Capitulo 10 – Sagrada Família

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Leblon, Rio de Janeiro

Tony a puxa para a saída e Helena se desespera e vai até a cômoda de Tony onde pega uma arma e aponta pra ele.

CRISTIANA – (grita) Não mãe, acalme-se.

FERNANDO – (indo até Helena) Não Helena.

Tony solta Cristiana

TONY – Atira! Sei que você não tem coragem. Atira!

Helena segura a arma com as duas mãos, mira, fecha os olhos e aperta o gatilho.

Mas Fernando segura as mãos de Helena, aponta pra cima e a bala se aloja no forro de gesso do quarto, ele pega a arma da mão dela.

FERNANDO – (Assustado) O que você iria fazer Helena?

HELENA – Iria acabar com essa história toda, já estou cansada de me sentir ameaçada por esse monstro, você não vai destruir minha família.

TONY – Você não tem coragem, você ainda me ama.

HELENA – (andando até Tony) Eu não amo você, eu tenho nojo, quero você longe da minha casa, longe da minha família, agora eu sou livre, a justiça me deu hoje à tarde a notícia que você terá que ficar longe de mim e da minha família, agora sai daqui, some, nunca mais apareça se não chamarei a polícia e ai de você se chegar perto da minha família.

TONY – Está é minha casa e não vou deixar que nem você, sua vagabunda, me tire isso.

Helena dá um tapa na cara de Tony e ele faz o mesmo nela.

FERNANDO – Na minha mulher você não vai mais bater.

Fernando se enfurece e parte para cima de seu amigo com socos e ponta pés, os dois caem em cima do criado mudo que ficava perto da porta do quarto, Tony retribui com chutes e socos, Cristiana se desespera e tenta separar, mas acaba sendo atingida com um soco de seu padrasto e cai no chão.

Fernando vai até onde sua filha e se enfurece ao ver o braço roxo dela, vai até Tony pega ele pelo colarinho e sai arrastando pela escada chegando na metade ele joga o seu amigo e ele sai rolando escada abaixo.

Tony se levanta.

TONY – Vocês vão se arrepender disso. (sai)

Fernando retorna ao quarto de Helena

FERNANDO – Vocês estão bem?

CRISTIANA – Sim, espero que ele não volte mais aqui.

FERNANDO – Se depender de mim não vai, mas o que deu em você Helena?

HELENA – Eu só queria que esse sofrimento acabasse, com esse infeliz morto seria mais fácil.

FERNANDO – Violência só vai gerar violência, vamos deixar que a justiça se encarregue disso.

CRISTIANA – Agora vamos esquecer tudo o que ocorreu aqui e nos preparar para o Jantar, o Gabriel já chegou?

HELENA – Não, deve estar na escola ainda.

FERNANDO – Melhor que ele não fique sabendo de nada do que está acontecendo aqui nessa casa.

CRISTIANA – E quando ele der falta do Tony, pai?

FERNANDO – Temos que inventar uma boa desculpa, mas tenho certeza que Tony vai ficar vigiando cada passo nosso.

HELENA – Até de longe aquele maldito tem a capacidade de nos deixar indefesos.

***

Favela do Vidigal, Rio de Janeiro

AMANDA – Tia, você voltou!

LUCIANA – Minha menina, você cresceu já tá uma mulher.

AMANDA – Quase isso, só falta algumas pessoas pensarem assim.

MARTA – Ihh, já começou com as indiretas quer levar outra surra como ontem?

LUCIANA – Vamos parar de briga, trouxe um presente para você minha linda

AMANDA – O que é?

LUCIANA – Acalme-se querida

Luciana entra no quarto, volta, entrega o pacote para Amanda.

Rapidamente Amanda se desfaz do pacote e fica encantada com a caixinha de música e com a pequena bailarina que veio junto, ela abre a caixinha e coloca a dançarina, fica alegre quando ao ver a bailarina rodopiando ao som da música que saía da pequena caixa.

