Capítulo 6 – Os Contos de Hysteria

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Os Contos de Hysteria

Capitulo 6: O Procurador

O trio andou sem paradas para descanso naquela madrugada, fazendo apenas uma interrupção para que Max repassasse o remédio em sua ferida. Estava muito escuro, mas não tinha problema, já que o brilho das armas era tão intenso que facilitava a leitura do livro mesmo no breu. O próximo ponto era a Vila Hard Rock, uma das localidades mais antigas de Hysteria, lar das criaturas mais fantásticas e amigáveis, além de guardar, de acordo com o livro, a pedra vermelha. Ela deveria se transformar no Machado de Sangue quando Max a segurasse.

O menino ainda caminhava à frente de seus amigos firmemente, não se conformando com o tempo que havia perdido semimorto na cama de Sarah. Quando o sol se levantasse, metade do seu prazo de duas semanas estaria encerrado e ele não podia vacilar outra vez. Mas o cansaço, a confusão e a dor em sua lateral estavam para vencê-lo. Além disso, fazia horas que estavam andando de estômago vazio.

Já não estava tão escuro quando conseguiram ver as primeiras construções da Vila Hard Rock e ao vislumbrá-las, tomado pela fadiga, Max cambaleou e sentiu os joelhos fraquejarem, caindo no chão. Jack o ergueu e Vinyl estava abaixado em sua frente, com olhar preocupado. — Devíamos parar um pouco. Está doendo muito?

— O que? Não! – respondeu Max, se reerguendo, dando um sorriso forçado, como se quisesse convencer que estava bem. — Temos que nos apressar, não temos tempo para ficar parando.

Max tentou continuar avançando, mas foi impedido pelas grandes mãos de Jack que o seguravam no ar em frente à Vinyl, que ainda não tinha terminado de falar. — Cara, faz horas que não comemos. E o remédio não vai fazer efeito nenhum nesse corte se você continuar se forçando. – disse o anão com uma expressão séria de um pai dando bronca em um filho teimoso. Ele próprio estava cansado e não aguentava mais andar, mesmo que fosse lentamente, o que era impossível, tendo que acompanhar um Maxwell nervoso e com pressa. — Além do mais, vamos precisar entrar em algum lugar pra pedir informação de qualquer forma.

Max bufou, derrotado, ainda sendo segurado. Olhou em direção a Jack concordando suavemente com a cabeça como se quisesse demonstrar que podia ser solto. O homem o largou de uma maneira que ele caiu sentado no gramado. Max cruzou os braços e seu cabelo pendeu sob sua testa, cobrindo seus olhos, exatamente como acontecia quando os dois eram menores, e Max perdia algum jogo depois de muito esforço tentando vencer. Vinyl não pode esconder o riso ao ver a cena de seu amigo sem argumentos para rebatê-lo.

Já dentro da vila, era impossível não sentir a magia que o local emanava, como se uma espécie de beleza em sua forma mais pura cobrisse o lugar como uma redoma encantada. Árvores, algumas floridas e outras frutíferas, se espalhavam à distância e escalavam os edifícios, que eram todos decorados com temas instrumentais e relacionados à música. Era definitivamente um dos lugares mais agradáveis em que Max já pisara, o que o levava a acreditar que, ali, não teriam tantos problemas, e depois dos recentes acidentes na Montanha Punk e em Glam, era bom desfrutar de ares amenos por um tempo.

Na avenida em que andavam, passava uma linha de bonde que estava deixando alguns passageiros num ponto próximo a um comércio extremamente chamativo, e muitos entravam ali. Dava para escutar, mesmo do lado de fora, música correndo solta e o cheiro que saia do estabelecimento também era incrível, fazendo o estômago dos três roncarem. — Veja Max! É uma taberna!

Conforme se aproximavam, o volume da música do interior aumentava. Parecia a típica trilha sonora de uma festa animada. Logo acima de porta bang bang, estava uma placa de ferro com o nome “O Ás de Espadas” decorada com pequenas espadilhas e assim que entraram viram um dos ambientes mais legais de toda a suas vidas. Guitarras de todos os modelos penduradas pelas paredes, mesas e cadeiras com o formato de tambores de bateria e um bar com a maior variedade de bebidas possível. As pessoas riam, conversavam e se divertiam ao som de uma dupla de elfos, um menino na guitarra e uma menina na bateria, que cantavam e tocavam maravilhosamente bem.

Um funcionário lhes indicou uma mesa e Max decidiu que estava finalmente na hora de fazer uma pausa e conversar sobre os próximos passos. Jack correu em direção ao banheiro, deixando Max e Vinyl sozinhos na mesa, dando a deixa para o garoto vomitar algo que estava segurando a tempo demais.

— Carinha, preciso te contar algo. O segurança que me esfaqueou… Ele era filho da Sarah.

— Tá brincado? – disse o anão, com olhos instantaneamente arregalados. — E Jack o matou… Deuses Max! Será que ela já sabe o que houve?

— Acho que nem faz ideia. Ela não tinha contato com ele, fazia parte da maldição. – ele explicou, mas então desviou o rosto, cabisbaixo. — Me sinto terrível desde que descobri. Ela salvou a minha vida e eu fui responsável pela morte do filho dela.

— Não é só isso, não é mesmo? – disse Vinyl olhando firmemente para Max. O conhecia a tempo suficiente para saber quando algo estava errado. O menino pareceu surpreso pela reação do amigo e abriu a boca inúmeras vezes tentando achar as palavras certas para expressar o que Sarah havia lhe dito antes de entregar a pedra amarela, mas se conteve por medo, e sua pausa fora longa o bastante para que Jack voltasse à mesa e interrompesse a conversa. — Falaremos sobre isso mais tarde, está certo?

