A Menina do short Verde – Dedo Podre

. .

Garibaldi nunca tinha sido um menino acima da média. Tanto é que aquela era a sua segunda quinta série. E ele repetiria também a sexta, assim como repetiu a quinta. Poder-se-ia dizer que ele era um  dislexo, mas não é bem isso. Quando a professora de matemática está explicando a matéria, ele não entende nada menos que:

–Mndmsn324343f 34jhejdfhjdsk  3 45j vejhcjldjhf vhj4h545 vjhrjd shjrevlkjdshfj dhjlkfvh ruhuhurelwvhg  j4hhhfh vuehvjhtrhthk.

Parece que um monte de letrinhas e números estava saindo da boca da professora, e ele era capaz de vê-los. Só o que não era capaz, é de aprender a matéria.

–Entendeu?

–Siiiiimmmm! –Responde em uníssono, toda a turma, inclusive Garibaldi.

Eu não sei por que ele tinha que dizer que entendia uma coisa que ele não entendia bulhufas. A verdade é que matemática será a responsável por tudo que jamais conseguiu ou conseguirá ser na vida. E ele já quis ser muita coisa: piloto de avião de caça, detetive particular, cientista, físico nuclear, vocalista de uma banda de rock… Bem, nem tudo dependia da matemática realmente, mas dependia da sua compreensão das coisas complexas. E Garibaldi era capaz de explicar a complexidade do espírito humano, mas não conhecia de cor a fórmula da regra de três composta. Na verdade, a mente dele funcionava em figuras, não em números ou letras. Havia um tempo que a sua mãe ia sempre rezar o terço no dia 13 de maio, onde no final havia uma fartura de balas e bolos, biscoito, café e suco. Ki-suco para falar a verdade. Garibaldi nunca conseguiu tirar os olhos de um quadro que tinha na sala da casa da sua tia. Ele sempre se aterrorizava quando via a cena horrível de um anjo cercado de um monte de anjinhos, e uma terrível e gigante mão ao lado do anjo maior, a ameaçar os anjinhos. Ele ficava se perguntando como alguém poderia conceber uma cena tão grotesca como aquela. Só anos depois, já adulto Garibaldi percebeu que era vítima de pareidolia, e que aquela mão gigante era na verdade as bordas do manto do anjo maior, a sacudir ao sabor do vento imaginário. Era assim que funcionava a cabeça complexa de Garibaldi.

A imaginação daquele menino ia além do óbvio… ou melhor, ia além do normal, mas nunca o permitiu ver como todo mundo afirmava, São Jorge e o Dragão, nas manchas da Lua. Ao contrário, ele acreditava que São Jorge estava do lado de fora, puxando a Lua, razão pela qual ela podia andar. Aliás, aos seis anos, Garibaldi já se sentia dentro de um mundo grande, mas não conhecia além da sua rua. Entrar para a escola, foi como descobrir um mundo novo, de verdade, literalmente. O centro da cidade era para ele outro mundo. Ele ouvia falar nas cidades ao redor da sua, e imaginava grande metrópoles, com os edifícios gigantes que ele via na TV, e sempre se perguntava por que somente eles moravam nunca cidade que não tinham prédios. Aos onze anos ele foi até a vizinha Pirapora, e a decepção lhe derrubou os ânimos. Era como a sua, sem prédios, sem praias, e sem asas delta, como ele via nas novelas.

Logo nos primeiros dias da quinta série, ele se encantou com uma menina chamada Adriana. Ela ia sempre com uma saia rodada bem pequena, amarela, desdenhando as outras meninas, que iam de impecável uniforme. Inocentemente, sem coragem de lhe declarar o seu interesse, escreveu um bilhete, escondendo dentro do caderno da menina. Ele não podia imaginar o resultado disso. Chegando do recreio, toda a sala explodiu em gargalhadas e vaias. Sim, a Adriana, objeto dos seus desejos, se convertera em terrível espantalho aos seus olhos, ao mostrar para todos da sala o amoroso bilhete. Ele quis chorar, mas nem para isso tinha coragem. Então, fez o que fazia de melhor: se escondia em si mesmo, e fingia não se importar, apesar de ter o coração em pedaços. Nessas alturas, ele aprendeu como as mulheres podem ser cruéis quando desejam.

O tempo foi seu amigo, e logo ele esqueceu daquela menina da saia rodada, notando outra menina que passava em uma rua que cruzava com a sua. Ela tinha as pernas finas, e usava sempre um shortinho verde. Tinha os olhos pequenos, ajuntados ao nariz, e os cabelos meio cacheados, meio rebeldes. Era uma moleca de rua, que passava por ali vez por outra, e que ele descobriu que também estudava na sua sala. Vendo-a do outro lado, Garibaldi não se lembra como ficaram amigos, mas quando se assustou, ele já frequentava a sua casa, e ela a dele. A partir daí, uma doce amizade, daquelas que acontecem apenas duas vezes na vida, se deu entre eles.

