi o motivo da sua ruína.
Autor: Gabriel Fonsêca
Data de publicação: 20 de fevereiro