No mesmo instante, a dupla de elfos terminou sua música e o garoto apresentou a garota ao público com toda a admiração. Max pensou que os dois provavelmente eram um casal. Os dois pareciam felizes de uma forma simples, assim como todos na Vila Hard Rock, cuja maioria do povo era constituída de elfos, seres derivados dos primeiros homens, com a pequena diferença de uma longevidade maior. Tinham orelhas mais pontudas, bochechas rosadas e sorrisos contagiantes. Podia-se dizer que os elfos eram a criação mais carismática dos deuses, sempre a procura de diversão, além de serem excelentes cozinheiros, concentrando a exportação de alimentos à Vila Hard Rock desde o inicio dos tempos.

Os três aplaudiram os músicos e a menina corada acenou para todos com a cabeça, mas sua expressão se alterou quando seus olhos castanhos encontraram os de Maxwell. Ela ergueu uma sobrancelha, de forma confusa, e ele ao perceber que ela o olhava, sentiu-se envergonhado e desviou o olhar. Ela, ainda confusa, voltou sua atenção ao companheiro guitarrista e tornou a sorrir, descendo com ele do palco. Alguns minutos se passaram, quando a mesma elfa, agora vestida com um avental da taberna por cima da roupa, surgiu com um bloco para anotar os pedidos. Aparentemente, os dois faziam outras funções além de tocar na taberna.

— Bom dia, meus caros. Já vão querer pedir? – de perto, Max pode ver que a elfa era bem jovem. Seus cabelos negros agora estavam parcialmente presos e seus olhos se esbugalharam quando ela viu que estava atendendo o garoto que havia visto do palco.

— Você canta bem. – disse Jack com um sorriso bobo no rosto.

— Ah… Muito obrigada. – ela respondeu se recompondo. — Desculpe a pergunta, mas… Eu conheço você? – ela disse apontando desconfiada para Max.

— Hum… Não… Eu acho que nunca te vi pelo menos. – Max parecia igualmente confuso. Também sentira algo entranho ao ver a elfa no palco, como se ela fosse importante de alguma maneira. Sua barriga roncou de repente, o que fez com que sua expressão séria se transformasse numa risada.

— É, acho que não. Mas o que tenho certeza é que vocês estão com fome. – ela disse colocando um sorriso cordial no rosto quando foi interrompida pelo elfo que tocava com ela. Ele a abraçou por trás, o que a fez rir novamente e ele só parou com a brincadeira quando notou a presença dos três ali. — Angus!

— Ah olha só! Forasteiros, não é? Nunca os vi por aqui. – ele disse olhando um a um com seus brilhantes olhos azuis.

— Estamos de passagem. Meu nome é Vincent e estes são Jack e Max. – Vinyl disse com uma expressão emburrada sinalizando respectivamente cada um de seus amigos. O anão não tinha muita receptividade com elfos devido a histórias que ouvira de Eddie quando mais novo, que o levaram a crer que essas criaturas não eram confiáveis.

— Bem, é um prazer. Eu sou Angus e a Mary vocês já conheceram.

— De onde vocês vieram? – Mary perguntou, demonstrando interesse nas palavras do anão.

— Da Capital. – ele respondeu secamente e em seguida fez seu pedido. — Se vocês puderem adiantar um pouco seria ótimo. Estamos no meio de algo importante e estamos com muita pressa.

Max, sabendo o porquê Vinyl estava agindo dessa forma com os elfos, lançou-se um olhar de “não seja grosso!” juntamente com um pigarro de desaprovação e então se virou novamente para os garçons. — Estamos no meio de uma busca, na verdade. — ele completou sorrindo, tentando disfarçar a estupidez do anão.

Os dois garotos de entreolharam, sorrindo de curiosidade. A menina assobiou e logo um outro funcionário veio levar o pedido, ao mesmo tempo que os dois puxavam cadeiras para sentar-se a mesa deles. — Uma busca? Eu poderia ajudar, sabe? Conheço tudo por aqui!

— Conhece mesmo. – o elfo confirmou.

Max pendeu seu rosto em direção a Vinyl com uma expressão de superioridade no rosto como se quisesse dizer “viemos atrás de informações e você estava tratando mal as pessoas que podiam fornecê-las”. Ao mesmo tempo esperava a confirmação dos dois, já que em sua mente, tinha a ciência de que precisava de mais ajuda do que nunca, agora que seu tempo estava reduzido, e que pessoas que viveram toda a vida na vila seriam um grande suporte. Jack concordou alegremente, porém, Max teve um briga silenciosa com Vinyl, coisa que, por se conhecerem tão bem, eles sabiam exatamente como fazer.

Assim como o anão, Max também conhecia as famosas histórias de Eddie sobre como os elfos eram traiçoeiros e sempre tinham a mania de se acharem incríveis e melhores que todas as outras criaturas. Mas também sabia que o irmão de seu melhor amigo só pensava dessa maneira porque havia tomado um belo fora ao tentar flertar com uma elfa na Capital. O menino só percebeu o tempo que sua discussão na base do olhar estava durando quando foram interrompidos por Mary.

— Hã… Que diabos vocês dois estão fazendo?

Max esperou Vincent dar a resposta, depois que ele deu um longo suspiro, aceitando sua derrota. — Tudo bem. Vocês podem nos ajudar. – seu tom, entretanto, ainda era desconfiado.

— Ótimo! E o que vocês procuram? – ela disse estreitando os ombros, ainda muito curiosa.

