Capitulo 11 – Sagrada Família

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Favela do Vidigal, Rio de Janeiro

AMANDA – Então é por isso que você é contra meu namoro, porque ele é meu primo? Sinto muito dizer mais é tarde demais nós dois nos amamos.

LUCIANA – Acalme-se Amanda.

AMANDA – Como pôde tia? Abandonar o seu próprio filho na porta de um qualquer, você era a pessoa que mais gostava depois do meu pai era uma amiga para mim… Como pude ser tão burra e não ver que aquela Luciana do facebook era você, como pôde tia? Como pôde?

LUCIANA – Eu sei que não tem explicação minha querida, eu estava desempregada e não tinha marido engravidei em uma festa que fiquei bêbada e acabei indo pra cama com o playboyzinho filhinho de papai, quando soube da gravidez ele me levou para fazer o aborto, mas não tive coragem, mentir que tinha perdido espontaneamente, tentei me virar nos primeiros meses com sua mãe após o nascimento da criança, mas não tinha dinheiro e resolvi que era melhor pra ele que fosse de uma família melhor, que pudesse dar as coisas para ele.

AMANDA – (indo em direção a tia furiosa) Nada justifica esse ato repulsivo, é uma vida, não se pode tratar uma criança como um objeto.

MARTA – Se acalma Amanda.

AMANDA – Se acalmar? Agora sei porque não queria que eu namorasse com ele, sua monstra! Tinha que está metida nisso, né? Bem do seu tipo, não sei nem porque estou surpresa.

ANTÔNIO – Você passou totalmente dos limites agora Marta, como pode fazer isso como uma pobre criança? Será que faria isso com nossa filha?

MARTA – Claro que não!

AMANDA – Você acabou com minha vida, não podia esconder essa história de mim.

MARTA – O que você sabe dos meus direitos em menina, fala, eu te disse que não gostava desse namoro e te proibir, agora não tenho culpa se você prefere sair por ai se distribuindo pra qualquer um.

 Amanda vai até onde sua mãe e dá uma tapa nela

MARTA – Como ousa sua fedelha (devolve o tapa).

AMANDA – É por isso que toda vez que eu falava dele você ficava curiosa ne, o que você esconde mais de mim?

MARTA – Sai daqui!

ANTÔNIO – (puxando Amanda para o quarto) Vem Amanda deixa que eu resolvo isso.

AMANDA – Me solta pai, vai me dizer que não sou sua filha? Que também sou adotada.

Luciana começa a chorar

LUCIANA – Para, por favor, Amanda a culpa não é de sua mãe é minha.

ANTÒNIO – A culpa é das duas, vem Amandinha você não merece ficar nesse ambiente com essas duas víboras.

Antônio leva sua Filha para o quarto

LUCIANA – Isso não poderia ter acontecido Marta, por que não me disse isso antes?

MARTA – Iria mudar alguma coisa, faz tempo que estou tentando separar esses dois, quero ver esse relacionamento durar depois disso.

LUCIANA – Credo, você não liga para a felicidade de sua filha?

MARTA – Claro que não, eu ligo para um bom futuro, onde ela seja rica e se prepara porque isso é só o começo da confusão ninguém mandou você ter essa ideia.

Antônio sai do quarto

ANTÔNIO – Você vai pegar suas coisas e sair dessa casa agora Marta, não quero mais você aqui.

MARTA – Essa casa é minha e quero ver que vai me tirar.

Antônio vai até Marta, a pega pelo cabelo, sai para a rua e a joga no meio da calçada

MARTA – O que você pensa que está fazendo?

ANTÔNIO – (Gritando) Aqui você não fica mais… Vai embora… Ruaaaaa… (fecha a porta).

LUCIANA – Antônio, acalme-se você não pode fazer isso.

Marta bate incessantemente na porta e Antônio entra no quarto pega as roupas de sua mulher no armário e coloca em uma mala, volta abre a porta de entrada e joga a mala na rua.

ANTÔNIO – Vai sair por bem ou por mal Luciana?

Luciana pega suas malas e sai chorando, Antônio fecha a porta

MARTA – Ta vendo o que essa sua ideia fez Luciana, agora não tenho mais marido, não tenho filha e muito menos casa.