Zuca, era como a chamavam. E para a sua sorte, Zuca morava ali perto. Seu pai, Goiabeira, era um eletricista bem conhecido, e brincalhão que era, dizia que aqueles jovens amigos: Garibaldi com 15 anos, e Zuca com 14, ainda seriam namorados. Garibaldi alimentou no seu coração aquela possibilidade, e olhou sorrindo para Zuca, que lhe devolveu um sorriso tímido como ela era.

Na escola, faziam trabalhos juntos. Permaneciam juntos na hora do recreio, e iam embora juntos, até aparecer o demônio em forma de criança. Dani. Uma menina loura. Cujos cabelos bem poderiam ser confundidos com trigais no outono, e com uma voz suave a encantadora, mas que por dentro de toda essa “embalagem” maravilhosa, guardava uma menina cheia de más intenções. Ela se aproximou de Garibaldi, sorrindo-lhe com o canto dos lábios, e lhe olhando no fundo dos olhos com seus olhos lascivos e convidativos.

–Quer ir embora comigo hoje?

Tal como um cachorro a quem se oferece um osso, Garibaldi fez que sim, logo se aproximando dela.

–Leva as minhas coisas para mim…

Tal como um burro de carga, Garibaldi passou a acompanhar a loura Dani, levando nas costas os seus próprios materiais, e os das menina. E no caminho falavam de tudo, mas o que Garibaldi queria mesmo era estar com Zuca. Ele não entendia que encantos essa Dani tinha sobre ele. Ela lhe roubara a alma, e lhe “defecara” em sua vontade própria, e também no seu amor próprio.

Bastava que Garibaldi estivesse com aquela por quem ele era de fato apaixonado, para que Dani se aproximasse, e dissesse:

–Garibaldi, venha aqui.

Ele ia, deixando Zuca perplexa.

Mas tal como muitas que ele conhecera, Dani era cruel, e lhe apelidara de Pé de Bozo, referindo-se ao conhecido palhaço com pés enormes. Garibaldi passou a ter tanta vergonha dos seus próprios pés, que tentava esconder um atrás do outro, e Dani rindo gostosamente… cruelmente daquele seu pormenor.

Mas Zuca não se dava por vencida. Ela tinha uma vantagem que Dani não tinha. Zuca poderia frequentar a casa de Garibaldi. E ele a sua. E ambos faziam isso diariamente. E Zuca queria lhe xingar, queria lhe mandar embora da sua casa, por causa da aproximação com Dani, mas ela não conseguia, porque a presença de Garibaldi lhe trazia conforto, lhe trazia uma sensação de bem estar, que ela, menina que era, não havia ainda sentindo.

Um dia, estavam ambos fazendo a tarefa da escola juntos, quando ficaram sozinhos no quarto. O peito de Garibaldi ardia de amor por Zuca. Mas como dizer isso? Como dizer para ela que tudo o que ele queria era pegar em sua mão, abraça-la, beijá-la. Que sina desgraçada a dos tímidos. Padecer de um amor, sem poder torna-lo público, era o mesmo que estar no inferno, vendo seus entes queridos no céu. Ele ensaiou várias vezes, mas não conseguia. Ele não conseguia.

Mas ali no seu quarto, sozinhos, ele e ela, falando de geografia, falando de história, e falando de namoro. De repente, suas faces ficaram frente à frente. Garibaldi tremia, e quando foi abrir a boca para falar do seu amor, Zuca perguntou:

–Você já gostou de alguém?

“Sim! Sim! Eu te amo! Eu quero você para a minha vida inteira! Eu quero me casar com você! Ter uma família! Sim! Eu te quero!” –Era o que ele queria falar. Mas não foi o que ele disse.

–Não! E você?

Dava para perceber a decepção nos olhos de Zuca. No fundo, ela queria que ele dissesse sim. Mas ele disse não.

–Ninguém? –Ela insistiu…

“Você! Eu amo você!”

–Não! E você?

Maldita timidez!

–Eu também não…

Isso foi quase inaudível, que era como se ela não quisesse ter falado. Ela não queria ter falado aquilo. Ela queria ter dito: “Eu gosto de você, seu trouxa!” Mas ela também disse não. A tarefa terminou, e ela deixou o seu caderno com ele. Ela tinha a esperança de que Garibaldi, romântico que era, deixasse qualquer coisa escrita, que não fosse de geografia. Mas Garibaldi não era só romântico. Era totalmente desligado, e negligente para com os próprios sentimentos, e assim, não escreveu nada, Entregou-lhe o caderno no dia seguinte, a qual ela conferiu várias vezes, tentando encontrar um versinho que fosse. Mas não! Só o silêncio poético.