Max rapidamente tirou o livro da mochila e abriu na página onde os cinco artefatos estavam desenhados juntamente com as explicações sobre suas transformações e as propriedades mágicas de cada um. Explicou o mais rápido que pode em relação à lenda e sobre o que buscavam naquele lugar exato. Angus não parecia estar acreditando muito na história, mas os olhos de Mary brilhavam a cada palavra que Max pronunciava, como se a surreal aventura dos rapazes fosse algo com o qual ela sempre sonhara em fazer parte. O menino sabia que não estava seguindo o conselho da velha Sarah ao pé da letra ao confiar naqueles dois de cara, mas a ajuda, que era tão necessária, surgiu de maneira tão disposta, que ele preferiu ignorá-lo por um momento.

Alguns segundos depois que Max finalizou sua explicação, o novo garçom resurgiu com a comida que eles haviam pedido. O cheiro era maravilhoso e a aparência apetitosa demais, tornando impossível para os três não se distraírem. Vinyl se segurou para que um fio de saliva não escapasse da sua boca, e os elfos se entreolharam antes de Mary começar a falar, bondosamente.

— Ei não se preocupem com a gente. Podem comer à vontade. – Os três olharam os elfos e então se entreolharam antes de começar a devorar a comida como selvagens. Fazia tempo que não botavam nada para dentro do corpo e aquela refeição excelente havia caído melhor do que eles podiam esperar. – Puxa… Vocês estavam mesmo com fome…

Max sorriu nervosamente sabendo os quão nojentos eles deviam estar parecendo. Pegou um guardanapo e limpou o rosto antes de abrir a boca para perguntar. — Bem… Tem alguma ideia de como podemos encontrar a pedra vermelha?

— Olha… Eu honestamente não faço ideia de aonde um artefato mágico de Harmos poderia estar escondido, mas… – ela lentamente virou o rosto em direção a Angus e nervosamente mordeu o lábio. — Não. Deixa para lá.

— O quê? Mas o quê? – Vinyl disse de repente com a boca cheia de comida.

Mary tentou abrir a boca para alertá-los que o que fosse que tinha passado pela sua cabeça, era perigoso demais ou nem um pouco aconselhável, mas Angus a interrompeu entrando no campo de visão entre eles. — Mas existe alguém que pode saber. Vocês deviam ir ver o Procurador!

— O Procurador? – disse Jack, confuso.

— Sim! Se tem alguém por aqui que sabe sobre lendas e objetos fantásticos, esse alguém é o Procurador. Ele passou praticamente a vida inteira estudando mitos e indo atrás de qualquer coisa que desse um pequeno sinal de magia divina. – Angus começou a contar alegremente enquanto, atrás dele, Mary simplesmente balançava a cabeça negativamente como se aquilo estivesse errado. — Geralmente quando alguém tem alguma dúvida nessa área, vão atrás dele. O único problema é que…

— O único problema é que ele é maluco. – disse Mary cortando o amigo em desaprovação e então retornando seu olhar aos viajantes. — Maluco de pedra! Tão insano que se tornou perigoso. Ele vive recluso nos limites da Vila e já faz um bom tempo que ninguém se arrisca em ir visitá-lo. E eu faria o mesmo se fosse vocês. Eu e Angus podemos ajudá-los sem colocá-los em risco e…

— Só um minuto. – disse Vinyl limpando a boca e a cortando. — Nós estamos realmente com muita pressa e falar com um especialista como o que vocês mencionaram seria ótimo! Aposto que ele poderia nos fornecer informações não só sobre a pedra vermelha, mas como sobre todas as outras! Max, nós devíamos ir!

Max abriu a boca para falar, não muito certo sobre tudo aquilo. Por algum motivo sentia que o aviso da elfa era bem convincente e que eles deviam acatar as palavras dela, mas Angus, ao contrário do garoto, pareceu bem animado ao ouvir o que o anão acabara de dizer. — Muito bem então! Posso explicar a vocês como chegar à tenda do Procurador agora mesmo.

Mary cruzou os braços, ainda contrariada com tudo aquilo enquanto seu amigo explicava as direções aos outros três. Em meio às instruções de Angus, as quais Vinyl e Jack pareciam bem atentos, Mary notou que Max a olhava incerto, como se no fundo ele tivesse preferido aceitar a ajuda da elfa. Sua cabeça pendeu para o lado, confusa. Parecia que os dois deviam se conhecer a um longo tempo, como se a existência de um fosse importante para o outro de alguma maneira que ela não conseguia explicar. De repente, o anão, que segurava um pequeno mapa desenhado por Angus, puxou seu amigo e todos se levantaram. Eles pagaram a conta e então se despediram dos elfos e o garoto parecia extremamente feliz em ter ajudado. Porém, assim que o trio cruzou a porta do Às de Espadas, Mary franziu o cenho decidida e correu para o camarim onde guardava suas coisas.

Angus vendo-a correr daquela maneira tão exasperada, a seguiu intrigado e assim que entrou no camarim, viu sua amiga juntando algumas coisas em uma mochila enquanto prendia uma aljava de flechas e um velho arco na cintura. Angus sabia que a menina havia ganhado a arma do pai durante sua primeira viagem à floresta e que aquele era um dos objetos mais valiosos para ela. — Mary? O que está fazendo? – ele disse erguendo uma sobrancelha de forma perplexa.

A elfa virou-se com uma expressão séria e convicta. Em seguida caminhou em direção à saída do camarim, depositando seu avental de trabalho nas mãos do amigo. — Você vai precisar me cobrir um pouco.

