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ÍRIS - LUAN RIBEIRO


 "A luta continua"


Eu tenho policiais na família! - Gritara encolhida no chão.  - Não minta! Eu conheço todos os seus familiares - sorrira o sequestrador ironicamente.  - É burrice! Eu tenho uma doença e logo estarei morta. Será acusado de homicídio! - Chega! A partir de agora você só me obedece e só fala quando eu mandar! Entendido?! – gritava agressivamente.  - Sim!- Chorara por alguns instantes.

Era noite. O local lembrava um porão. Havia chovido recentemente e algumas goteiras caíam sobre os cabelos loiros de Íris. O cheiro era forte, um odor de mofo. Algumas baratas circulavam pelo local. Ao redor não existia janela nem porta. O espaço era pequeno e sufocante. De cabeça baixa Íris fechava os olhos pedindo silenciosamente por proteção. Quisera ela que tudo fosse um sonho. Respirava fundo acreditando num milagre que estava distante da realidade. Ela vestia um uniforme social e um salto alto. O desespero do momento a fez esquecer o quão desconfortável eram aqueles sapatos.

-Levante-se! Vamos agora! - esbravejara o sequestrador.

Íris arrumara sua roupa e se equilibrara no salto com uma aparência abatida. Quando olhou para os olhos do homem foi interrogada.

-Por que fez aquilo?

- Eu não tive opção! - Respondera com clareza.

- Não era pra você estar aqui! Era pra outra pessoa! Você não acha que foi patética?

- Faria de novo se fosse necessário!

- Cale a boca! - O sequestrador daria tapas com força no rosto dela.

- O que quer de mim? - Perguntara ela com a mão no rosto, ainda sentindo as dores da tapa.

- Você estragou tudo. E já que está aqui, terei que aproveitar ao máximo. Você tomou a pior decisão da sua vida!

Íris tinha uma missão. Mas estava vedada ao fracasso enquanto tivesse sobre aquela situação.

***


Passaram-se três semanas e um dia. Íris vestia uma blusa preta confortável e um calção masculino. Estava descalça. Havia um pequeno tanque e lá fazia sua higiene pessoal. Por todos esses dias não conseguiu enxergar com perfeição a luz do dia. E também não havia luz artificial. As 24 horas do dia eram na escuridão. Os dias de verão sufocavam com temperaturas acima de 30 graus. No chão podia dormir por horas. Na maioria das vezes estava só. Quase todo o período, teve que se acostumar com a solidão.

A cada doze horas Íris recebia uma refeição que era jogada por debaixo de uma porta. Pra sua surpresa a comida era balanceada e rica em proteínas e com saladas e vegetais, tudo conforme estava habituada. O sequestrador dificilmente aparecera no local nesses dias o que aumentava ainda mais o desespero dela. Seu organismo estava agindo de forma estranha. Estava enjoada e vomitando com frequência, o que deixava o ambiente ainda mais imundo e com mau cheiro. Não havia produtos de limpeza para amenizar o dor. Colocara jornais sobre os vômitos. A hora da refeição era a mais prazerosa, salvo a uma terapia que havia inventado. Íris sempre foi criativa. Recortara com as mãos imagens de pessoas dos jornais formando sua turma imaginária de amigos. Uma das fotos era de um homem idoso que ela chamara de Mauro. E por horas conversara pedindo conselhos com o sábio senhor. Na sua mente aquelas gravuras eram definitivamente pessoas. Na hora de dormir segurara com força a foto de uma menina que chamara de Alexia. Esta sem duvida era seu xodó.

Logo ouvira barulhos. Descia o sequestrador. Usara calça jeans com uma camisa polo marrom, cabelo grande e barba mal feita. Tinha uma aparência fria e era de poucas palavras. Somente no primeiro dia demonstrou agressividade, mas era completamente calado. Jogara com força uma sacola sobre o rosto de Íris.

- Mas o que é isso? - Perguntara assustada.

- Você vomita sempre! Use!

Íris abrira a sacola e via um teste de gravidez. Pela primeira vez urinou na frente do sequestrador:

-E então?! - Questionara o sequestrador.

