CALIANDRA - MATHEUS BARBOSA


 "Escrúpulos"


Não poderia deixar de me sentir fula, naquela sala, rodeada de parentes que insistiam em tocar em assuntos toscos e cômodos. Não poderia deixar de notar a angústia que fazia as veias de meu pescoço pulsar. Por dentro eu queria gritar, mas por fora estava muda como uma rocha úmida, pois suava copiosamente. Por favor, arremessem para longe o martelo que açoita minha cabeça!


Levantei-me do sofá caro de minha mãe e atordoada por vozes em minha mente, saí daquele recinto quase sem respirar, deixando ela a sós com minha tia e a vizinha. Ao cruzar aquela porta de madeira, pude descer os pequenos degraus que davam acesso à rua. Virando a esquina rapidamente, não deixei que os adultos da casa me vissem. Quando levantaram logo em seguida, preocupadas e achando que eu fiquei maluca, eu já me encontrava distante.


Provavelmente é de se pensar que seria muito perigoso uma garota de 16 anos correndo durante a noite nas ruas de uma cidade do interior do estado de São Paulo, em plena década de 1970. Eu era bem jovem quando aconteceu. Eu era ingênua. Mas acreditava que aquela atitude fosse a melhor e mais aliviante que eu poderia tomar naquelas circunstâncias.


 

“Eu não aguentei


Viver como alteza


E com tudo que eu não sei


Preso em minha cabeça


No céu há uma lua


Que brilha e reflete


Destaca a poças da rua


Já eram dez pras sete


Eu fugi para de trás do muro


E vi alguém num beco escuro”


 

Era um jovem rapaz. Sua aparência é pouco perceptiva, apenas visível pela fraca iluminação do poste que evidenciava sua silhueta. Deduzo que ele seja mais velho que eu. Não muito, dois ou três anos, talvez. Seus cabelos de comprimento mediano e castanhos, cobriam um pouco de seus olhos escuros, por causa de uma pequena franja que ele usava. Vestia um longo casaco cinza e estava com uma grande bolsa, aparentava estar partindo para não voltar tão cedo.


Sempre fui pessimista, então pensei o pior. Eu corri quase um quilômetro e cheguei até uma parte da cidade não muito segura. Ali era uma zona pobre, na qual meus pais sempre disseram para eu manter distância. Talvez eu fosse estuprada ainda virgem. Talvez assassinada... Eram só dez pras sete, eu estou exagerando. Fazendo drama desde que meu pai se foi.


-Qual o seu nome? – Perguntou o rapaz após hesitar um pouco.


-Não interessa. – Respondi dando as costas e voltando ao rumo que seguia antes de ser interrompida pela presença daquele garoto.


-Não vai conseguir ir adiante por aí. Este é um beco sem saída. – Eu não precisava do aviso dele, iria descobrir sozinha. – Não precisa ser arrogante comigo e me ignorar, eu só quero te ajudar.


-É claro que vou te ignorar. Eu não conheço você e você não me conhece. É um estranho.


-Por isso eu perguntei o seu nome...


-Caliandra... Bergenthal. – Assim como ele, eu também hesitei.


-Esponjinha-vermelha. Combina com o seu cabelo ruivo. É peculiar, mas não só essa similaridade.


-O que mais é peculiar? – Eu voltava para de trás do muro.


-Seu primeiro nome ser de uma flor tradicionalmente brasileira, mas seu sobrenome me soa alemão.


-Minha mãe é brasileira. Meu pai era Alemão. – Eu não deveria me abrir assim.


-Era?


-Sim, não importa. – Agora melhorou.


-O que realmente importa? – Perguntou no ato de minha arrogância.


-Como assim “o que realmente importa”? – Minha voz se alterou na hora de imitá-lo, dando entonação à minha ironia.


-Eu não sei. Sem querer ser rude, mas a pergunta foi pra você. – Ele ficou em silêncio por alguns breves segundos. – É você quem está correndo, cansada e desesperada. Aparentemente fugindo de algo, ou alguém.


-A essa altura, talvez eu não tenha muito a perder. – Sussurrei.