 

Enquanto isso, Max, Vinyl e Jack andavam tranquilamente pelas ruas da Vila Hard Rock. O garoto sugeriu que seu melhor amigo liderasse o caminho, pois não tinha prestado a mínima atenção nas orientações de Angus em relação ao mapa que havia desenhado. Estava perdido demais em seus próprios pensamentos e no pressentimento ruim que rondava sua cabeça. No entanto, naquele momento, apreciava sua vista. A Vila era certamente uma visão inesperada, e isso o confundia ainda mais, já que o lugar trazia essa sensação tão clara de segurança, mas que seus instintos o alertavam tão intensamente do contrário.

— É por ali! – Max foi acordado pela voz de Vinyl que soava alegre. O anão segurava o mapa com uma das mãos e apontava para uma trilha que adentrava em um bosque extremamente folhado e cheio de flores estranhas que ele não conseguiu reconhecer. Diferentemente da parte da Vila onde havia construções, o bosque estava deserto. Ninguém estava andando por lá, fazendo Max franzir o rosto de maneira incerta.

— Carinha, tem certeza de que devíamos fazer isso? – ele disse continuando a andar ao lado de Jack com Vinyl na dianteira, confiante.

— Pelos deuses, Max! Você sabe que essa é nossa melhor opção. – Vinyl virou-se para os outros dois, mirando o amigo com uma expressão sublime, enquanto continuava a caminhar de costas.

— Ou você só preferiu essa porque não queria trabalhar com os elfos lá da taberna! – O menino falou de repente, jogando a verdade na cara do anão que enrugou o nariz, ofendido. Jack riu e Max sorriu com desdém.

— Não foi por isso! Você sabe que eu não confio nos elfos, mas se fosse por essa razão, eu não teria aceitado o mapa de um deles, não é mesmo? – O anão levantou o pedaço de papel, sacudindo-o na frente do rosto do amigo. Agora quem estava esbanjando desdém era ele. Max simplesmente o olhou cansando, não queria mais continuar aquela argumentação.

— Pare de andar de costas, está me dando nos nervos…

O pequeno menino apenas suspirou fundo e continuou sua caminhada de costas, colocando os braços atrás de cabeça como se estivesse de espreguiçando e seu sorriso em direção a Max soava como “Parece que eu venci”. De repente, ele viu Max e Jack parando de andar e erguendo os olhos para cima do campo de visão de Vinyl e suas bocas se abrindo lentamente, de forma curiosa.

— Qual é o problema? – ele disse virando-se e se viu tomando a mesma atitude que os amigos. Estavam frente a frente com uma tenda multicolorida em estilo Tie-Dye. Uma plantação de cogumelos jazia ao lado da tenda que era enfeitada com desenhos de astros, símbolos de natureza e filtros do sonho. Os três se entreolharam e Max sinalizou com a cabeça para que Vinyl se aproximasse para entrar primeiro.

O anão engoliu a seco e caminhou devagar até a tenda, mas quando se aproximou sentiu algo que o deixou confuso. Uma parede invisível se erguia entre a trilha onde pisavam e a tenda, porém quando Vinyl estreitou os olhos, ele pode claramente ver a divisão ainda que muito transparente. Chamou os amigos que se aproximaram também.

— Talvez devêssemos bater? – Max sugeriu e os outros dois concordaram com as cabeças. O menino lentamente ergueu a mão direita e deu três toques tímidos da parede invisível. Por um instante, nada pareceu acontecer, mas então as cortinas da entrada se abriram um pouco, suficiente apenas para uma pessoa pequena passar, juntamente com um buraco no campo de força.

Um homem de meia idade, com expressão tranquila e preguiçosa apareceu por ali. Seus cabelos loiros encaracolados já exibiam alguns fios grisalhos, e seus olhos escondidos por detrás dos óculos com lentes coloridas pareceram brilhar depois que ele os coçou. — Olá. Como posso ajudá-los? – ele usava uma bata branca, uma longa calça boca de sino e seus pés estavam descalços. Enquanto os cumprimentava, ajeitou o pequeno par de óculos escuros de lentes redondas em seu rosto.

Os três permaneceram em silêncio por alguns segundos enquanto encaravam a peculiar figura. Jack e Vincent, juntos, empurraram Max para frente, o deixando defronte com o homem que eles achavam que devia ser o famoso Procurador e para que o menino tivesse a responsabilidade de começar a falar. — Hum… Bem, nós estamos procurando algo e… – Enquanto falava, o homem chegou bem perto de Max e começou a analisá-lo. O garoto já estava se sentindo desconfortável o suficiente, mas foi obrigado a dizer algo quando o homem cheirou seu cabelo e depois deu um sorriso triunfante. — Algum problema, cara?

— Ah não, nenhum. Continue, por favor, o que estava dizendo? – ele disse e sua voz se tornou extremamente animada de um segundo para o outro, logo depois dele ter analisado Max. Antes que o garoto pudesse continuar, o homem o cortou novamente estralando os dedos e concordando com a cabeça como se tivesse se lembrando de algo. — Ah sim! Estão atrás da pedra vermelha, certo? Claro, você pode entrar.

O queixo de Vinyl caiu ao ouvir o homem simplesmente adivinhar o que eles iam dizer. Max também estava chocado e Jack apenas ergueu uma sobrancelha, em sinal de surpresa. Os três se entreolharam antes de começarem a entrar. — Como o senhor sabe disso? Eu ainda não havia dito…

— Eu sei de muitas coisas, meu rapaz. E eu pensei que tivesse dito que você podia entrar. – o homem virou-se e travou o caminhar deles com a palma da mão. — Apenas você.