-Estou grávida!

Íris se emocionara e ao mesmo tempo sorrira como se tivesse realizada.

 



 

***


Qualquer pessoa diria que Íris era uma jovem. Pois sua aparência era de uma garota. Seu corpo lembrava um violão. O desenho dos seus lábios era o que mais chamava atenção. Sua beleza rendeu alguns concursos, conquistando a faixa de miss Santa Maria para posteriormente disputar uma final em 1985 no miss Rio Grande do Sul. O resultado foi o segundo lugar e junto com ele uma gravidez inesperada aos 16 anos de idade. Ela estava sozinha sem o apoio dos pais e teve que criar Ariane com todas as suas dificuldades. Íris sofreu preconceito num ambiente de trabalho completamente machista. Entrou como instrutora de uma autoescola de Santa Maria. Foi conquistando seu espaço até chegar ao cargo de gerente de uma das filiais. Colocou muito marmanjo no bolso. Era craque em direção defensiva e sabia como ninguém a arte de ensinar e conquistar pessoas.

O fato de estar sozinha naquele espaço era doloroso demais para uma pessoa tão criativa e talentosa como ela. Ficar grávida aos 42 anos naquelas condições era muito arriscado. Os dias passavam rapidamente e Íris recebia os cuidados necessários para ter uma gravidez saudável. As refeições passaram a ser mais constantes e sua barriga ganhava um desenho. Ganhou entre outras regalias uma espécie de sino para alertar sobre qualquer emergência. Sua sensibilidade durante a gravidez fez com que se apegasse ainda mais com seus amigos imaginários. Dispensou amiga Maria que lhe acompanhava na academia de ginástica. Agora grávida não podia mais fazer abdominais. Num dia de chuva forte, seu velho amigo Mauro foi tomado pelas goteiras, dissolvendo a sua imagem. Íris chorava e encarou como se fosse um enterro. Convocou os outros amigos e dividiu a tristeza. Ao certo ela não sabia qual era o propósito da sua prisão, mas estava feliz pela sua gravidez.

 

***


A gestação de Íris era arriscada, mas ela estava disposta a gerar aquela criança. Passaram os meses e o medo era constante. O sequestrador havia mudado de humor nas últimas semanas. Estava agressivo, rude.

- Preciso de água gelada! - gritara Íris.

- Cale a boca! Terá água quando eu quiser!

- Achei que ia cuidar da minha gravidez!

- Você acha que sou médico? Você é maluca.

- O que pretende? Veja quanto tempo estou aqui! - Lembrara ela.

- Sabe por que você ainda esta aqui? - Questionara o sequestrador.

- Por quê?

- Pesquisei sobre sua vida e pude perceber que a sua ausência não causou nada na vida de ninguém.

- Como assim?

- Você não tem amigos! No seu local de trabalho todos te detestam. Na sua família, seus pais tem vergonha da vagabunda que você se tornou. Sua filha única nem sentiu sua falta e você nem mesmo tem um relacionamento. Não quero nem saber como teve esse filho!

- Isso não é verdade! - Chorara segurando sua enorme barriga.

- Você é desprezível! Você habitando ou não o planeta terra não faz diferença.

- Desprezível é você! – Explodira de raiva.

- Calada! - Segurara a barriga com força.

- Não faça isso, por favor! - Gritara ela.

- Você fará um favor para mim.

- Faço sim! Só deixe eu ter esse filho, por favor.

- Eu tenho uma dificuldade - falara envergonhado.

- Por isso anda agressivo?

- Vou te levar para um lugar na madrugada.

- Vou sair daqui? - Brilhara os olhos de Íris.

- Não se empolgue! Estarei com uma arma apontada na sua barriga.

Passaram alguns dias e Íris foi acordada no meio da madrugada. Dormia com a imagem de Maria, sua afilhada imaginária. O sequestrador vendou os olhos de Íris e a trouxe para dentro de um carro. Os vidros eram escuros e ela sentava no banco do volante. Assim que retirou a venda pode ver a rua que estava. Seus olhos enchiam de lágrimas, pois depois de alguns meses pode ver as ruas novamente, mesmo que seja madrugada.

