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DÁLIA - GABRIELA SANTOS RIBEIRO


 "Sabor tropical"


“Preto, branco, amarelo ou vermelho. Não são filhos do mesmo Deus? Não são todos seres pensantes? Não são todos dignos de respeito? Não são todos ​humanos?”




Dália encontrava-se atônita enquanto sua mãe gemia de dor. Seu pai tentava ampará-la, mas não era semelhante a um atendimento médico. O céu estava negro como as esperanças daquela família. Se não fossem as poucas luzes da cidade, ninguém ali seria capaz de enxergar o que estava ao seu redor. As iluminações artificiais aclaravam o ambiente mal cuidado pelos políticos.

A chuva caía assim como as lágrimas nos olhos da garota, que pedia a Deus para cuidar daquela senhora. Não tinha dinheiro, carro e nem status. Tudo o que lhe restava era sua fé de que a situação poderia ser revertida… Ou, ao menos, sua dor amenizada.

Um transporte público vinha em sua direção. Ela correu, na tentativa de fazer sinal. Queria voltar para casa… Mas sacudir os braços foi em vão. A única coisa que conseguiu foi com que suas roupas ficassem ensopadas por água suja. O motorista não foi nada gentil acelerando ao passar numa poça. Àquela hora, ninguém parecia querer ajudá-los. Durante a situação problemática, o antiquado modelo de celular da moça começa a tocar.

Atendeu-o assim que voltou à marquise do ponto:

- Alô? Dália? - a voz masculina do outro lado da linha era inconfundível.

- Oi, Marc. Eu estou um pouco ocupada agora… Acabei de sair do hospital com meu pai e minha mãe. Ela não conseguiu ser atendida. Estamos no ponto de ônibus. - passou a ponta da manga de seu casaco sobre a pele preta de seu rosto. Talvez aquele tecido de brechó, ainda que molhado, pudesse acabar de alguma forma com o excesso de água.

Marcus sentiu um pouco de receio ao ouvir isso. Enquanto sua amiga passava por uma situação complicada, ele aproveitava um banho de banheira pensando nos negócios da empresa que logo herdaria - e ainda pensava estar com problemas.

- Você… Quer uma carona?

- Não precisa. Não quero incomodar… Até porque você mora bem longe daqui. Deve estar muito ocupado.

- Não exatamente… Na verdade, eu queria fazer um convite. Mas quero que seja pessoalmente. Precisamos nos ver. Amanhã você não vai trabalhar, certo?

- Por enquanto, estou de férias.

- Certo, então me encontre na praia em frente ao restaurante que você trabalha, pode ser? Tenho uma notícia boa!

- Está bem… Estou precisando mesmo de boas notícias. - bufou.

- Há! Obrigado! - só pela voz, a garota já sabia que Marcus dava um de seus clássicos sorrisos marotos. - Vejo você amanhã às dez.

- Sim. - ainda que cansada, sorriu também. - Boa noite.

- Espera.

- O que foi agora?

- Tem certeza que não quer uma carona? Dália olhou o rosto sofrido de sua mãe, que contraía o abdômen e parecia estar segurando-se para não chorar na frente de sua família.

- Eu… - quando a garota iria aceitar o pedido, o ônibus desejado parou para liberar alguns passageiros. - Vou subir no ônibus. Até amanhã. Beijo.

- Ah, está bem. Beijo. - Marcus tentou não demonstrar ter se sentido meio inútil com tudo aquilo.

O rapaz sentado na banheira começa a inclinar-se lentamente nas águas até que elas comecem a chegar à altura do pescoço. Olhava constantemente para cima enquanto falava com um amigo que Dália havia apresentado há um tempo: Deus.

- Será que ela vai ficar feliz com o que eu vou dizer? - suspirou, esquecendo num instante o principal motivo de estar indo procurá-la. Naquele momento, só conseguia pensar em como a proposta que surgiria com o nascer do sol poderia mudar a vida de sua melhor amiga.

O jovem decidiu sair logo do banho. Tinha certeza de que ficaria com insônia caso pensasse demais em Dália. Essa paixão da faculdade sempre o abalou demais.