— O quê? Mas por…

— Regras da casa. Apenas um cliente por vez. – explicou o homem em um tom extremamente natural enquanto mirou rapidamente os outros dois. — No entanto, será um prazer atender seus amigos depois.

Max vacilou por um segundo dando alguns passos para trás. Definitivamente, não queria entrar na tenda sozinho, ainda mais sabendo da fama do Procurador de insano. Olhou para os amigos a procura de algum tipo de amparo ou protesto sobre eles não poderem entrar também, mas Vinyl simplesmente deu de ombros com sua boca exibindo um meio sorriso nervoso. Não havia saída, aquele homem de fato sabia algo sobre os artefatos e, se eles quisessem as respostas, Max teria que entrar. Voltando-se novamente para o homem, o garoto concordou com a cabeça e os dois entraram na tenda deixando as sombras dos amigos do lado de fora.

O que Max viu lá dentro era de tirar o fôlego. Prateleiras por todos os lados, com pilhas e mais pilhas de frascos de vidro que continham líquidos coloridos e brilhantes de todo tipo. Filtros do sonho, incensos e pedras místicas rodeavam as paredes da tenda que eram um belíssimo rodamoinho de cores que deixou o garoto pasmo. Psicodélico era certamente a palavra certa para descrever o lar do Procurador.

Max só voltou a si quando escutou o próprio lentamente arrastando uma cadeira posicionada em frente a uma mesa. O homem sinalizou com a cabeça em direção ao acento com um sorriso cativante no rosto. — Sente-se, rapaz. Como você disse que se chama mesmo?

— Eu não disse na verdade, mas sou Maxwell. Pode me chamar de Max. – O menino respondeu sentando-se na cadeira que lhe foi indicada enquanto observava o estranho homem remexer em algumas prateleiras próximas a mesa.

— Maxwell o quê? Digo, quem são os seus pais? – ele perguntou sem mirá-lo nos olhos.

— Uh… Starr. Maxwell Starr. – Max franziu o cenho com essa pergunta singular. — Minha mãe se chamava Joan e, bem, eu nunca conheci o meu pai.

— Ah sim, eu entendo. Sinto por isso. – o Procurador virou-se, segurando uma jarra e enquanto colocava o objeto sobre a mesa e se servia de uma xícara do liquido, perguntou educadamente. — Aceita algo para beber?

Assim que o conteúdo da jarra foi despejado na xícara, um cheiro irresistível invadiu as narinas de Max, tornando impossível que ele não sentisse vontade de tomar o liquido escuro e quente. — Sim, por favor. — o homem começou a colocar um pouco de bebida em outra xícara separada para Max, que apenas se deliciando com o cheiro incrível, resolveu começar a falar sobre o motivo que o levará até ali. — Senhor, eu estava pensado se você teria alguma informação sobre onde a pedra vermelha poderia estar escondida. Eu tenho informações confiáveis de que ela está aqui na Vila Hard Rock, mas eu não moro aqui. Não faço ideia de onde procurar.

— Sei… Parece que Harmos finalmente encontrou seu escolhido, não? De fato, ele escolheu corretamente. — o Procurador sentou-se em uma cadeira de frente para Max, entregando-lhe a bebida e puxando a sua própria para próximo de si. Antes de continuar a falar, deu um sorriso astuto em direção ao menino. — Sabe garoto, eu também busco algo.

— É mesmo?

— Sim. Já procurei em todos os lugares, de baixo de cadeiras, por baixo de mesas. Sempre pensei que poderia encontrar a chave para desvendar todas as lendas desse mundo. — ele fez uma pequena pausa, refletindo em direção ao rosto do menino que parecia mais relaxado desde que o cheiro invadira a tenda. — Por isso me chamam de Procurador. Eu já cheguei a pensar que nunca encontraria o que procuro até o dia da minha morte, sabe?

Enquanto ouvia o homem falar, Max levou a xícara lentamente aos lábios e o sabor doce e quente da bebida o invadiu. Seja o que fosse aquilo era bom. O garoto sentiu um imenso prazer invadindo todo o seu corpo, deixando-o verdadeiramente feliz como ele não se sentia há muitos dias. Era como se, lentamente, todos os problemas fossem embora o deixando leve como uma pluma. Tudo o que ele queria, era continuar bebendo o liquido e ouvir o que mais o homem a sua frente tinha a dizer. — Porque não pediu ajuda a alguém? – o garoto perguntou com um sorriso bobo e tranquilo no rosto.

— Mas eu pedi. O problema é que as pessoas tendem a me odiar. Dizem que eu sou maluco. É fato que ficava focando em lugar nenhum, investigando milhas à fora. — novamente ele fez uma pausa quando viu Max colocando a xícara vazia de volta na mesa e recolocando seus braços no descanso da cadeira. O menino ainda o mirava com um sorriso sonolento quando ele estralou os dedos e duas faixas pretas surgiram da cadeira, atando as mãos de Max à madeira. — Mas a verdade é que eu me tornei um homem desesperado.

— O que… O que é isso? – Max disse quase sem forças para reagir apenas olhando rapidamente para suas mãos presas. Seu corpo, porém, estava tão pesado e sua mente tão nebulosa e cansada que ele não conseguia nem sequer protestar. Sentia-se drogado e as cores vibrantes da tenda não ajudavam os efeitos a diminuírem.