No muro mal acabado, possuía uma pichação escrita "Faça mais do que existir". Me encostei nele de forma que a parte de trás de minhas roupas pudessem se sujar um pouco. Com este apoio, deslizei minhas costas até que estivesse sentada completamente no chão. Com certeza aquele rapaz notou em meu rosto a clara expressão de descontentamento que eu passava. Descontente exatamente como as estrelas se sentem ofuscadas pelo brilho da lua no céu noturno. Era impossível não notar a minha face de desequilibrada.


 

“Deu-me o destino seu capricho


Para finalmente me rebuçar


Entre as caçambas de lixo


E do inquietante brilho do luar


Com a corda no pescoço


Sem vontade alguma de rir


Deparei-me com este moço


Eu por fim pude desoprimir


Como um recipiente que vaza


Angústias e expiações eu libertava”


 

-Eu acabei de fugir de casa. Evadi por estar extremamente insatisfeita. Estava correndo por não querer ser vista por ninguém da família. Meu desejo é que eles não me sigam. Somente preciso de um tempo para mim, sem que eles encham a minha cabeça de coisas banais e descartáveis. – Apoiei meus braços em meus joelhos.


-Que tipo de coisas são essas? Não entendi.


-Minha mãe estava sentada no sofá com a vizinha. Minha tia estava na poltrona. Todas as noites elas se reúnem ali na sala a fim de ficar jogando conversa fora. Elas fofocam sobre a vida das pessoas na vizinhança. Elas comentam se a Carla engordou, julgam se a Renata pulou o muro, invejam se Joice foi promovida no emprego.


-Hm... Eu entendo. Isso não é legal, mas não consigo ver isso como um motivo para você fugir de maneira tortuosa.


Mas a final, a luz que vem da lua nem é mesmo dela. Ela pega emprestado do sol. Eu fiquei em silêncio por alguns instantes. Sim, realmente. Aquilo não era motivo para eu ter saído correndo daquele jeito. Não foi somente por causa disso, pra ser sincera...


-Eu... Eu me sentia como elas. Foi horrível. – Fui capaz de ver um grande ponto de interrogação na cara do garoto. – Essa comodidade em que elas se encontram me assusta. – É meio egoísta o que eu vou dizer, mas elas ofuscavam o meu brilho!


-Pode explicar mais sobre isso? – O jovem colocou sua enorme mochila no chão e se sentou na escada em frente à porta dos fundos de uma residência, bem ao lado do muro.


-Vou citar a minha mãe como exemplo, mas eu acredito que a grande maioria das pessoas seja assim. Ela acorda cedo todos os dias. Leva meu irmão menor pra escola e de lá vai direto para o trabalho numa oficina de costura. Quando chega, pelo final da tarde, faz a janta enquanto escuta o rádio podre que ganhou do último namorado. Depois disso, senta na sala ou calçada e fica fazendo aquilo que eu te falei.


-A minha vó tinha uma vida parecida com a da sua mãe. A diferença é que eu não tenho um irmão. – Eu sabia que ele não iria me entender. – E é incrível como ela aceita isso tão facilmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. – É, ele tá me surpreendendo.


-Sim, exatamente! Sendo que não é! – Pelo meu alto tom de voz, com certeza dava pra ver que eu estava indignada. – Cara, olha pra tudo isso! O fato de estarmos aqui só se deve tudo por uma infinidade de combinações complexas que foram se definindo em sei lá quantos “lhões” de anos.


-Então você é contemplativa do evolucionismo?


-Não sou nada. Isso se aplica ao criacionismo também. Quem definiu toda a estrutura do universo não pode ter sido Deus? Não são estruturas infinitas que vão além de nossa compreensão? As escolhas de nossos antepassados não foram definindo através dos anos o que somos hoje? Eu mesma zombei dos “lhões” de anos que a ciência aponta, porque eu não sei, não tenho certeza.


-Eu não esperava por isso...


-O que é? Acha-me louca por falar disso? Eu vou embora. – Ameacei levantar.


-Não, claro que não! – Recuei. – Na verdade acho peculiar.


-Peculiar como você gosta de usar essa palavra...


-Essa bolsa que carrego comigo, tem minhas roupas e pertences. Estava indo em direção à rodoviária quando você passou correndo em frente a minha porta. Vou à capital, realizar meu sonho e cursar uma faculdade de botânica. E justo nessa hora eu encontro você, uma garota com nome de flor.


-Realmente isso é peculiar, senhor universitário. Mas eu não entendi qual a relação disso com o que eu acabei de te falar.