 

***



A coisa mais linda vinha de forma tímida, com uma das mãos protegia seus olhos por falta de viseira e com a outra, colocava mechas de seu cabelo atrás da orelha. Aquele cabelo escuro e intenso como eclipse, cacheado e longo, que ia até metade de suas costas, balançava enquanto passava pelo calçadão. Seu velho e único biquíni amarelo ficava ainda mais realçado em contraste com sua pele… Descia até a areia macia em direção a Marcus. Antes ele estava tomando sol, agora se ergueu para cumprimentá-la:

- Até que enfim: Dália, a flor que precisa ser exposta a sol pleno! Quer usar o meu boné? - ofereceu, percebendo que a garota nem estava mais acostumada a ficar debaixo daquele brilho intenso do sol.

- Não me venha com essas piadinhas bestas. Eu tenho ficado em casa a maior parte do tempo. - fez biquinho, mas era perceptível que prendia o riso.

Em poucos segundos de silêncio, mudou de humor, lembrando-se do motivo de ficar tanto em sua residência. Demonstrou tristeza irremediável.

- Desculpa pela demora, eu tive alguns problemas… - disse cabisbaixa.

- Ah… Assuntos de família outra vez? - ficou preocupado.

- É. Mamãe passou mal durante a noite. Mas não viemos falar disso, certo? - esforçou-se para pôr um sorriso sincero em seu rosto.

- Claro. Vim lhe convidar para ir comigo a um cruzeiro pelo Rio de Janeiro, que vai tratar de assuntos da empresa do meu pai.

- Marc, você sabe que amo vocês e reconheço que já me ajudaram muito…

- Isso apesar de você ser orgulhosa demais para aceitar nosso apoio na maioria das vezes. - falou passando a mão por seu cabelo liso e revirando seus olhos castanho-claros.

- Você sabe que não gosto de viver na aba de ninguém. Se não fosse pela mamãe, eu não aceitaria um centavo. - virando o rosto, justificou-se diante do mar, que trazia a calmaria de seu som.

- Sei bem disso.

- Pois é. E você também sabe que essas coisas de classe alta não são minha praia…

- Eu sei. Ipanema é sua praia. - brincou. - Não se preocupe, você não precisa se fantasiar de chique se não quiser. A verdade é que eu consegui um serviço para você como especialista em comida vegetariana na viagem… Bem de acordo com o seu emprego no restaurante.

- Ah, servir madame é muito mais a minha cara.

- Odeio quando você fala desse jeito.

- Fazer o quê? É a verdade. Eu não me sinto mal por isso, eu trabalho com dignidade.

Enquanto Marcus começava a argumentar, tentando convencê-la a ir, Dália desligou-se por um momento do mundo enquanto a brisa suave soprava em seu rosto gentil.

 

Por alguma razão, toda a vez que falo sobre meu trabalho com ele, me vem à cabeça as memórias da faculdade. Consegui cursar gastronomia por esforços exorbitantes somados às cotas para conseguir uma bolsa de estudos. O vestibular exigia quesitos que o ensino público não me deu, mas graças a Deus passei. Na sala, eu era um grão de feijão no meio de um punhado de arroz. Sentia-me acuada em não ter pessoas como eu ali… Porque sabia que uma carga histórica estava sobre a minha etnia e essa mesma carga fazia com que passássemos por dificuldades para ter o menor avanço na sociedade que não foi estruturada para nos receber. Ela nos acorrentava para que nunca chegássemos ao patamar do homem branco. Às vezes eu até me pegava olhando para as meninas da classe, me queixando de ter lábios carnudos, um nariz mais largo e 'cabelo ruim'. Mas Marcus sempre me enalteceu. Dizia que eu era a menina mais bonita da universidade… Mas era difícil acreditar nisso enquanto Marc me enxergava apenas como amiga. Do que eu posso reclamar? É o natural. Ele sempre foi meu melhor amigo. Ele costumava repetir alguns períodos, nunca estava preocupado com nada… Seu pai bancava tudo, já que era uma faculdade particular. Enquanto isso, eu precisava conciliar meus estudos e cuidados da minha mãe doente… Enquanto trabalhava de garçonete no restaurante vegetariano em que hoje sou cozinheira. Felizmente uns membros da igreja (muito amigos de meu pai) me ofereceram a oportunidade de arrumar emprego ali.