LUCIANA – (chorando) Vamos para o hotel.

***

Casa dos Albuquerque, Leblon, Rio de Janeiro – 7:00

Mesa do café da manhã.

CRISTIANA – Mãe… Pai… essa é a Maria Tereza, ela veio do Maranhão a procura de emprego aqui no Rio de Janeiro e ontem começou a chover e resolvi acolhe-la aqui, já que ela não tinha para onde ir e resolvi oferecer o emprego de faxineira.

FERNANDO – Por mim tudo bem, já trabalhou de empregada em outro local?

MARIA TEREZA – Sim, lá no Maranhão eu fazia faxina na casa de umas pessoas

HELENA – Quantos anos você tem Maria?

MARIA TEREZA – Tenho 25.

HELENA – Muito nova para vir para o Rio

MARIA TEREZA- Lá não temos muitas oportunidades e resolvi tentar a vida aqui.

HELENA – Foi um grande risco seu vir até aqui sozinha, mas será bem-vinda, o Fernando vai cuidar de sua contração, pagamos o salário de domestica mais bônus, horas extras tudo conforme a lei, também oferecemos moradia para você.

MARIA TEREZA – Obrigado pela oportunidade não vou decepciona-los.

Gabriel desce para tomar café e Teresa sai para fazer seu trabalho.

GABRIEL – Quem é essa gata?

CRISTIANA – A nova empregada da casa.

GABRIEL – Uma gatinha em.

FERNANDO – E não é pro seu bico filho.

GABRIEL – De boa coroa, cadê o Tony? Nunca mais o vi.

Cristiana e seus pais se olham até que Fernando responde

FERNANDO – Ele teve que fazer uma viajem pelo hospital para decidir algumas coisas, deve demorar pra chegar.

O celular de Gabriel começa a tocar

HELENA – Nada de celular na hora das refeições.

Ele ver quem é e não atende

GABRIEL – Tudo bem é a Amanda depois eu falo com ela.

***

Favela do Vidigal, Rio de Janeiro

AMANDA – Droga que ele não atende.

ANTÔNIO – Filha será que não é melhor você deixar do jeito que ta?

AMANDA – Ele tem o direito de saber que ele não é filho dos Albuquerque. O que acontecerá com nossa família pai?

ANTÔNIO – Sinceramente eu não sei, sua família agora sou eu e você, sua mãe nos decepcionou muito.

AMANDA – Nunca esperava isso dela, eu sei que ela é daquele jeito, eu sabia que iria terminar em alguma tragédia.

ANTÔNIO – Não sei porque ela ficou assim, acho que a culpa é minha.

AMANDA – Não se culpe, você fez o seu melhor e o exemplo disso sou eu, você é o grande pai, o melhor do mundo.

Amanda vai até onde o pai e abraça

ANTÔNIO – Obrigado minha filha.

AMANDA – O que será que ela deve estar fazendo? O que nunca imaginei foi a tia Luciana envolvida, era parecia ser tão mais calma que a mãe e nunca imaginei ela fazendo uma coisa dessa.

***

Hotel, Leblon, Rio de Janeiro

MARTA – O que será de minha família agora em Luciana?

LUCIANA – O que importa sua família, você nunca valorizou ela, depois que perde que você quer valorizar, não achas que já é tarde demais? Para de choramingar que isso ia acontecer a qualquer momento, essa sua antipatia que fez isso.

MARTA – Essa sua ideia que fez isso acontecer.

LUCIANA – Será que não foi essa sua chatice?

MARTA – Ah cala boca!

LUCIANA – Queria que o tempo voltasse e relembrar tudo aquilo que vivemos na fazendo do nosso pai, as tardes de correrias pelo campo, andar a cavalo era um tempo muito bom que eu não tinha que me preocupar com filho abandonado e irmã mimada.

MARTA – É irmã, infelizmente não temos mais 14 anos de idade e temos que encarar a realidade, que não está muito favorável para nós neste momento, tenho quase certeza que o Gabriel já sabe que é seu filho.

LUCIANA – Será bem mais fácil se ele já souber, pelo menos me livro dessa responsabilidade de dar essa notícia.