-Seja paciente, sim? Você não vai entender de imediato, por isso preciso te explicar antes. Os seres capazes de sintetizar seus próprios alimentos a partir de substâncias inorgânicas simples são chamados de autótrofos, como é o caso das plantas.


-Queria ser um autótrofo pra não gastar dinheiro com comida.


-O nome de um você já tem! – Riu do meu comentário. – Devemos muito as plantas, principalmente as primeiras que existiram. Nos primórdios, não havia mesmo de onde tirar alimento, então essa aptidão foi extremamente útil.


-É bonitinho.


-Sim, é lindo se pararmos pra pensar. Uma vez que elas garantiram a sua existência, foram capazes de realizar a fotossíntese!


-Aquele troço que elas transformam gás carbônico em oxigênio, não é?


-Sim. Vejo que não anda cabulando as aulas de ciências. – Melhor elogio até agora. – Então, concluímos que se não fosse pelas plantas e esses detalhes mínimos, não teríamos oxigênio para respirar, logo não existiríamos e não estaríamos aqui conversando nesse exato momento.


-Assim como você disse, realmente “é lindo se pararmos pra pensar”. O problema é que pessoas como a minha mãe não param pra pensar nisso. Ela nem faz ideia de que foi preciso inúmeros acontecimentos para que ela estivesse ali ignorando tudo.


-Agora sim você entendeu aonde eu queria chegar. Não precisamos ir para muito longe e pegar exemplos distantes para explicar a razão de estarmos aqui juntos hoje. – Eu estou começando a gostar desse garoto. – Se na sua fuga de casa, por impulso, você tivesse virado uma rua diferente, não teria me encontrado. Se tivesse encontrado um farol aberto para os carros, teria que esperar ele fechar, então provavelmente eu já teria partido para a rodoviária e você não me encontraria aqui. Se eu tivesse decidido puxar a água do banheiro depois do banho, ainda estaria dentro de casa no momento que você passasse por aqui e também teríamos nos desencontrado.


-Exatamente. Se tudo é coincidência, isso é uma grandiosa coincidência. Se formos colocar tudo em números, a possibilidade de tudo acontecer exatamente como aconteceu nesses últimos minutos, seria uma porcentagem extremamente ínfima. Menor ainda seria se formos pegar tudo que já aconteceu desde que o tempo existe.


-E é por isso que a menor das porcentagens sempre tem chances de acontecer!


-Hm... Gostei do seu exemplo, menino da botânica. Da sua aula de biologia também. – Dei um sorriso.


 

As coisas que me formam


Formam você também


E as ruas que se dobram


Para me deparar com alguém


Um louco que pensa assim


Pode ser até demência


Mas sei dentro de mim


Que não é coincidência


E nessa noite harmônica


Alegro-me pela aula de botânica”


 



 

-Fico feliz com isso. Gosto de ajudar as pessoas, e seria bom se todos pensassem nessas coisas ao menos uma vez. Você pode tentar conversar com a sua mãe sobre esses fatos. Talvez ela possa se interessar. – Ele puxava uma pequena pelinha que soltava de seu dedo.


-Ah, eu duvido. Ela não é nem um pouco aberta pra esse tipo de assunto. Parece que ela ligou o cérebro dela no automático e nunca mais voltou. Não consegue enxergar as maravilhas existentes nas coisas mais simples. Ela, assim como muitos outros, ignora tudo isso. Ela aparenta nunca ter pensado diferente, assim como a gente.


-Claro que pensou. Disso eu tenho certeza! – Sorriu pra mim como se soubesse a verdade.


-Como você sabe disso? Não se ache demais.


-Em algum momento de nossas vidas, nós nos admiramos com o mundo ao nosso redor, mesmo que a maioria das pessoas não se lembre disso.


-Você está dizendo que minha mãe já ficou filosofando assim? – Achei isso impossível. – É melhor você me dar uma boa explicação para isso, seu maluco. – É estranho, mas eu já me sentia com liberdade o suficiente para ofendê-lo de maneira carinhosa.


-Isso é uma das primeiras coisas que fazemos depois de nascer e chorar. Quando somos crianças, e vemos as coisas pela primeira vez, tudo é novidade. Então a cada acontecimento novo que vemos, nos surpreendemos. Não importa o quão simples possa ser para o pai ou mãe, a criança fica admirada. Pode ser com um cachorro que ela vê na rua enquanto passeia num carrinho de bebê, pode ser as nuvens no céu, ou até mesmo uma garota correndo na rua a noite...


