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Cena 01: Povoado das Hortaliças. Casa de Enzo. Quarto de Agnella. Final da tarde.

Agnella – Eu não queria contar isso para ninguém, mas não há saída. Mãe, eu... Eu e Gustavo nos... Nos amamos... Nós... Nós nos deitamos, ficamos juntos... Aconteceu, foi... Inevitável. E por isso, mãe, nenhum homem, a não ser ele, poderá se casar comigo. Só ele! Só...

Agnella vira o rosto, envergonhada. Prudência, atônita, tenta se levantar, mas sente uma tontura e cai no chão, desacordada. Vendo isso, Agnella se ajoelha ao lado dela.

Agnella – (Desesperada) Mãe! Acorda, mãe! Perdoa-me! Me perdoa...

E, olhando para o teto, começa a chorar. Como a mãe não responde, Agnella pega o copo de água, e joga no seu rosto. Depois de alguns minutos, Prudência abre o olho.

Agnella – (Aliviada) Graças a Deus a senhora acordou! Eu já estava pensando tanta coisa, mãe...

Prudência – Ai, minha cabeça. Filha, me ajuda a levantar, por favor. (Ela se levanta com a ajuda da filha).

Agnella – A senhora está bem? O que houve?

Prudência – Me senti tonta, minha visão começou a embaçar... (Fica séria) Filha, por Deus, diga que tu mentiste pra mim. Que o que tu falaste não é verdade...

Agnella – (Olha para baixo, envergonhada) Mas é verdade sim... Mãe, por favor, me perdoa!

Prudência – Eu não sei, Agnella. Preciso pensar bastante a respeito.

Ela se dirige à porta do quarto.

Agnella – Por favor, mãe, promete para mim que meu pai não ficará sabendo disso! E... Que eu me casarei com Gustavo! Não me negue isso, mãe! Eu... Preciso!

Prudência – Já falei, minha filha, que eu irei pensar. Eu estou muito abalada com o que acabei de ouvir.

Prudência sai.

Agnella – Irás desculpar-me, meu amor, mas esse é o único jeito de ficarmos juntos!

Cena 02: Entrada do Povoado das Hortaliças.

Assim que Brás caiu,devidoà pedra arremessada por Pero, Inês conseguiu, se arrastando, sair debaixo dele. Ao lado dos dois, estava Pero.

Inês – Ai, Pero, eu nem sei como te agradecer por isso...

Pero – Depois, minha flor do campo. Agora temos que levar esse fugitivo para a igreja, que é onde ele já devia estar.

Pero dá um chute em Brás, que sente a dor e começa a se levantar.

Pero – Muito bem, Brás, agora tu não tens mais como fugir.

Pero amarra os braços, as pernas e a boca de Brás fortemente e o coloca em cima do cavalo em que ele tentou fugir, e que agora é montado e guiado por Inês. Pero monta em seu cavalo e eles seguem para a igreja.

Cena 03: Igreja del Fiume. Quarto em que Gustavo está trancado.

Gustavo estava impaciente.

Gustavo – Já era hora de terem aberto essa porta...

A porta é aberta pelo padre, que “joga” Brás dentro do quarto. Junto com Santorini, estavam Pero e Inês.

Santorini – Venha, Gustavo. É hora de outro rebelde parar para pensar em suas atitudes.

Gustavo sorri e sai. Inês tenta entrar, mas é impedida pelo padre.

Inês – (Irônica) Boa sorte, meu amorzinho... Tenha bons sonhos...

Eles saem e fecham a porta.

Brás – Que raiva! Inês maldita, Pero desgraçado, podem esperar, porque eu ainda volto. Eu volto!

Cena 04: Nave da Igreja del Fiume.

Gustavo encontra seus pais, e os abraça.

Izabella – Por que fizeste isso, meu filho? Tu sabes que é pecado desobedecer, ainda mais a um padre!

Edetto –E mesmo que não tivesse sido a irmã Francisca a tomar atitude, eu te colocaria de castigo!

Gustavo – Não exagere, meu pai. Não há motivo para tanto.