AMANDA – É lindo tia, obrigado

LUCIANA – Sabia que iria gostar

MARTA – Gente Rica é outra coisa, podia se lembrar mais de sua irmã aqui.

LUCIANA – Para de resmungar Marta, também trouxe presente para você.

MARTA – Até que fim uma boa ação

Luciana pega dois pacotes

LUCIANA – Está aqui seus presentes Marta

MARTA – Espero que seja algo chique

LUCIANA – Tenho certeza que você vai gostar

Marta abre o primeiro pacote e encontra um lindo vestido azul de gala

MARTA – É né dá para o gasto

LUCIANA – Você nem sai de casa irmã, é odiada por todos aqui.

MARTA – Ta sabendo mais de nós, que nós que moramos aqui

AMANDA – São apenas verdades.

MARTA – Cala boca, imprestável!

LUCIANA – Abra logo a caixa, tenho certeza que gostará mais desse.

MARTA – Se você está dizendo, ne!

Marta solta o laço da caixa

MARTA – Não sei para que esse laço e essa frescura toda de embalagem

LUCIANA – Eta Irmã sempre resmungando

Ela continua a tirar o laço até que consegue abrir a pequena caixa e dentro encontra um colar de pérolas revertidas de ouro.

MARTA – Que maravilhoso (fala retirando da caixa) deve ter custado uma fortuna.

LUCIANA – Nada demais, uma merreca dessa não me fará falta.

AMANDA – E você vai dormir aqui tia?

LUCIANA – Claro que não, vou ficar em um hotel aqui no Leblon.

AMANDA – Posso ir dormir com você?

LUCIANA – Claro que sim…

MARTA – (interrompendo) Claro que não, basta o que aprontou na última noite, hoje você vai dormir aqui nem que eu tenha que montar guarda na frente de seu quarto.

LUCIANA – Larga de ser chata Marta deixa a menina ir.

MARTA – Eu já disse que não e ponto final.

AMANDA – Deixa tia um dia ela vai ser arrepender.

MARTA – Isso é uma ameaça?

***

Hotel, Gávea, Rio de Janeiro

VANDA – Eu só quero entender o porquê de você ter ido atrás da Cristiana.

TONY – Tinha esperança de que ela pudesse convencer o pai dela a desistir desses planos.

VANDA – Agora devem estar te odiando mais ainda, foi um erro você ter feito isso sem antes me comunicar, seu Burro!

Tony vai até onde Vanda e a puxa pelo Braço

TONY – Meça suas palavras quando falar comigo, tá entendendo sua vagabunda.

VANDA – Larga de ser idiota, como vou entrar naquela casa agora, com você lá iria ser bem mais fácil.

TONY – Nem iria dar porque aquela cretina da Helena entrou com um processo contra mim e agora terei que ficar 100 metros dela e da casa.

VANDA – E como vamos fazer então, sabidão?

TONY – Simplesmente você vai aparecer lá como uma pobre coitada vinda do interior.

VANDA – Tu achas que eles vão cair nesse papo.

TONY – Do jeito que aquela Cristiana é toda besta para esses assuntos com certeza vão te aceitar.

VANDA – E quando vai ser?

TONY – Maria Tereza vai entrar em cena hoje, já consegui seus documentos falsos.

***

Favela do Vidigal, Rio de Janeiro

AMANDA – Não é uma ameaça é só um conselho.

MARTA – Tão engraçadinha, ficará mais engraçada quando apanhar.

LUCIANA – Parem vocês duas nem parecem mãe e filha.

AMANDA – Ela que começou tia.

LUCIANA – Mas você também provoca Amanda.

MARTA – Ta vendo como você também tem culpa?

AMANDA – Mas tia por que você voltou pro Brasil?

LUCIANA – Eu vim recuperar o que é meu o meu…

MARTA – (cortando, olhando sua irmã) Negócio que tinha aqui.

LUCIANA – Isso mesmo uma empresa que tinha aqui que faliu.

AMANDA – E como eu nunca soube dessa empresa?

LUCIANA – Você ainda era muito pequena claro que não iria lembra.