 



 

- Dália, você está me ouvindo?

- Quê?...

- Tem 23 anos e já está surda?

- Não… Eu não prestei atenção. Perdão.

- Poxa, sempre isso. - Marcus ficou chateado. - Me escuta. Eles vão pagar bem, isso eu posso garantir.

- Beleza, mas pra que eles querem comida vegetariana mesmo?

- Pra comer.

- Para de graça, vai. - ele ficou incomodado por ter que repetir o que já havia dito.

- A mulher de um dos patrocinadores principais virou vegetariana e quem chefia a parte das refeições não tinha averiguado isso antes. Como ela é uma pessoa importante, se não a atendermos direito, podemos ficar mal na mídia. É a chance perfeita pra você mostrar seu talento e pagar as dívidas com o meu pai.

- Só com o seu pai?

- É, eu não ligo pra negócios. A senhorita sabe que eu largaria tudo pra virar surfista. Viria ver você todo dia aqui... Então eu só aceito você me pagando com beijos.

- Palhaço. - ela ri e dá um leve empurrão no ombro de seu amigo.

- E aí? Topa?

- Eu não sei… - mirava os pés e balançava seus dedos. A areia de Ipanema começava a invadir seus chinelos.

- Vamos, Dália! Eu sei que você está livre. Semana passada você me contou que seu pai também foi liberado do trabalho! Ele vai poder tomar conta dela!

- Na verdade, eu quis dizer que ele foi demitido…

- Ah… - o rapaz fica sem graça e sem reação. - Então… Mais um motivo pra você ir, né?

- Você é muito sem noção mesmo.

- Vamos, vamos! Por favor! Não me deixa ir sozinho, você sabe que eu odeio ser empresário! Só Deus e você pra deixarem aquele passeio menos chato!... Eu já vi tudo antes, não vai cair no Sábado!... Você sabe, se caísse, nem eu iria. Mas como eu já dei um jeitinho nisso, eles ficariam me perturbando… Vem comigo!

Num suspiro, a garota finalmente cedeu aos pedidos.

- Tudo bem, eu vou.

- Aê! Arrume logo as malas, nós vamos viajar! - segurou-a num abraço apertado que chegava a doer um pouco. Animado, ergueu-a do chão e deu um giro. - Você não sabe, mas acaba de salvar a reputação da nossa família!

- De nada, agora me bota no chão! - por medo, Dália fechava os olhos com força enquanto segurava firmemente os músculos do braço de Marcus.

 

***




- Não sei, não, Marc… - Dália começa a recuar ao perceber que a gente que passa perto da porta da cozinha do cruzeiro estava bem vestida.

- Agora não adianta chorar. Já partimos. Só volta se for nadando.

- Não me parece uma ideia tão ruim…

- Pode parando, eu é que sou o rei das piadinhas aqui. Agora se concentra, está na hora de ficar rica!

- Ah, tá, até parece… No máximo eu consigo pagar um hospital que atenda minha mãe.

- E isso já não é bom?

- É… Perfeito… - suspirou tentando alcançar o mínimo de foco.

- Chega de enrolar! - Marcus abriu a porta com um chute indiscreto enquanto puxava sua melhor amiga para dentro da cozinha.

- O que vocês estão fazendo aqui?! - uma mulher de uniforme diferenciado recebeu-os rudemente.

- Seja mais cortês, dona. - o rapaz não deu muita importância ao comportamento inapropriado da responsável pelo setor. - Esta aqui é Dália, sua nova e maravilhosa cozinheira que irá fazer as refeições da senhora Valdeck. - o herdeiro apresenta a moça, que dá um sorriso sem jeito.

- Você está de brincadeira comigo? Esta é uma cozinha de respeito, nós prezamos pela higiene das nossas preparações. Não posso deixar alguém como ela fazer parte da nossa equipe. Imagina se alguém descobre que ela está aqui… Só essa garota sair pela porta da frente já pode causar um rebuliço danado para a gente. - a mulher começou a cochichar e parecia atordoada.