Izabella – Há, sim, meu filho. Mas eu acho que o padre está te chamando.

Gustavo – Ah, sim. Com licença.

Gustavo vai até o padre.

Gustavo – O que o senhor quer dessa vez?

Santorini – Decidi abrir uma brecha. Tu podes ir ao rio. (Gustavo começa a se animar) Porém será no trecho que passa aqui atrás, nada de se dirigir ao povoado. E eu irei contigo.

Gustavo – Bem, se esse é o único jeito, não é? Pelo menos eu me despeço da paisagem daqui.

Eles saem e vão até a margem do Rio dos Campos. Gustavo senta embaixo de uma árvore, deita, cheira sua flor. Pensa em Agnella, e no primeiro beijo dos dois. Pega um pouco da água do rio com as mãos, e se lembra do balde de água que fez tudo começar. Pensa em chorar, mas resiste.

Gustavo – (Falando baixo) Seja forte, Gustavo. Você vai superar tudo isso.

Santorini – Vamos voltar, rapaz! Já está escurecendo, e pode ficar perigoso.

Gustavo – Vamos, padre.

Gustavo olha o rio pela última vez. Lembrou de Heráclito de Éfeso, um filósofo grego.

Gustavo – “É impossível entrar no mesmo rio duas vezes...” É, ele estava certo. Tudo muda... Sejam as águas do rio, sejam as nossas vidas. Tudo muda.

Cena 05: Povoado das Hortaliças. Casa de Inês. Final da tarde.

Pero e Inês estão na sala.

Inês – Então quer dizer que foi tua a ideia de fazer Brás sumir da minha vida?

Pero – Perfeitamente. Tu sabes que eu só quero o melhor para ti, e pensei nisso assim que ouvi o padre falar da Guerra Santa. Não fui genial?

Inês – (Relativamente sedutora) Com certeza, camponês. E eu te serei eternamente grata. Aliás, não só pela ideia. Pelo salvamento também. Como tu soubeste que Brás estava fugindo?

Pero – O padre me falou que o mandaria ir ao final da tarde. Saí mais cedo das terras e fiquei esperando para ver o que aconteceria.

Inês – E como um herói tu me tiraste dos braços daquele crápula e me trouxeste até aqui. Não sei nem como te agradecer...

Pero – Não fales nada, Inês. Eu sei.

Pero se aproxima para beijá-la. Ela desvia.

Inês – Não, Pero. Pelo menos não agora.

Pero – Vamos, Inês! Ninguém precisa saber!

Inês – (Ela se aproxima o rosto dele) Bem, nesse caso... (Vira bruscamente) Deus. Deus está vendo. (Abre a porta da casa) Agora, saia.

Pero – Bem, se você acha melhor, meu amorzinho, eu espero. O quanto quiseres. Mas não tanto, é claro.

Pero sai soltando beijos.

Inês – Quem diria, hein, que esse inútil serviria para alguma coisa?

Cena 06: Igreja del Fiume. Quarto de Gregório. Noite.

Gregório está dormindo. Começa a sonhar. No sonho, ele está sentado, agachado, com a cabeça entre as pernas, e encostado em alguma coisa. Está chorando. Até que sente alguém chegando, e levantando sua cabeça. É Valentina. Ele segura na mão dela, e percebe que estão em uma floresta. Então, eles veem a sombra de um rosto e de uma mão. Os dois correm, mas a sombra corre atrás deles. Depois de um bom tempo sendo perseguidos por ela, eles chegam ao final do caminho, que dá na igreja. Quando dão mais um passo, com a sombra ainda atrás, o que era chão vira precipício, e caem no abismo. Ao chegar ao chão, Gregório acorda. Suspira aliviado ao ver que está na cama, deitado, e não caído.

Cena 07: Igreja del Fiume. Quarto em que Brás está preso. Dia seguinte. Manhã, bem cedo.

Brás dormiu muito pouco. Quando os primeiros raios de sol surgiram do lado de fora, a porta foi aberta.