AMANDA – Mas se faliu qual o interesse nela agora?

MARTA – Vamos parar com esse interrogatório, vá jantar, vá filha

AMANDA – Tudo bem, mas isso ta estranho!

MARTA – Tudo sempre tá estranho para você

AMANDA – Onde está o pai?

MARTA – Ele saiu, disse que iria la no Bar do Zé.

AMANDA – Ele já está bebendo de novo? Olha o que o médico disse!

MARTA – Posso fazer o que? Ele já é maior de idade e já sabe se cuidar.

AMANDA – Mas você hem, nem isso pode fazer.

Amanda sai de casa em direção ao Bar do Zé

***

Leblon, Rio de Janeiro

JOYCE – (no telefone) Onde você esteve à tarde toda.

CRISTIANA – Ahh, amiga advinha? … enfim vou dizer logo estava com o Rafael em um local só nosso, nos beijamos e ficamos a tarde toda trocando carinho.

JOYCE – Nem para me avisar, fiquei preocupada.

CRISTIANA – Não deu, deixei o celular dentro da bolsa lá na sala e nem vi o tempo passar. (solta um sorrisinho)

JOYCE – Eta que com esse sorrisinho foi bom, já é algo sério?

CRISTIANA – Ainda não, só estamos começando, você é muito apressada.

JOYCE – Ta perdendo tempo, vocês foram feitos um para o outro amiga.

CRISTIANA – Vamos deixar rolar para ver o que vai dar.

Nesse momento começa a chover torrencialmente do lado de fora

JOYCE – Chuva do nada?

CRISTIANA – É o clima tropical do Brasil, Joy

JOYCE – Que loucura e parece que vai durar a noite toda, voltando ao assunto onde fica esse lugar de você?

CRISTIANA – Não sei se posso contar porque ele me pediu segredo.

JOYCE – Vai fazer segredo com sua melhor amiga?

CRISTIANA – Ohh Joy entenda!

JOYCE – Tudo bem!

CRISTIANA – Ahh tu nem sabe o que aconteceu depois que sai da escola, advinha quem estava lá para me buscar?

JOYCE – O Tony

CRISTIANA – Justamente

JOYCE – O que ele queria?

CRISTIANA – Disse que conversar, mas o pior foi o que aconteceu depois, ele me seguiu até em casa, até o quarto da minha mãe e quase ela dá um tiro nele, sorte que meu pai foi ágil e conseguiu segurar a mão dela pra cima antes que ela atirasse.

JOYCE – Tiro?!

CRISTIANA – Sim, minha mãe ta muito atordoada ainda bem que a justiça deu condição favorável a ela no processo e agora o Tony vai ter que ficar 100 metros longe de nós.

JOYCE – Pelo menos isso, mas tome cuidado com ele.

CRISTIANA – Vou ter

A campainha Toca e Silveira vai atender

SILVEIRA – Pois não

MARIA TEREZA – Olá, eu me chamo Maria Tereza, estou vindo de Imperatriz no Maranhão para trabalhar aqui no Rio, só que começou a chover e estou com todas essas malas queria saber se poderia ficar um pouco aqui.

SILVEIRA – Infelizmente aqui não é refúgio para desabrigados.

CRISTIANA – (indo até a porta) Silveira não fale assim com a pobre da moça, pode entrar sim, não seja tão insensível.

SILVEIRA – Vou avisar a sua mãe que está moça está aqui.

CRISTIANA – Vejo que não é necessário incomodar minha mãe com isso.

MARIA TEREZA – Se eu estiver incomodando eu posso ir embora.

CRISTIANA – Claro que não está, pode entrar, deve estar cansada da viagem e com fome.

MARIA TEREZA – Não é querendo incomodar mas estou com fome sim.

CRISTIANA – Silveira vá até a cozinha e prepare um lanche para a senhorita aqui.

SILVEIRA – Ainda acho que deva avisar sua mãe!

CRISTIANA – Deixa que com minha mãe eu me entendo, agora vá preparar o lanche.