- Espera… A senhora está querendo dizer que só por eu ser preta, sou suja? - Dália ficou indignada.

- Pra ser honesta, eu ainda acho muita coragem da sua parte você aparecer aqui.

- Ah, tá! Pra mim já deu. Eu não preciso ficar aqui ouvindo isso. - a garota, furiosa, deu as costas com os olhos involuntariamente marejados.

- Não senhora. Você fica. - Marcus segurou-a pelo braço. - Quem você pensa que é?

- Apenas a cozinheira chefe mesmo. - respondeu em tom arrogante e fez cara de nojo ao observar Dália.

- Escuta, caso você a trate desse jeito só mais uma vez, fique ciente que você não vai trabalhar como cozinheira nesse estado, no mínimo, por uns trinta e cinco anos.

- E você acha que é quem?

- Apenas o filho do seu chefe mesmo. - a mulher arregalou os olhos e ficou encabulada no mesmo instante.

- S-Senhor Marcus? - ela logo se desarmou. - Desculpa... Eu não reconheci. Você está diferente…

- Andei me bronzeando, só não espero que você me destrate por ter ficado mais escuro também. Não fique achando que vai ficar por isso mesmo, logo após a viagem entrarei com um processo. - Marcus deu um sorrisinho cínico.

A cozinheira chefe não falou muito durante a apresentação do setor à novata. Após fazer sua parte e entregar o uniforme a Dália, fez questão de ficar longe dela.

- Tem certeza que não quer que eu fique aqui com você? - Marcus se oferecia enquanto observava a garota começar a trabalhar.

- Não precisa. Vou ficar bem. Vá aproveitar sua viagem. Você precisa fingir que liga para a conversa dos patrocinadores.

- Verdade. Ninguém merece. - resmungou. - Preferia mil vezes ficar olhando você.

- Sinceramente, você tem me cantado tanto que eu estou começando a levar isso a sério. - Dália ri enquanto corta cebolas para preparar o primeiro jantar.

- Finalmente, hein? - Marcus encarou-a com olhos semicerrados e um sorriso sarcástico nos lábios. A moça para de cozinhar por um instante e fica paralisada. - Bem, tô indo lá fora. Fica com Deus, flor. - acenou e foi para fora da cozinha.

Dália começou a fazer o serviço contente, mas por dentro havia uma dorzinha que a incomodava - a memória do comentário da cozinheira chefe. Não era a primeira vez que sofria um caso de racismo. Porém, ao menos tinha alguém do seu lado dessa vez. Marcus era um em muitos, tê-lo ao seu dispor se tratava de uma sorte enorme. Ela sabia muito bem o que era ser humilhada sem ter um príncipe encantado para ajudá-la a lutar… Com todas as vezes que foi posta como inferior, Dália já não se via como princesa, mas como guerreira.

Enquanto preparava a refeição com seu jeito disperso, uma das cozinheiras começou a se aproximar dela, interrompendo-a. Tinha cabelos pretos e olhos bem puxados:

- Oi, você é a garota nova, né? Minhas colegas já estavam falando de você!

- Ah, que ótimo… - Dália forçou simpatia, mas sem sucesso nenhum.

- Vem cá, como você conheceu Marcus?

Dália não queria ser mal educada, mas também não queria sair contando da sua vida para uma menina que ela sequer sabia o nome. Tentou omitir o máximo possível de informações.

- Faculdade. E ele começou a ir à igreja comigo quando convidei…

- Igreja? - ficou impressionada.

- Sim. Por que a surpresa?

- É que eu jurava que você era da umbanda!

 

***



- Esse aqui é seu quarto! - Marcus apresentou-o a Dália, entusiasmado. - Você gostou?

- Ah, sim. - disse distraída enquanto tirava a Bíblia de sua pequena mala.

- Não parece… Aconteceu alguma coisa? Aquela mulher perturbou você de novo?

- Não. - sacudiu a cabeça em negação. - Marc… - chamou em voz chorosa.

- O que foi?