— Olá, minha pequena chave. – o homem disse levantando-se suavemente, enquanto retirava os óculos escuros do rosto, exibindo seus olhos brilhantes, cujas pupilas mais pareciam pequenas espirais roxas e amarelas. E assim que Max olhou para elas, o pouco que restara de sua mente derreteu juntamente com qualquer controle que ainda restasse em seu corpo.

 

Vinyl e Jack sentaram-se do lado de fora da tenda, sem saber exatamente o que fazer além de esperar Max voltar. O anão ficou apenas relaxando em baixo da sombra de uma árvore, enquanto apanhava dentes-de-leão do chão para assoprá-los e ver as pétalas voarem com o bater do vento. Sua pequena diversão foi interrompida quando Jack o chamou sinalizando alegremente em direção à trilha em que já tinham passado. — Elfa cantora! – ele disse e o menino conseguiu ver a elfa da taberna, Mary, caminhando em direção a eles. Sua expressão estava séria e uma arma estava presa a sua cintura.

— Aquilo é um arco e flecha? – ele disse se levantando e quando a elfa finalmente pareceu reconhecê-los, ela correu até eles.

— Finalmente encontrei vocês! Vocês precisam me ouvir, o Procurador é mesmo perigoso e não vale… Espera um pouco. — ela se interrompeu olhando para os lados como se percebesse que algo estava faltando. — Cadê o Max?

Vinyl mordeu seu lábio nervosamente, apenas encarando a elfa sem dizer nenhuma palavra, mas Jack o entregou quando rapidamente apontou em direção à tenda colorida há alguns metros de distância, respondendo a menina. Esta ergueu os olhos, que se arregalaram imediatamente assim que ela entendeu onde Max estava. — Vocês permitiram que ele entrasse lá sozinho? Estão loucos?!

— Ei não é nossa culpa! O cara disse que só ele podia entrar! – Vinyl respondeu, se defendendo.

— Deixa pra lá… – ela disse virando os olhos em direção ao anão, abrindo caminho entre eles enquanto ajeitava a aljava no cinto. Ela deu alguns passos solitários em direção à entrada da tenda antes de perceber que os outros dois não a acompanhavam, o que a fez virar, incrédula. — Vocês vêm ou não? Precisamos salvar seu amigo.

O anão e o guarda-costas se entreolharam, mas apressadamente começaram a segui-la. — Não tem como entrar, Mary. Tem uma parede invisível bloqueando a passagem e… — antes que ele pudesse terminar a frase, a elfa colocou uma das mãos sobre o campo de força e, com os olhos fechados, pronunciou algumas palavras em uma língua possivelmente muito antiga, que Vinyl nunca tinha escutado. Logo em seguida, a parede desapareceu liberando a entrada, o que fez os ombros do anão despencarem de surpresa. — Uau… Como você fez isso?

— A parede claramente foi feita com um simples feitiço de proteção. Nem todos podem produzi-la, mas qualquer um pode desmanchá-la com um simples contrafeitiço. – ela respondeu virando-se para o anão e dando um meio sorriso. Os três entraram no pequeno corredor que dava acesso ao interior da tenda e assim que seus pés tocaram o lugar, eles puderam ter um vislumbre do show de luzes, música e psicodelia que estava ocorrendo lá dentro. Mary impediu que eles continuassem andando com ouviu a voz do Procurar oferecendo algo a Max. — Não podemos chegar assim. Tem que ser um ataque surpresa.

Jack olhou para os lados e viu uma grande coluna de madeira que ia do teto ao chão da tenda e dava acesso simples a uma viga grossa e comprida. Facilmente algo que poderia aguentar o peso dos três. O gigante puxou levemente a manga de Mary sinalizando em direção a enorme coluna e um sorriso surgiu no rosto da elfa quando ela entendeu o plano.

— Muito bem, grandão! – ela disse, dando tapas amigáveis no braço de Jack que sorriu orgulhoso. Ela apanhou três pares de flechas ficando com um e entregando os outros dois respectivamente a Jack e Vinyl. Começou a analisar ligeiramente a coluna antes de ser interrompida pelo anão, que olhava para as flechas de maneira confusa.

— Para que as flechas, hein?

— Ah meu caro anão. – ela disse virando-se para ele dando um sorriso maldoso. — Nós vamos escalar!

 

— Vamos logo Vincent! – Mary sussurrou em direção ao anão que era o único que ainda não havia chegado à viga, embora estivesse quase lá. — Quase lá! Me dá sua mão.

A elfa esticou uma das mãos em direção ao anão que estava extremamente irritado com aquela escalada idiota. Percebeu que Jack estava de costas para a menina olhando algo que acontecia lá embaixo. A música e as cores ainda rodeavam toda a tenda e ele pode escutar alguém cantando uma canção de pura loucura. Quando finalmente conseguiu apanhar a mão de menina, perguntou antes que ela pudesse puxá-lo por completo. — Como sabe que ele está em perigo?

Ela firmou os pés dele no chão abrindo a boca para responder, mas parou quando escutou Jack gruindo. Desviou seus olhos do anão também olhando para baixo e ver a mesma cena que estava incomodando o grandão, quando engoliu a seco assustada. Puxou o anão para que ele pudesse ver também simplesmente dizendo: — Assim…

— Oh… – o que Vinyl viu foi o suficiente para que seu rosto ficasse pálido. Uma magia forte emanava da figura que antes tinha os cumprimentado do lado de fora. O procurador, porém, estava com uma aparência completamente insana enquanto entoava uma música que não fazia muito sentido. Mexia suas mãos de forma bizarra e seus olhos eram espirais coloridas que pareciam obra de uma alucinação. E essa não era a pior parte. Vinyl viu seu melhor amigo completamente atado a uma cadeira de madeira sem ter nenhuma reação a tudo isso. Percebeu que Max sorria intensamente e seus olhos encaravam os do homem vibrados, quase como se tivessem se tornado espirais também. — O… O que há com ele?