-Mas você não é uma criança pra ficar se impressionando com isso. – Eu gargalhei.


-Talvez eu seja! Ou então pelo menos a minha habilidade de me surpreender ainda não tenha ido embora. As grandes descobertas partiram de homens que assim como crianças, ficaram observando os mínimos detalhes das coisas simples. Como Gregor Mendel, que ficou observando durante sete anos simples ervilhas e conseguiu descobrir a hereditariedade.


A egoísta lua reinava no céu, usando um brilho que não era dela e intimidava as estrelas. Havia num cano ali perto, uma goteira que repetia os ruídos de gotas de água tocando na poça ao chão. As vezes era possível escutar ruídos de carros passando na rua ali perto. O vento úmido e gelado soprava levemente em minha face, de maneira que meus cabelos bagunçassem em minha cabeça, bailando de modo sincronizado e sutil. Pela primeira vez me sentia mais calma e tudo aquilo que me atordoava, parecia fluir para fora de mim, junto com a brisa suave e as palavras daquele rapaz. Ao menos manifestei desejo de conhecer um pouco mais aquele que me ajudava de maneira graciosa:


-Me conte de você... Além de querer cursar botânica, o que faz mais?


-Hm... Eu não tenho pai, não tenho mãe. Eles foram embora para o Reino Unido quando eu nasci, porque eles não planejavam ter filhos. Um lixo, eu sei. Desde então, cresci com minha a avó, que morava nessa casa aqui antes de falecer por velhice na semana passada. Eu não conheci meus tios, então não tenho contato com ninguém mais da família.


-Eu sinto muito... – E eu achava que a minha vida estava uma imundície.


-Tudo bem, sem problemas. Eu não enxergo a morte como algo horrível. É um ciclo natural da vida. É algo que tem que acontecer e não há como escapar. O sonho dela era me ver formado, por isso estava saindo agora mesmo para a capital. Não há esse tipo de curso aqui em Águas de São Pedro.


-Eu penso que quando morremos, descobrimos a verdade sobre a vida. Então acho que também não tenho tanto medo assim de morrer.


-Como assim? – Pela segunda vez eu conseguia colocar em seu rosto uma expressão de confuso.


-Não tem sentido a gente viver e depois morrer sem descobrir o significado disso tudo. Pra mim tem que ter uma enorme descoberta depois que atravessamos a fronteira da vida com a morte. Um esclarecimento sobre o porquê tudo isso existe. Descobriríamos a razão nas coisas, qual é a verdade, quais caminhos deveríamos seguir, qual religião é a certa. Se não tiver nada, eu confesso que ficarei muito decepcionada. Seria a maior sacanagem a gente viver, sofrer aqui e do nada tudo acaba sem razão nenhuma.


-Então você tem fé, isso é interessante. É fé em Deus?


-Eu não sei. Há tanta religião, tantas crenças, que é difícil acreditar em alguma delas. E se eu acreditar em algo, corro o risco de estar acreditando errado, então eu prefiro não acreditar em nada.


-Então você é ateia?


-Ér... Não exatamente. Eu acredito em Deus.


-Mas você acabou de me dizer que prefere não acreditar em nada a ser enganada. – Tá, agora ele tá voltando a me colocar em estado de duvida novamente. Gente, eu não ganho pra isso.


-Ah, mas tem exceções. É impossível você desacreditar de absolutamente tudo. Eu acredito na existência de Deus, talvez seja a minha única fé. Eu não sei se ele é o Deus do cristianismo, hinduísmo ou budismo. Mas que ele existe, disso eu sei.


-Como pode ter tanta certeza quanto a isso?


-Como posso ter tanta certeza que não? Basta olhar pra cima. – Nós dois olhamos para o céu quase que de maneira sincronizada. – Acredito que a própria estrutura do universo, tão complexa como é, é a prova de que existe um Deus criador. Desde cada minúsculo detalhe da imensidão do macrocosmo, até a perfeição do microcosmo. É surpreendente demais, alguém tem quer ter feito essa bagaça toda.