- Eu me sinto deslocada. Me arrependo de ter vindo. - não conseguiu conter seu pranto.

- Dália, você não tem que se importar com o que as pessoas falam pra denegrir você. As coisas ruins que eles pensam a seu respeito são problemas delas. - ele franzia o cenho enquanto enxugava as lágrimas da moça.

- E o que você sabe?! É branco, rico, respeitado… O filhinho do patrão! Ai de quem disser algo contra você. - afastou a mão de Marcus.

- Eu posso até não sofrer esse tipo de preconceito, mas tenha certeza de que eu repudio isso tanto quanto você…

- Você não tem motivo para sentir a repulsa que eu sinto, Marc.

- Claro que tenho. Eu amo você mais do que a mim mesmo. Odeio tudo que faz mal a você. Só não odeio as pessoas, porque não quero me parecer com quem te maltrata… Sem contar que você sempre me ensinou que devemos amar uns aos outros como amamos a nós mesmos. O único esforço que eu faço é para amar quem é grosseiro com você. Porque você eu já amo sem tentar…

- Você é muito lerdo. - Dália deu um abraço apertado nele. - Por que não disse isso na faculdade? Eu fiquei esperando como uma sonsa.

- A senhorita estava ocupada demais dizendo como sou um bom amigo. - Marcus desviou o olhar e emburrou o rosto, que estava começando a ficar vermelho. Retribuiu o abraço lentamente. - Eu sei que a conversa tomou um rumo meio nada a ver, mas, só pra confirmar, você quer ser minha namorada?

- A essa altura do campeonato, eu já deveria ser noiva. Mas namorada tá bom por enquanto… Aliás, eu também amo você. Mas…

- Lá vem. - disse já sabendo que ela retomaria o assunto.

- Eu quero ir embora.

- Não desista, por favor. Eu vou tentar fazer deste passeio um pouco menos insuportável.

- Como vai fazer isso?

- Bem, antes de cozinheira, você é minha convidada… Há algo para você no armário. Use, porque daqui a pouco vai começar o jantar.

- Ah, não…

- Ah, sim!

 

***



- Essa roupa não tem mesmo nada a ver comigo. - Dália disse dando uma voltinha com seu vestido longo, de cor salmão e costas abertas.

- Também acho. Mas ele ficou lindo em você. - o rapaz admirou enquanto ajeitava a gravata de seu terno.

- Não acredito… - começou a atentar para a decoração do cruzeiro. - Ah, quem será que escolheu dálias pra enfeitar a festa no navio? - questionou irônica.

Marcus começou a assobiar.

- Você é ótimo. - ela riu.

- Aqui. - chegou por trás da garota e começou uma explicação sobre cada uma. - As amarelas significam amor correspondido; as vermelhas são paixão insinuante; as rosadas são delicadeza; já as roxas são um pedido de piedade.

- Você deve ter gastado um tempão memorizando isso.

- Pois é, o mesmo tempo que você me deixou na ​friendzone. - mais uma vez exerceu sua mania: passar a mão pelos cabelos.

- Para com isso! - abriu um sorriso. - Mas e aí… A dália preta e salmão é o quê?

- Acho que uma promessa de que a pessoa vai fazer de tudo pra deixar você feliz.

- Depois eu vou pesquisar isso. - virou-se de frente para olhá-lo nos olhos e então colocou os braços lentamente sobre seus ombros.

Marcus começou a se aproximar. Ao abraçá-la, ela pôde ouvir o coração de seu amor pular de alegria. O jovem rapaz segurou sua nuca carinhosamente, com a boca e os olhos semiabertos. Depois de tanto tempo, estava se achegando para finalmente beijá-la, experimentar algo que ansiou por muito tempo.

- Futuro senhor Tavares! - o momento a sós foi encerrado. As pessoas estavam começando a chegar à festa e o secretário de Marcus acabara de chamá-lo. - Seu pai e o senhor Valdeck estão chamando para conversar.

- Você quer vir comigo, Dália? - convidou.

