A Menina da Cadeira de Rodas – Dedo Podre

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Genildo era um para-raios para situações ridículas. Certa vez, era aniversário de uma namorada sua, e ele todo alegre, com dinheiro no bolso, foi a uma loja comprar-lhe um vestido de presente.

–Bom dia…

–Bom dia, posso te ajudar? –Disse o atendente, meio nervoso, por ser o seu primeiro dia.

–Sim, eu gostaria de comprar um vestido.

–Ah, que ótimo! É para você mesmo?

Aquela pergunta foi estranha, porque Genildo não tinha cara de quem usava vestido. Pelo menos ele achava que não.

–Ai, desculpe, não é isso! Quer dizer, o vestido é para a sua filha?

Ele olhou com olhar mais grave ainda, e o vendedor finalmente retificou:

–Mil desculpas, é a minha primeira vez…

E findas as confusões iniciais, o vendedor lhe empurrou um vestido que ele não sabia se era roxo ou azul Orkut, mas o levou assim mesmo. Quando a namorada o vestiu, Genildo teve o maior arrependimento da sua vida. O vestido era feio… feio não, horroroso. Eu não sei se a namorada gostava dele, ou se vestia apenas para agradar, mas todas as vezes que eles iam sair, ela o vestia. Genildo ficava com tanta vergonha, que não sabia onde por a cara. Ela o vestia, e ficava uns cem anos mais velha. Isso só prova que dar presentes é a melhor forma de comprovar que não conhecemos ninguém.

E foi nessas circunstâncias, que Genildo conheceu Flávia. Flávia era uma cadeirante, que ele já havia reparado antes. Era uma menina bonita de rosto. Mas naquela ocasião, como um homem inserido na sociedade, conheceu essa moça em algum evento. Ela passava o tempo todo olhando para ele, como a tramar alguma coisa. Era bonita de rosto, e devia ser bonita de corpo. Mais tarde, Genildo comprovaria que sim, ela era, através de fotografias que ela lhe mostrava.

Mas Genildo tinha namorada. Uma mulher com seus 37 anos, chamada Ana, mãe de duas filhas adolescentes, que vez por outra conspiravam contra o namoro da mãe, para que ela reatasse o casamento com o pai. O namoro foi conturbado. Gordinha que era, ela vez por outra criava uma tremenda tempestade em copo d’água, acusando Genildo de gostar das magrinhas.

–Mas que diabos! –Dizia Genildo –Se eu gosto das magrinhas, por que então estou com você?

Era uma pergunta que ele fazia quase todos os dias, sempre que o assunto surgia. E Genildo passava por problemas psicológicos. Fazendo tratamento para depressão, ele era como uma panela de pressão prestes a explodir. E o estopim começou a ser aceso, no dia em que eles discutiram justamente por causa de uma crise de ciúmes de Ana. E o pivô era sempre a sensação de que ela era gorda, e que Genildo preferia as magras.

–Você também nem me ajuda a emagrecer! – Disse ela. –Você é desatento comigo.

E Genildo saiu da casa da namorada com isso na cabeça. Ele ia ajuda-la a emagrecer. E deu-se então que em um domingo, ele estava se preparando para ir namorar, quando Ana ligou:

–Amor, quando você vier, passa na lanchonete e me trás um XTudo…

–Claro que não!

–Não o que?

–Vou te ajudar a emagrecer. Não vou levar Xtudo nenhum.

Ana ficou tão enfurecida com a inciativa de Genildo, que o xingou todo, desligando o telefone antes que ele pudesse responder. Genildo, que sabia que ela o esperava, seguiu para a sua casa. Mas Ana havia saído. Genildo ficou sentado à porta da casa de Ana até perto da meia noite, quando ela chegou bêbada, rindo feito uma Maria Padilha, e fendendo a álcool, de uma forma que somente os que não bebem sentiam. Genildo não bebia. Isso foi o ponto de fervura para que eles terminassem.

–Eu quero terminar.

–Num termina comigo não, meu amor. Eu te amo, me desculpa… amanhã eu estou boa, e a gente conversa…

–Não, já chega!

–Vem, meu amor. Vamos para o quarto fazer amor, vamos…

Ela tirou todo o vestido, ficando apenas com as roupas de baixo, e o puxava para o quarto, tocando-lhe as partes íntimas, e o jogando com força na cama. Ana tinha mais força do que Genildo, devido à visível diferença na compleição física de ambos, o que nunca foi problema para Genildo, que sempre enxergou a alma das mulheres. Mas foi em vão, pois Genildo não estava nem um pouco interessado… bem, ele estava excitado sim, mas preferiu não dar a ela nenhuma esperança mais. Mas a força do sexo foi maior que a do bom senso, e por um momento ela conseguiu dobrar-lhe a vontade usando com a boca, técnicas sexuais inenarráveis, ele então relaxou. Mas bêbada como estava, simplesmente caiu desfalecida sobre Genildo. Ela dormiu bem quando eles iam transar. Ele se aproveitou, foi embora e não voltou mais.