MARTA – Vá pensando que será mais fácil, os problemas só estão começando.

***

Gávea, Rio de Janeiro
Hotel Abeville

Tony conversa com Vanda por telefone.

TONY – E então como ta as coisas ai?

VANDA – Eles me aceitaram como você disse, ta sendo bem fácil, são um bando de otários.

TONY – Te disse, mas já descobriu algo?

VANDA – Até agora não, acabei de chegar acalme-se!

TONY – Estava pensando em vigiar a Cristiana na escola pra ver se descubro algo lá o que achas?

VANDA – Se não for fazer nenhuma besteira acho interessante.

TONY – Vou ficar de olho na saída dela.

VANDA – Por favor não vá fazer nenhuma besteira, seu filme já está bastante queimado, fica de longe para não ser reconhecido.

TONY – Tudo bem e quando vou ver você?

VANDA – Não sei quando der eu aviso.

TONY – Não vejo a hora de acabar com a raça dessa família.

VANDA – Só quero o dinheiro desses bobos aqui, estou com saudades de você também meu bem.

TONY – Por que você não dá uma fugidinha e vem aqui?

VANDA – Como se eu não conheço nada e nem ninguém aqui? Dou um jeito depois.

TONY – Espero que dê mesmo!

Silveira entra na Cozinha da casa do Albuquerque.

MARIA TEREZA – Agora vou ter que desligar mãe, estou bem depois falo com a senhora estou no trabalho.

TONY – Como assim mãe?

MARIA TEREZA – Beijos te amo mãezinha! (Desliga o celular)

SILVEIRA – Vamos algumas regras senhorita Tereza. É proibido usar celular durante o serviço, exceto em casos extremos, é sua responsabilidade limpar os quartos, a sala, os banheiros, a cozinha, tudo, não vou tolerar corpo mole.

MARIA TEREZA – Sim senhor!

Silveira se vira pra sair.

MARIA TEREZA – Senhor Silveira, posso lhe perguntar uma coisa?

SILVEIRA – Sim

MARIA TEREZA – Por que tanta amargura em seu coração?

SILVEIRA – Você vai aprender com a vida.

MARIA TEREZA – Não quero ser igual a você.

SILVEIRA – Então nunca confie nas pessoas

Silveira sai mas para no corredor que dar acesso a sala

SILVEIRA – (olhando o celular) Muito menos em mim.

***

Leblon, Rio de Janeiro

Gabriel havia acabado de sair do treino de basquete e ia em direção a sua casa quando seu telefone toca.

GABRIEL – Oi Amanda o que foi?

AMANDA – Preciso conversar com você.

GABRIEL – Aconteceu algo?

AMANDA – Aconteceu tudo, podes vir aqui em casa?

GABRIEL – Posso sim, me espera na entrada do morro.

AMANDA – Ta bom, não demora!

Minutos depois Gabriel está subindo o morro com Amanda

GABRIEL – Então o que tem para me contar?

AMANDA – Melhor deixar pra quando chegar lá em casa, é muito grave.

GABRIEL – Você ta me deixando tenso.

AMANDA – É melhor você se segurar.

Eles chegam à casa de Amanda

AMANDA – Sente-se, quer uma agua, suco?

GABRIEL – Não, me conte logo o que você tem a dizer.

AMANDA – Vou chamar meu pai, é melhor que ele esteja presente.

Amanda volta com o seu pai

GABRIEL – Boa tarde, senhor Antônio.

ANTÔNIO – Sente-se Gabriel o assunto é sério.

GABREL – Alguém pode me dizer o que está acontecendo?

ANTÔNIO – Fique calmo!

AMANDA – Pai, vou direto ao assunto, nós dois somos primos.

GABRIEL – Como assim?

ANTÔNIO – Tudo indica que você não é filho da Helena Albuquerque, mas da Luciana irmã de minha mulher. Ela abandonou você na porta dos Albuquerque porque não tinha condições de cria-lo e achou melhor você ter um futuro com eles.

GABRIEL – Vocês estão mentindo

AMANDA – Claro que não amor, eu não queria que fosse assim, se fosse mentira para que eu iria envolver meu pai nisso, a nossa família está de cabeça para baixo, minha mãe foi expulsa dessa casa junto com a irmã dela, elas estão em um hotel no Leblon, vamos lá que vão te contar tudo.