A garota olhou ao redor. Percebeu que mais uma vez estava em desvantagem de número. Notou algumas meninas num canto do navio cochichando e rindo enquanto olhavam para ela. Não tinha certeza se estavam zombando, mas independente disso era uma situação desconfortável. Preferiu ir com Marc a ficar sozinha ali, onde não conhecia ninguém.

- Ora, chegou nosso campeão! - dizia um homem obeso sentado numa cadeira.

- Boa noite, senhor Valdeck. O que sua esposa achou da comida? - Marcus puxou assunto, apesar de completamente enfadado por dentro.

- Eu adorei. O melhor capeletti ao molho branco que já comi. - respondeu a mulher loira que ficava constantemente agarrada ao braço do marido. - Dê meus parabéns a cozinheira, ela leva jeito.

- A senhora pode parabenizá-la pessoalmente, ela está aqui. - apresentou Dália.

- Você está namorando a cozinheira? - Valdeck pôs-se a rir, fazendo com que sua enorme barriga balançasse.

- Sim, dessa forma eu terei motivo para ficar como o senhor. - Marcus não conseguiu segurar a língua, mas pensou em algo para disfarçar assim que fitou a expressão já sem graça de sua namorada. - Dizem que por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher.

- Tem razão, tem razão. - o homem foi parando para respirar.

- Quem é mesmo sua namorada? - senhora Valdeck não fez questão de esconder a falsidade em seu tom, porque, diferente do marido, tinha percebido as más intenções de Marcus em sua primeira afirmação.

- Ela se chama Dália. - colocou a mão no ombro da garota e aproximou-a de si.

- Ah, sim! É que está de noite e ela é tão escurinha, quase não vi. - deu uma pequena gargalhada.

- Hm… Há uma coisa que eu também não vi até agora. - Marcus abriu um sorriso.

- O quê? - a loira questionou.

- A graça nessa sua piadinha. - imitou a risada da mulher, que ficou séria instantaneamente.

- Ora, Tavares, não fique ressentido! Sua namorada parece ser uma ótima mulher. Sabe cozinhar, diferente dessa daqui. - apertou a cintura de sua loiríssima esposa.

- De fato, ela é ótima. - Marcus disse enquanto Dália apenas observava a situação, parecia não ter voz para dizer nada. Fraca por dentro, não poderia colocar nada para fora.

- Para ser honesto, - continuou senhor Valdeck, levantando-se. - eu bem que gostaria que minha terceira esposa fosse como Dália. Ela é exótica, estonteante! Ela já é muito bonita assim, imagina se fosse branca! Eu com certeza a roubaria de você. Mas eu entendo que você goste de meninas da cor. Suponho que seja bem firme com ela, lembrando o passado. Até porque não haveria tanto mestiço, se as negras não fossem boas na cam-...

Marcus não tolerou ouvir aquilo por mais nenhum segundo. Senhora Valdeck começou a fazer escândalo, porque o rapaz segurava o colarinho de seu esposo e desferia-lhe diversos socos, enfurecido. Dália tentava segurar seu namorado, mas ele era três anos mais velho e também três vezes mais forte que ela. A moça nunca tinha visto seu melhor amigo ficar com tanto ódio assim.

No fundo, sentia que todas aquelas circunstâncias eram sua própria culpa. Mas como poderia controlar a aparência física de nascença, que é algo que não se escolhe? Mais melanina na pele nunca havia sido um peso tão grande a se suportar. Sem estereótipos? Impossível. Sem respeito? Quase sempre. Sem as mesmas oportunidades? Certamente.

Dália sentia que, por mais que fosse igual aos olhos de Deus e por mais que procurasse ser a flor mais esforçada de todo o jardim, os homens iriam interferir: tentariam pisar nela, cortá-la, tirar dela toda água e todo o sol, fazendo com que a vergonha de ser quem ela é realmente seja o mais próximo que ela terá de um final feliz.

 

 


Próximo episódio: A mãe Tetê, Hortência, sempre sofreu com as investidas contrárias de uma comunidade evangélica de Foz do Iguaçu, mas a chegada de um novo pastor une religiões distintas com o propósito de ajudar o próximo.
Autor: Felipe Lima
Data de publicação: 09 de fevereiro