Na escola, o diabo de cabelo louco continuava a atormentar Garibaldi, que nessas alturas já achava que que Zuca tinha ficado aborrecida por ele ter dito que não gostava de ninguém, porque ele  viu nos seus olhos que ela também desejava o seu amor. Eles então passaram a ser mais próximos do que antes, e Zuca foi aos poucos sendo deixada de lado. Ela se sentia inferiorizada, porque Dani, segundo os seus conceitos, era mais bonita, tinha os cabelos louros, os olhos acaramelados bem claros, grandes e brilhantes. E o seu sorriso, bem, era um sorriso de alguém que queria conquistar. Mas ela queria roubar. E aos poucos ia roubando tudo que pertencia a Garibaldi. Ele sabia que poderia ter sido ela, mas como se libertar da influência maléfica que ela tinha sobre si?

–Quer o meu telefone? –Ela perguntou

Garibaldi não sabe por que afinal de contas ficou feliz. Nem telefone ele tinha. Mas descobriu mais tarde, que ela também não.

–Alô, eu gostaria de falar com a Dani.

–Aqui não tem nenhuma Dani…

–Aí não é o 1028?

–Sim, rapaz, mas não tem ninguém  com esse nome aqui…

Ele ficou furioso por ter sido enganado. Afinal de contas, a Zuca nunca lhe mentira, mas aquela menina, era só mentira, e ainda uma ladra. Isso serviu para Garibaldi tomar vergonha na cara, e se voltar para quem realmente importava. Mas o tempo passou, e com o tempo, as coisas mudam. Ele estava atormentado pelo amor que tinha por Zuca, mas quem inventou o tempo, inventou também a separação. Os pais se Zuca se mudam para longe. Bem longe. A mesma cidade, mas longe. E quando o caminhão da mudança seguia, Garibaldi tentou ir atrás para saber onde era, mas se perdeu, e não descobriu.

Certa vez, eles se encontraram na escola. Ela estudava em outro horário, e estava na escola para a educação física. Mas o encontro não passou de:

–Oi…

–Oi, tudo bem?

O coração de Garibaldi estava em chamas, e naquele dia ele vislumbrou a sua chance. Gleyson. Esse menino que morava na sua rua, estudava na sala dela. Garibaldi então passou a escrever bilhetinhos, pedindo a Gleyson que os entregasse a Zuca. E todos os dias ele saia com um bilhete na mão, mas não tinha coragem de entregar.

–Entregou?

–Não tive coragem. Mas amanhã eu entrego.

Dia seguinte:

–Entregou?

–Não, mas amanhã, juro que entrego.

E essa situação se perdurou por um mês, até que um dia Gleyson reuniu toda a sua coragem, e estendeu o bilhete, sem dizer nada, apenas entregando-o à Zuca. E naquele momento, foi como se ele passasse a brilhar de tal forma que chamou a atenção de absolutamente todos os meninos que estavam na hora da saída, que gritavam:

–Gleyson tá namorando! Gleyson tá namorando!

Isso foi o fim da picada. Ao chegar em casa, ele foi abordado na calçada por Garibaldi, que o perguntou se havia entregado.

–Entreguei, e nunca mais eu faço isso. Todo mundo ficou rindo de mim, achando que era eu que queria namorar com Zuca!

Mas agora, bilhete entregue, ele tinha que tomar uma decisão. Já havia um ano ou mais que o seu coração ardia por ela. Ele escreveu poemas para ela. Ele sonhava com Zuca, estando dormindo e acordado. E agora era hora de agir.

Garibaldi seguiu a menina até perto da casa dela. Ela estava para chegar, quando ele gritou:

–Zuca!

Zuca olhou para trás, e parece ter sorrido. Esbaforido pela subida da ladeira, Garibaldi tomar ar e pergunta:

–Gleyson entregou o bilhete?

–Sim…

–E aí, o que você acha?

Demorou um pouco. Ela não conseguiu olhar nos seus olhos. Olhou para o chão, e enfim respondeu:

–Acho que não vou mexer com isso não…

Foi como um eco que se repetiu.

“Acho que não vou mexer com isso não…”

“Acho que não vou mexer com isso não…”

“Acho que não vou mexer com isso não…”

“Acho que não vou mexer com isso não…”

“Acho que não vou mexer com isso não…”

–Por que?

–Não…

Garibaldi já tinha sentido a dor da separação antes. Mas ela foi ressuscitada de forma mais cruel e intensa, e cabisbaixo, ele disse:

–Tudo bem…

E voltou, desesperançoso. Passaria vinte e cinco anos, e isso ainda lhe doía. Vinte e cinco anos sem saber por que Zuca não o quis. E esses vinte e cinco anos, criaram o poeta em que Garibaldi se tornou. Aquela menina do short verde seria a protagonista de todos os seus poemas de amor.

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