Ficamos em silêncio por alguns instantes. Até o barulho das goteiras haviam cessado. De tanto eu ficar sentada, meu corpo se cansou, então eu deitei naquele chão recém-molhado pela chuva, sujando ainda mais a minhas roupas. A minha mãe certamente vai reclamar, mas eu estou fazendo uma viagem pelos astros!


 

Rabisque linhas ao horizonte


Em corações de papel


Voe pelas correntezas


Do rio chamado céu


Encontre as belezas


Por debaixo deste véu


Encontre o que você sabe encontrar


O que você quer encontrar”


 

-Você me surpreendeu, esponjinha-vermelha.


-Por quê? – Ele me surpreende dizendo que eu o surpreendi.


-Essa sua visão de Deus e do universo, eu nunca tinha parado pra pensar em algo assim, mas me surpreendeu porque até que faz certo sentido. Sua fé não estar completamente perdida é algo importante.


-É difícil surpreender alguém que te surpreende. Somos duas crianças surpresas. – Eu sorri. – Ainda sou ignorante. Eu estava completamente fora de mim e iria fazer algo terrível. Essa conversa me ajudou bastante, obrigada!


-Não tem de quê! Eu fico feliz em ajudar, especialmente quando são pessoas exageradas como você. – Sorriu pra mim também.


Sentado no degrau ao lado do muro, ele apoiou sua cabeça na porta de sua casa e ficou olhando para o céu junto comigo. Deitada ali naquele chão, percebi o quão assustador era notar que nós, num mesmo olhar, contemplávamos o infinito. O infinito que sempre esteve lá, acima de nossas cabeças, mas que acaba despercebido a maioria dos dias. As pessoas esquecem que o céu não é o limite.


Pela primeira vez, eu não me sentia mal por ter tantas dúvidas em minha mente. Apesar de elas serem muitas, eu aceitava aquilo. O certo e o errado se definiam na minha cabeça depois de tanto tempo. Se eu vou morrer um dia desses, se não vou saber o que vai ter depois, pelo menos vou aproveitar o tempo que tenho agora, ao invés de ficar me preocupando com dúvidas que eu nunca vou desvendar. Quero extrair o máximo da vida, ficar com a consciência limpa e tranquila.


-Precisarei ir agora, se não perderei o ônibus. – Ele se levantou interrompendo meus pensamentos. – Foi um prazer, Caliandra Bergenthal. Fico realmente feliz por ter te conhecido.


-Oh, sim. Tudo bem. – Me levantei do chão. – Minha roupa está imunda. Minha mãe vai me matar.


-Diga para ela que possivelmente as mesmas partículas que estão na sujeira de suas vestes hoje, estavam na boca de um dinossauro há “lhões” de anos atrás. – Eu gargalhei junto com ele.


Depois de retirar um chapéu de sua mochila e colocá-lo em sua cabeça, ele a pegou do chão e colocou em suas costas. Parecia pesada, mas ele estava contente em carregá-la. Ele vai realizar o seu sonho, pelo menos vai ser algo que gosta.


-Volte para casa agora e tome cuidado. – Ele me pediu gentilmente.


-Certo. Eu irei. Tome cuidado você também. Não vá se perder por aí. – Ele só acenou discretamente antes de virar a esquina da entrada do beco, por onde eu tinha entrado correndo de maneira nada circunspecta.


Eu fiquei parada ali por alguns minutos refletindo sobre tudo que havia acontecido. Encostada no muro, tomei percepção de que agora realmente estava ficando tarde. Eu deveria voltar ligeiramente, antes que minha mãe surtasse e chamasse a polícia. Com certeza ela deve estar preocupada.


No caminho de volta para casa, mais uma vez me senti grata aquele garoto. O que era muito estranho. Estranho porque talvez ele fosse enviado para fazer uma grande diferença na minha vida. Talvez eu nunca mais o veja de novo. Alguém que me salvou e não sei sequer o seu nome ou sua idade. Falamos de fé, mas eu não sei nem ao menos a sua religião. E ele nem se quer sabe que me salvou de um suicídio, que tentei outrora antes de minha grotesca fuga.


 

 

 


Próximo episódio: Violeta estava acostumada à superioridade aparente, à vantage aparente dos vários status que ostentava por sua classe social, mas descobre-se miserável afinal e encontra um nova oportunidade de dar um novo sentido à vida.
Autor: Wellyngton Vianna
Data de publicação: 16 de fevereiro