Santorini – Levante-se, Brás. È hora de comermos, porque, em pouquíssimo tempo, viajaremos.

Brás se levanta, bufando.

Brás – Maldito dia em que esse camponês nasceu! Maldito seja esse dia!

Santorini – Nada de xingamentos dentro da igreja. Venha comigo.

Cena 08: Igreja del Fiume. Quarto de Gustavo.

Gustavo está ao lado de Edetto e Izabella.

Gustavo – E pensar que eu vim a essa igreja apenas para passar uma noite. Acabei ficando um mês. E agora vou para, só talvez, voltar...

Izabella – Não fales isso, meu filho. Tu voltarás sim, voltarás para nós.

Edetto – Tu és um homem forte, meu filho. Vais passar por isso, lutar com garra, e sobreviver.

Gustavo – E, ainda assim, eu não posso perder Agnella...

Edetto – A história já é outra, Gustavo. Aliás, essa história nunca deveria ter começado. Esqueça essa menina. É hora de levantar a cabeça e encarar essa situação. E pra começar, precisamos comer, é claro. Vamos lá. Todos nos esperam.

Cena 09: Igreja del Fiume. “Sala de jantar”.

Santorini, Gustavo, Gregório, Edetto, Izabella e Brás terminaram de comer.

Santorini – Bem, meus caros, partiremos na próxima batida do sino, ou seja, em uma hora. Estejam prontos até lá. E você, Gregório, já sabe: ficará responsável por cuidar da igreja, e me substituir enquanto eu estiver fora. A nossa viagem durará, no máximo, três semanas. Vamos a cavalo, ou em carroças mesmo. O litoral não está tão longe.

Gregório – Certo, padre. Cuidarei bem de tudo.

Santorini – (Se aproxima de Gregório) Confio em você. A irmã Francisca estará observando seu trabalho, e me dirá como você se comportou. E, quando eu chegar, tu já sabes, não é? Faltarão apenas dez dias para a tua ordenação!

Gregório – (Com um sorriso amarelo) Isso mesmo... Dez. Dias. Para a minha ordenação.

Olhando-o de esguelha, o padre sai. Gregório sai da “sala de jantar”, passa pela nave da igreja, e chega ao lado de fora. Senta no chão e começa a olhar a floresta.

Gregório – Meu Deus... Eu não posso te decepcionar. Não posso!

Cena 10: Igreja del Fiume. Uma hora depois.

O padre está reunido na porta da igreja, junto com uma grande comitiva de homens vindos dos vários povoados da região, e com suas famílias, sendo que muitas delas se despedem, enquanto outras irão com eles até o momento da partida. Brás e Gustavo também estão lá.

Santorini – Bem, é hora de irmos. Até logo, irmã Francisca. Até logo, Gregório. Que Deus esteja com vocês e os guie enquanto eu não estiver aqui.

Francisca – Até logo, padre. (Irônica e sugestiva) Cuidado com todo esse povo.

Santorini – Sei muito bem do que a senhora fala, irmã Francisca. Mas não se preocupe: ninguém me dará trabalho. Ninguém. Vamos, pessoal! Temos que partir!

Eles começam a andar, seguindo o padre. Gustavo fica parado, atrás.

Edetto – Vamos, filho! Não faças besteira agora.

Gustavo – Pode deixar, pai. Eu vou. Deixe-me apenas me despedir de meu novo amigo.

Gustavo se aproxima de Gregório, desce do cavalo e o abraça. A comitiva para.

Gustavo – (Falando baixo) Obrigado por ontem. Espero que não haja nada contigo. E lembra-te de seguir o teu coração. Deu errado comigo, mas pode não dar contigo.

Gregório – Boa viagem, meu amigo. Espero poder vê-lo novamente.

Gustavo sobe no cavalo, anda um pouco, mas para novamente e se vira, olhando em direção ao povoado. Fala consigo mesmo.

Gustavo – Até mais, Agnella. Podes ter certeza de que ainda voltarei para ficarmos juntos. E, dessa vez, será para sempre.