SILVEIRA – Com sua licença!

Cristiana e Tereza sentam no sofá da sala

CRISTIANA – E então Tereza, de onde você veio e por que veio para o Rio?

MARIA TEREZA – Eu sou de Imperatriz no Maranhão, vim para cá pra tentar a vida como vários nordestinos vem.

CRISTIANA – E você tem algum parente aqui?

MARIA TEREZA – Não, eu sei que foi irresponsabilidade minha vir para cá e não ter um plano de vida.

CRISTIANA – Claro que foi, já viu você tivesse ido em uma casa que não fosse tão legal como eu?

MARIA TEREZA- Não quero nem imaginar isso, dou Graças à Deus ter vindo parar aqui.

CRISTIANA – A situação está complicada mesmo para você, mas vou tentar ajudar essa noite você pode dormir aqui e irei conversar com minha mãe na possibilidade de você trabalhar aqui.

MARIA TEREZA – Ficaria muito grata!

CRISTIANA – Espere um pouco enquanto falarei com Silveira para arrumar o quarto de hospedes para você.

***

Favela do Vidigal, Rio de Janeiro

Amanda entra no bar do Zé

AMANDA – Você não cria jeito né pai quer ser internado de novo?

ANTÔNIO – E quem disse que estava bebendo? Só vim ver os meus amigos.

AMANDA – Eu não nasci ontem, você sabe muito bem que não pode mais beber.

ANTÔNIO – Já te disse que não tava bebendo.

AMANDA – Vamos, já está tarde!

ANTÔNIO – Se eu for você para de escândalo?

AMANDA – Vamos logo.

No caminho Amanda vai dando broncas no pai.

AMANDA – O senhor não tem salvação mesmo, estou decepcionado com você pai.

ANTÔNIO – Eu já lhe disse e vou dizer pela última vez eu não estava bebendo, só fui ver meus amigos.

AMANDA – Até uma hora dessas?

ANTÔNIO – Estava conversando, depois jogamos um pouco de bilhar nem vi a hora passar… Mas pera ai eu que sou seu pai ou você que minha mãe?

AMANDA – Eu só estou preocupada com você.

Na casa de Amanda, Marta e Luciana conversam.

MARTA – Desiste logo dessa sua ideia de recuperar esse filho.

LUCIANA – Marta não sei por que você quer que eu desista, está me escondendo algo?

MARTA – É mais sério do que você pensa, por isso quero deixar do jeito que está.

LUCIANA – Então fale para que possamos resolver juntas.

MARTA – É complicado

LUCIANA – Então fale logo!

MARTA – O negócio é que esse seu filho que você abandonou agora é o Gabriel, namorado da minha filha.

Nesse exato momento Amanda entra e escuta as palavras de sua mãe.

AMANDA – Como é que é?

DEPOIMENTO REAL

Nelson Furtado, tesoureiro, cunhado da professora Núbia Conte Haick, de 42 anos, assassinada no ano passado pelo ex-marido 

“O sofrimento da minha cunhada começou um dia depois do casamento. Ela apanhou do marido ainda na lua-de-mel. Mas, por medo e vergonha, ela dizia que havia caído ou se batido. A família demorou a saber o que se passava, mas ela fez várias denúncias à polícia. Dezenas de boletins de ocorrência e laudos do Instituto Médico Legal que comprovaram as agressões que ela sofria não foram suficientes para colocar o Ismael (Haick, ex-marido de Núbia) na cadeia. Fui uma testemunha do terror que esse homem impôs a toda família. Um dia, já depois da meia-noite, recebi um telefonema da babá dos meus sobrinhos dizendo que Núbia não havia chegado em casa. Na hora eu pensei: meu Deus, perdemos a Núbia. Na manhã seguinte fomos à delegacia e soubemos que um corpo de mulher havia sido encontrado num matagal. Quando reconheci o corpo no IML, fui tomado pela revolta. Todas as denúncias que a Núbia apresentou à polícia não serviram de nada para evitar que ela fosse morta.”

 

Lucas André

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