— Está em transe. – a menina disse sem tirar os olhos lá de baixo, completamente assustada. Vinyl tentou prestar atenção na letra da música e dizia algo como se o estranho homem tivesse procurado algo durante toda a vida e finalmente tivesse encontrado. Mas porque ele queria Max era uma dúvida cruel para todos. Mary finalmente virou-se e viu que o anão carregava uma mochila nas costas, provavelmente com os suprimentos que o trio levava na viagem. Seu rosto iluminou-se com uma ideia. — Por acaso, vocês tem uma corda nessa mochila?

 

Mary prendeu a corda firmemente a viga. O plano parecia simples inicialmente: ela e Vinyl desceriam pendurados na corda e pegariam Max já balançando para fora dali. O plano B seria usar Jack caso algo desse errado ou se o Procurador tentasse feri-los de alguma maneira.

— Mary…? Tudo pronto? – perguntou o anão ainda vigiando o cenário lá de baixo nervosamente.

O Procurador continuava a hipnotizar Max e de vez em quando, em meio à canção, ele explodia um dos frascos e os líquidos coloridos explodiam no ar, tornando o ambiente ainda mais alucinante. Ele lentamente tirou um amuleto do bolso e o abriu em direção ao menino completamente enfeitiçado. — Agora… Obedeça-me Maxwell e me mostre todo o seu poder! – ele gritou alto suficiente para que ecoasse por todo o ambiente, o que fez Vinyl tremer lá de cima.

— MARY?

— Pronto! – ela rapidamente se levantou já com a corda presa ao seu próprio corpo e agarrou Vinyl firmemente. — Segure-se firme, está bem? – antes que o anão pudesse concordar, a menina pulou e os dois balançaram como se estivessem presos a um cipó.

Em relação à ordem do Procurador, Max sinalizou um sim com a cabeça e fechou os olhos, ainda em transe. Lentamente uma áurea de poder, como aquela que surgiu durante o desafio para conquistar a mão de princesa, surgiu em volta do menino. Os olhos e o sorriso do Procurador se arregalam de forma quase maníaca vendo isso acontecer. — Isso… Excelente… ISSO! — o homem não teve tempo para mais nada. Antes que a áurea mágica se propagasse por mais tempo, ele vislumbrou a sombra de dois garotos presos a uma corda voando pela tenda baterem na cadeira onde Max estava preso, fazendo-a cair a alguns metros de distância, se quebrando.

Sem muito equilíbrio, Mary e Vinyl também encontraram o chão, mas se levantaram rapidamente, soltando a corda e sacando suas armas. Correram em direção a Max, que agora estava livre perto da cadeira estragada.  O homem, cujo rosto tinha se tornado vermelho de raiva, deu um grito de fúria e começou a avançar contra os garotos quando Jack saltou em frente a ele, bloqueando sua passagem. O plano B teve que ser ativado.

Mary ficou em posição de defesa com o arco e flecha de prontidão, enquanto Vinyl chacoalhava Max, ajoelhado no chão. — Max? Max! – o menino lentamente foi abrindo os olhos e cobriu a cabeça com as mãos, como se ela estivesse doendo muito. Seu melhor amigo parecia ter acordado do transe, mas sua aparência dava impressão de alguém com uma tremenda ressaca.

O Procurador lançava seus frascos de líquidos brilhantes em direção a Jack, rindo como um louco vendo o grandão tentar se desviar. Um deles atingiu o rosto de Jack, fazendo espirrar excessivamente. O homem riu dando pulos de alegria e em um deles, algo caiu de seu bolso. Mary viu claramente a rocha vermelha como sangue rolando em direção a ela. Ergueu uma sobrancelha confusa, dando uma olhada em ambas as situações próximas a ela. Vinyl tentava ajudar Max, que ainda parecia meio tonto e Jack estava avançando contra o Procurador, o atingindo com um soco no meio da cara. O barulho da mandíbula do homem se deslocando, fez Mary acordar e agarrar a pedra o mais rápido que pode, a colocando dentro do bolso. Logo depois, ela ajudou os meninos a se levantarem. — Temos que ir embora. Agora! – começaram a correr em direção à saída e Mary gritou para que Jack os seguisse. Ele ainda estava socando o rosto do homem, que ria insanamente enquanto apanhava, e isso quase o fez ter vontade de abandonar os amigos, só para terminar com aquele otário. Mas em vez disso ele sacudiu a cabeça e se levantou, seguindo os outros três.

— Eu ainda vou te pegar Maxwell! – eles ouviram o Procurador gritando enquanto corriam, e o eco da voz do homem fez todos tremerem, forçando-os a correr o mais longe que podiam da tenda, até que ela se tornasse apenas uma sombra na floresta.

 

Quando finalmente se sentiram seguros, eles despencaram no chão, cansados e suados. Max já parecia ter voltado completamente ao normal àquela hora, mas mesmo assim Jack se aproximou para garantir que ele estivesse bem. Mary engatinhou em direção a mochila de Vinyl e apanhou um cantil de água.

— Eu sinto muito… Devia ter te escutado lá na taberna. – o anão disse lentamente, se sentido envergonhado.

— E obrigado por me salvar. Não sei o que poderia ter acontecido se você não tivesse aparecido. — disse Max com um sorriso grato e cansado.