GABRIEL – (chorando) Mas por que isso agora?

AMANDA – Minha mãe queria nos separar faz algum tempo, eu não sei o que vamos fazer agora, já que somos primos.

GABRIEL – Jamais irão nos separar.

***

Escola Johnson Junior, Leblon, Rio de Janeiro

MATIAS – O que você fez é muito grave Lorena.

LORENA – A culpa toda é daquela Cristiana, ela que me irritou.

MATIAS – Nada justifica essa atitude, o vídeo mostra claramente que você é a única culpada, isso é crime, se ela quiser denunciar ela pode e você vai se dar mal, já que é de maior, isso é xenofobia.

LORENA – Xeno… o quê?

MATIAS – Xenofobia, é o preconceito com pessoa de outras regiões, culturas diferentes, dá até cadeia, você tem sorte de ela não fazer a denúncia imagina como ficaria a imagem da escola?

LORENA – To nem ai pra escola, fala logo qual vai ser meu castigo.

MATIAS – Você vai ficar na cozinha para lavar todos os pratos durante essa semana e sinta-se satisfeita por não ter contado pro seu pai, porque senão você já sabe.

LORENA – Aff, e a Cristiana?

MATIAS – Ele teve culpa nenhuma.

LORENA – Ela nunca tem!

Lorena sai da escola bufando de raiva e atravessa a rua e se encosta em um carro preto

LORENA – Aquela maldita da Cristiana Albuquerque vai me pagar, ah se vai, mas vai ser uma vingança muito boa.

Um homem branco alto sai de dentro do carro e vai em direção a ela

TONY – Oi, me chamo Tony e vejo que você quer vingança contra a Cristiana, eu posso te ajudar, pois estamos no mesmo barco.

DEPOIMENTO REAL

Fortaleza, Ceará. Maio de 1983.

Um casal, com três filhas pequenas, chega em casa. O marido é economista e professor universitário. A mulher, farmacêutica bioquímica com mestrado em parasitologia. Ela põe as crianças para dormir. Ele vai para a sala e liga a TV. Ela toma banho e vai se deitar. De repente, acorda com um tiro nas costas. Imediatamente pensa: “Acho que meu marido me matou”. Desmaia. Quando recobra a consciência, vê muitas pessoas à sua volta. São os vizinhos. Assustados, enquanto esperam a ambulância, comentam que houve uma tentativa de assalto. O marido está na sala com o pijama rasgado e uma corda enrolada no pescoço. Por enquanto, só ela sabe que o homem – que sempre agrediu a ela e às crianças – está fazendo um teatro. Mais tarde as investigações vão provar que o marido foi o autor do disparo. Mas o terror não acabou naquela noite. Depois de várias cirurgias e meses de hospital, presa para o resto da vida a uma cadeira de rodas, ela sofrerá um segundo atentado dentro do banheiro da casa. O marido tentará eletrocutá-la. Não consegue, pois ela grita e a babá das filhas aparece.

O nome dele é Marco Antonio Heredia Viveros. O dela, Maria da Penha Maia Fernandes. Vinte e três anos depois do tiro nas costas, a mulher seria homenageada dando seu nome à Lei 11.340, assinada pelo presidente Lula, em 2006. A Lei Maria da Penha que responsabiliza autores de ameaças, agressões, assassinatos embaixo do guarda-chuva da violência doméstica. Mas Maria da Penha é uma entre uma multidão de outras que são submetidas à violência por parte de namorados, noivos, maridos, amantes atuais ou ex. O caso da farmacêutica demonstrou para a opinião pública que a violência doméstica ocorre em qualquer classe social e nível de escolaridade.

Lucas André

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One Comment

Anderson Silva

Antônio perdendo ponto comigo! Expulsar a Martha de casa até vai, mas por causa de uma coisa no passado que eles deveriam levar em consideração.
#OdiandoAmandaeAntônio
Gostei do drama da Luciana. Poderia ter estendido mais o segredo…
Lorena vai se juntar com o Tony. Já tô gostando.

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