Bom, foi assim, andando de lá pra cá, que Genildo conheceu Flávia. Como já foi dito, Flávia era cadeirante, tinha um rosto muito bonito, e aparentemente tinha também uma inteligência prodigiosa. Mas era uma menina solitária e carente.

–Vai lá em casa depois, Genildo. Eu fico tão sozinha!

–Genildo não sabe se foi ternura, carinho, ou se ficou com pena. Fato é que no dia seguinte ele havia batido em sua porta, e estranhamente, a mãe da menina havia feito um lauto lanchinho, com tudo que tinha direito: pães, bolos, bolinhos, presunto. Pareciam estar esperando alguém. E foi isso que Genildo quis saber:

–Estão esperando alguém?

–Você… –respondeu Flávia, sorrindo.

Aquilo foi estranho. Genildo sentiu um frio a lhe percorrer a espinha. Como assim? Ele nem avisou que viria.

–Você bebe, Genildo? –Perguntou a mãe, Cássia, abrindo uma lata de cerveja.

–Não, obrigado.

–Só um pouquinho… Só para você relaxar…

Relaxar?

Flávia e Genildo passaram a ser amigos, e passaram a ter encontros diários, aproximando cada vez mais a ambos. Quando conversavam, Flávia ficava reparando em seu rosto, e sorrindo para si mesma, além de mais do que o necessário, ficar tocando em seu braço e em seu rosto.

A menina da cadeira de rodas de certa forma alimentava certa esperança em relação à Genildo, e passou a cada vez mais acariciar o seu rosto, de forma a Genildo achar aquilo estranho.

–Por que você não namora a Flávia? –Disse a mãe, tentando forçar uma situação que para Genildo era impraticável. Afinal, como namorar uma cadeirante?

Genildo não soube o que responder. Mas ele se deu conta do que estava acontecendo: a mãe queria arrumar um namorado para a filha. E isso ficou muito claro quando uma vez ele chegou, e Flávia estava no banho. E Cássia, uma mulher com seus cinquenta e poucos anos, muito branca e com coxas enormes, se sentou ao seu lado, e estranhamente também começou a acaricia-lo. E sorrindo ela fez mil promessas para o homem que tivesse coragem de se casar com a sua filha.

–Eu vou vender essa casa, e comprar dois barracões. Um para mim, e um para a Flávia. E vou comprar também um carro para ela. Na sua condição, ela precisa, coitada. E a mulher estava bem encostada em Genildo, quando a Flávia surgiu de repente, cabelo ainda molhado. Essa mulher deu um pulo para longe, que parece ter tomado um choque.

Havia uma espécie de trama ali. E as duas tinham uma certa carga magnética irresistível, que Genildo não conseguia parar de frequentar aquela casa, até que certa vez eles ficaram sozinhos, e a menina da cadeira de rodas o beijou. Mas não foi qualquer beijo. Foi um beijo obsceno. Ela queria mostrar que sabia, que não ele não era o seu primeiro homem.

–Genildo, fica comigo. Eu prometo que mesmo sem poder me mexer, eu realizo todos os seus desejos.

Mas ele queria saber como. Nesse momento, uma espécie de guerra, de dilema se instalou em sua mente. Como conviver com uma garota que só se mexia da cintura para cima? E ela, já decidida a conquistar os corações de cima e de baixo, de Genildo, passou a lhe mostrar fotografias íntimas suas. Apenas de lingerie,  nua, de camisola, baby doll, tudo quanto se pode imaginar. Um corpo fenomenal se revelava por baixo das roupas extremamente comuns que aquela menina da cadeira de rodas se revelava.

–Você já… tipo…

–Se eu já transei com alguém?

–Isso.

–Sim. Eu tive um namorado certa vez…

Genildo não acreditou, mas pelo menos beijar, ela sabia muito, e ele se tornara dependente dos seus beijos.

Nos dias que se passaram, ela o incitou a tocar os seus seios e as suas partes íntimas, e passava nua de cadeira de rodas, do banheiro para o quarto, olhando para ele de forma insinuante. Era uma situação totalmente atípica, e Genildo passou a vasculhar na internet mil e uma maneiras de transar com uma pessoa de cadeira de rodas. Surpreendentemente, havia muitas maneiras. Mais do que ele imaginava. Foi quando ele disse sim. Mas daquele dia em diante, algo pareceu mudar entre as duas: mãe e filha. Genindo descobriu que aquela sua namorada era uma mulher extremamente rancorosa, cheia de ódio, e com planos maquiavélicos para derrubar desafetos de sua condição. Ela tramava na maior naturalidade a morte de uma importante pessoa na cidade. E pior, ela desejava inserir Genildo em seus planos maléficos. Cheio de temor, Genildo também alterou o seu interesse, mas não sabia como se livrar dela. Era uma verdadeira fera na cama, tinha um rostinho lindo, tinha uma inteligência prodigiosa, mas tinha a alma negra como a noite, e tomava por inimigo boa parte da cidade. Onde era inserida para trabalhar, iniciava conspirações, que acabavam ruindo em cima dela mesma, pois o seu interesse era realmente puxar o tapete dos chefes e lhes tomar o lugar, para poder ser alçada em alguma posição importante na sociedade. Isso preocupava Genildo. Mas algo acontecia nas suas costas que ele não sabia, e que deveria deixa-lo ainda mais em alarme:

–Vai casar heim, malandro? – Disse-lhe um amigo em plena rua.

Como assim? Deve ser alguma brincadeira. Lógico, só pode ser.

Mas a brincadeira continuava…

–Vai desencalhar heim, espertalhão?

–Uai, Genildo, estou sabendo que você vai se casar

–Moço, estou muito decepcionado com você. Vai casar e não convida os seus amigos.

Genildo soube assim que a cidade toda sabia que ele ia se casar, menos ele próprio.  E na faculdade onde ele estudava, os funcionários da secretaria lhe contaram todos os detalhes sórdidos. Flávia planejava todo o casamento. Ela convidara a todos da faculdade, e disse que como ele era uma pessoa das mais conhecidas na cidade, o casamento deveria ser chique, e que portanto, todos os convidados deveriam estar trajados a rigor. Imaginem, Genildo mal conseguia se sustentar a si mesmo, como poderia se casar com tanta pompa e circunstância, e pior, sem que nenhum de seus amigos fosse convidados? E mesmo que fossem, que raio de casamento era aquele que só o noivo não estava sabendo? E a prova final, veio quando certa vez eles ficaram sozinhos em casa. Flávia foi tomar banho, e deixou Genildo vasculhando a internet, no laptop da namorada. Numa pasta para lá de escondida, havia uma lista de convidados, e uma prova do convite que ela mesmo, autodidata que era, havia feito em uma poderosa ferramenta de edição gráfica. E Flávia saiu toda serelepe, seminua como de costume, mas o encontrou carrancudo.

–O que foi, meu amor?

–Que diabos é isso?

Ela estatelou os olhos, e seu rosto ficou vermelho de nervoso.

–Quem mandou você mexer no meu computador?

–Você deixou!

–Eu não! Você não sabe que isso é invasão de privacidade, e que eu poderia processar você? Aliás eu vou fazer isso! Vou processar você…

–Quer saber, para mim já deu! Você é louca!! Louca!!

Genildo deu as costas, e Flavia ainda enrolada na toalha, e hábil na cadeira de rodas, o cercou na porta sala, o beijando, e implorando:

–Meu amor, por favor, não faz isso. Eu amo você…

–Você tramou o meu casamento nas minhas costas…

–Mas é porque eu te amo, eu não posso viver sem você! Você foi  único homem que me completou, me deu prazer, por favor, meu amor, não faça isso. Vamos começar então do zero. Eu esqueço que eu quero casar, vamos só namorar…

Ele meneou negativamente a cabeça, e atravessou a saída.

–Eu me mato se você sair dessa casa.

Ela então revelou um verdadeiro arsenal de remédios contra depressão, que se tomados todos de uma vez, poderia sim mata-la.

–Você não seria capaz…

–Quem é que vive essa vida desgraçada que eu vivo, sofrendo de preconceito, e não teria. Eu teria! Eu vi em você a minha libertação. Eu me doei para você, porque você foi o único homem atencioso, carinhoso, amável, e cheio de paciência e que teve coragem de transar com uma aleijada! Mas eu não sou uma puta que você come e larga quando quer? Ou era isso que você achava?

–Eu nunca vi em você essa puta que você diz. Eu vi uma garota que precisava sim de atenção, respeito e amor. Mas vi também o seu coração negro. A sua ânsia em descontar no mundo o fato de você ter nascido aleijada. Ninguém tem culpa disso! E eu não sou seu escudo e a sua arma para você usar contra todo mundo.

Ele se virou, e ela o agarrou mais uma vez.

Ria e chorava ao mesmo tempo:

–Por favor, não faço mais, não me deixa! Por favor. Eu não consigo viver sem você.

Genildo não podia se permitir permanecer com um namoro indesejado só por piedade. Resolveu assim, deixar a menina da cadeira de rodas aos prantos, e a gritar feito uma louca pelo seu nome. Todos os vizinhos devem ter escutado. Isso serviu-lhe de lição. Entrar em um relacionamento só porque ninguém mais queria era a pior armadilha que uma pessoa podia viver. Daquele dia em diante, eles não se falaram mais, e acredito que a mãe tenha casado a Menina da Cadeira de Rodas com outro desavisado.

 

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