Mary retribuiu o sorriso ao menino e recolocando o cantil na mochila do anão, colocou uma das mãos lentamente no seu ombro, de maneira a reconfortá-lo. — Você deveria ter me escutado quando eu disse que ele era perigoso. Mas eu também não estava com toda a razão. Mesmo que aceitassem nossa ajuda antes, acabaríamos vindo aqui de qualquer forma.

— Do que está falando? – disse o anão, virando a cabeça lentamente em direção à menina, com uma expressão inocente. Esta sorriu e tirou a pedra vermelha do bolso, o que fez todos a observarem, chocados.

— Estava com o Procurador. Ele derrubou durante a luta e eu a peguei.

Max levantou-se e caminhou até a elfa. Seu rosto curvado em completa admiração e descrença. Por um segundo, ele havia achado que haviam perdido o dia inteiro sem nenhuma pista sobre a pedra, mas lá estava ela, bem na frente dos seus olhos. Max se segurou para não chorar de alivio, depois de tudo o que passou naquele dia e vendo isso, Mary estendeu o artefato em direção ao garoto para que ele pegasse.

Todos permaneceram em silêncio quando Max pegou a pedra vermelha nas mãos. A floresta, agora já escurecida pelo final da tarde, ganhou um brilho escarlate como sangue, mas Max não ficou tão assustado dessa vez. Ele não se lembrava de muito do que havia acontecido depois que sua mente começou a vagar, mas seja lá o que o Procurador tivesse feito, despertou algo novo dentro do menino. Uma confiança que ele há muito havia esquecido que possuía. Segurou a pedra com mais firmeza até o brilho se esvair e ele perceber que segurava o machado nas mãos. Seus amigos coçavam os olhos que novamente doíam devido ao brilho extremo que sempre saia dos artefatos quando Max os segurava.

Os três sorriram em direção ao amigo quando viram que deu tudo certo, Vinyl mais que os outros, pois já era a segunda vez naquela viagem em que tinha visto Max chegar muito perto do fim. Seu amigo sorria, mas franziu o rosto sentido algo estranho por um segundo. Lentamente, Max levantou a lateral da camisa onde havia tomado a facada na Montanha Punk. O terrível machucado agora não passava de uma cicatriz branca e um pouco descascada, e o menino esfregou a mão no que havia sido a ferida com uma expressão tranquila.

— Vinyl, venha aqui. – disse Max sinalizando com o machado para que o anão se aproximasse, e este caminhou até o amigo timidamente, se surpreendendo quando a arma foi estendida em sua direção. — Vou deixar o machado com você, carinha. Não me leve a mal, o martelo do Pop é eficiente e sei o quanto é especial para você, mas… Os perigos que estamos enfrentando são bem maiores do que imaginávamos. Você precisa de uma arma mais forte.

— Eu… Puxa eu não sei o que dizer. – o anão disse apanhando o machado nas mãos. Esperava que ele fosse muito mais pesado, mas na verdade não era muito complicado carregá-lo. Desviou o olhar da arma quando Max tocou-lhe o ombro.

— Tenho certeza que o Pop ficaria orgulhoso se estivesse aqui.

A boca de Vincent abriu levemente, sem palavras. O que Max dissera tinha o deixa emocionado de verdade e ele não pôde evitar sorrir para o seu querido irmão mais velho, mesmo que fosse apenas por consideração. Vinyl sabia que não importava que Max fosse filho de outras pessoas, ou que fosse de outra raça, ele sempre seria parte da sua família, tanto quanto qualquer outro membro. — Obrigado, Max.

O garoto percebeu que Jack observava sem saber como reagir enquanto Mary parecia comovida com a cena. Desde a primeira vez que a viu, ela sempre pareceu gentil e disposta a ajudar e Max não mentiu quando disse que não sabia o que poderia ter acontecido se ela não o tivesse salvado. Também existia aquela estranha conexão que ele sabia que os dois possuíam, mesmo que ele não conseguisse explicar. Tudo que o sabia no momento, é que queria que ela viesse junto, ainda que fosse improvável. Entretanto, valia a pena arriscar a pergunta.

— O que acha de vir com a gente, Mary? Seria de grande ajuda. – ele disse e notou que a expressão da menina se tornou levemente espantada. Mas então, ela sorriu de forma brincalhona e confiante.

— É. Pode ser interessante. – ela respondeu cruzando os braços. — Vai ser legal ter que salvar a sua pele o tempo todo.

Max riu e então concordou com a cabeça. Tinham acabado de ganhar um novo membro para a equipe e ainda haviam compensado o tempo de atraso que ocorreu quando ele se machucou na Montanha Punk, afinal o terceiro artefato foi encontrado em apenas um dia. Devia muito a Mary por isso.

Resolveram que descansariam na Vila Hard Rock naquela noite para dar tempo de Mary explicar ao tio, dono do Às de Espadas o motivo de sua viagem repentina e para que ela juntasse suas próprias coisas. Além do mais o dia tinha sido intenso demais e eles precisavam dormir urgentemente. Todavia, sairiam o mais cedo possível na manhã seguinte. Afinal, ainda faltavam dois artefatos e apenas seis dias para o prazo final e Max podia ver seu tempo escorrendo como areia em um relógio de ampulheta.

 

Notas finais do capítulo:

O nome do capítulo e também nome do personagem antagonista que nele aparece é uma homenagem à música “The Seeker” da banda britânica The Who. A letra da música também é parafraseada diversas vezes dentro do capítulo.

A taberna onde Mary e Angus trabalham e tocam, o Às de Espadas, recebeu esse nome em homenagem à música “The Ace of Spades” da banda Motorhead.

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