- Eu não sei dirigir. Quero que você me ensine - apontara arma em sua barriga.

Durante o dia Íris inventava jogos, falava com seus amigos imaginários. Fingia estar cercada de pessoas para amenizar o sofrimento daquele confinamento. Cada dia que passava pegava um pedaço de papel e fazia uma bolinha. Já havia mais de 200 bolinhas. Seu relógio de pulso era muito importante. Nesse período contou quantos tijolos tinha o local, demarcou o lugar como fosse uma casa dividida em cômodos. Mas quando chegava a noite era seu maior prazer, pois podia voltar a dirigir. O sequestrador estava cada vez mais hábil. E nos últimos dias nem vendava mais os olhos dela. Ela, rapidamente já identificara onde estava. O local era muito mais próximo de sua casa do que imaginava. Andando de carro podia perceber a bela cidade que deixara há muitos dias.

- Você está praticamente habilitado - dissera ela.

- Você é boa nisso!

- Fiz isso minha vida inteira! Agora me conte porque não me solta e me deixa em paz.

- Estou negociando sua liberdade. E você vai esperar o tempo que for preciso.

- Eu não posso. Mais cedo ou mais tarde essa criança vai nascer.

- O meu compromisso é com você. Não estou interessado nessa criança.

- Faz isso por dinheiro? - Perguntara ela.

- Também. Mas por tantas coisas... Apenas fui infeliz o dia que te sequestrei.

- Você queria sequestrar aquela senhora.

- Se tivesse sequestrado ela, já teria um retorno. Ela era rica e adorável e qualquer pessoa se sacrificaria pra pagar algo por ela - falara ele.

- Eu não ia permitir que você fizesse algo com aquela senhora.

- Esse é o preço que você paga por ser justiceira. Não devia ter se metido aquele dia.

- Eu nem sei o seu nome?

- E nem vai saber por que eu não sou seu amigo imaginário.

- Mas você tem família?

- Chega de perguntas. Estou tão feliz que agora posso dirigir que vamos comemorar.

- O que quer fazer?

- Meu sonho sempre foi dirigir e alguém me chupando.

- O quê?

- Abre o zíper da minha calça - apontara a arma.

- Não! - reclamara ela com nojo.

- Chupa! Vamos!

- Por favor, não!

Íris beijara a parte íntima do sequestrador deixando-o completamente excitado. Ele mandara chupar com vontade. Aos poucos ela retirava a boca, mas ele insistia empurrando a cabeça, segurando pelos cabelos. Íris estava se afogando. Logo ele gozou muito dentro de sua boca. Íris chorara como nunca chorou nesses dias. O sequestrador não era um cara atraente, era um homem mal cuidado. Que estava longe de ser higiênico. Quando ela chegou ao seu cativeiro, lavou a boca por diversas vezes. Já estava indisposta e prestes a ganhar seu bebê.

 

***


Íris em breve ganharia o bebê. Os dois haviam combinado de ir num hospital fora da região. Antes mesmo que sentisse as dores do parto estavam a caminho de uma longa viagem. No trajeto o silêncio prevalecia. Ela sentia uma felicidade fora do comum. Independente da circunstância, a vida lhe presenteava com uma benção.

Passado alguns dias Íris abrira os olhos num leito de hospital e pela primeira vez pode ver gente de verdade.

- Cadê meu bebe enfermeira?

- Você teve uma gravidez de risco.

Íris olhava ao redor e pegou o braço da enfermeira.

- Estou sendo sequestrada. Socorro! Me ajuda!

- Calma senhora.

- Tem um psicopata aqui! - Gritara ela.

- O seu marido esta aqui, calma!

- Meu marido? Eu não tenho marido!

- O seu marido que segurava o bebê... Aonde ele foi? - Dissera a enfermeira preocupada.

- Nasceu o bebê? Ai meu Deus! Cadê meu bebê?

Os gritos de Íris chamara atenção no hospital. Pacientes e profissionais vira alguém descontrolada e impaciente. À medida que falava, seus olhos enchiam de lágrimas. A administração do hospital foi sinalizada. A segurança estaria atenta para reverter o ocorrido. Novamente o sequestrador agira como se tivesse planejado tudo. Como se conhecesse cada parte daquele hospital. Ele era esperto, estrategista, um completo doente. Íris foi convidada a dar parte na polí­cia. Naquela região, preferiu, estranhamente, não se manifestar e não tornar o caso mais alarmante. Ela apenas queria se recuperar para posteriormente fazer algo tão planejado quanto a ação do sequestrador.

Finalmente ela estava livre, mesmo que tivesse presa a um hospital. Passaram-se duas semanas. Já havia se recuperado. Arrumou um trabalho como garçonete. Por coincidência, fez amizade com uma colega de trabalho que se chamava Maria. Era tão doce quanto a sua afilhada de papel. Íris olhou ao seu redor e viu que tinha um lindo mundo pela frente. Podia sentir a luz do sol como nunca sentiu antes, podia ver pessoas. Olhar televisão. Acessar a internet. Vestir roupas adequadas. E era perceptível o quanto de pessoas amavam Íris, as correntes, depoimentos nas redes sociais comoviam a guerreira. A senhora que ela salvou do sequestro prestou uma solidariedade à família e buscava incansavelmente Íris. Depois de tanta informação e o choque da realidade, a amiga Maria lhe presenteou com uma passagem para Santa Maria. Era hora de retornar.

Sem dúvidas, a distância da filha Ariana foi o mais difí­cil do confinamento. Ela nutria um amor de leoa pela filha. Era inexplicável, algo muito forte. Ariane tinha seus 25 anos, era uma menina família, doce e desde muito jovem casou-se com Afonso, o genro dos sonhos. Os dois eram jovens promissores e haviam concluído a graduação e tinham emprego estáveis, mas não eram tão felizes.

Era noite, a janela estava aberta. O casal assistia a um filme. A campainha tocara e Ariana abrira com calma a porta segurando um pote de pipocas. Olhou dos pés à cabeça aquela mulher elegante. Aquele ser forte, que nutria o maior amor da sua vida. Era sua mãe Íris. O genro se aproximou e ambos ficaram perplexos com o que viam. As pipocas se espalharam pela sala e o abraço foi espontâneo. Era emoção, uma mistura de alívio. Os três, em silêncio, apenas se abraçaram. A felicidade invadiu aquele lar.

Os dias de Íris jamais foram iguais, ela tinha mais uma missão e estava decidida a manter tudo em segredo. Um dia Ariana perguntou o que Íris temia ser questionada.

- Não deu certo, não mãe! Mas eu estou feliz pelo seu retorno. Egoísmo meu pensar...

- Calma filha! - interrompera Íris.

- Eu acho que nunca vou poder ser uma mãe como você! Quem me dera ser uma mãe um dia – Ariana emocionara-se.

- Você vai conseguir! A inseminação pode não ter dado certo inicialmente devido a minha idade, mas eu prometo pra você que um dia será mãe. Eu prometo! - chorara as duas abraçadas.

Ficar confinada durante dez meses num local pode não ser a melhor sensação do mundo. Escolher se penalizar por outra pessoa pode ser considerado burrice. Mas diante de uma situação tão difí­cil, há grandes lições de vida. Por amor Íris aguentou toda sua gestação cautelosamente, utilizou recursos para ganhar motivação, fez academia, brincou, conversou, criou laços com imagens. Fez daquele lugar o seu momento, pois no fundo ela sabia que aquela criança mudaria sua vida e de sua famí­lia. Somente ela acompanhou a luta da sua filha para ser mãe. E bem lá no fundo, Íris tinha certeza que sairia daquele lugar. Porque o amor que ela nutria por aquele ser era superior a qualquer barreira na sua vida.

 

A luta continua. É apenas o começo, pois a mulheres como Íris é que são dadas as maiores batalhas.

 

 


Próximo episódio: Camélia é expulsa de casa injustamente pelo pai. Anos depois está decidida a encarar os problemas do passado retornando à Arena, sua cidade, no interior da Bahia.
Autor: Francisco Siqueira
Data de publicação: 02 de fevereiro