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HORTÊNCIA - FELIPE LIMA


 "Somos todos irmãos"


Foz do Iguaçu. Orgulho paranaense. Sétima cidade mais populosa do estado, e um dos destinos turísticos mais procurados do Brasil. Também pudera, está sob seu território (e também da Argentina, mas nenhum brasileiro faz questão de lembrar-se disso) uma das sete maravilhas mundiais da natureza: As Cataratas do Iguaçu. Nesta bela cidade vive Hortência, mais conhecida como Mãe Tetê, por ser mãe de santo em um terreiro de candomblé. Uma senhora no auge dos seus 50 anos, que enfrentou diversos desafios em sua vida. Mas nunca deixou a peteca cair, como dizem.

Hortência executa um belo trabalho no bairro onde mora, trabalho esse que visa tirar as crianças da rua e levá-las para o pátio de seu terreiro, e lá, apresenta diversas atividades recreativas e educativas com os pequeninos. Em um desses dias de atividades Mãe Tetê recebe uma visita meio que inesperada e improvável, talvez.

Hortência, atendendo a porta ao ouvir a campainha tocar: Pois não, senhor?!

Pastor Carlos: Bom dia, Dona Hortência?

Hortência: Sim, em que posso ajudá-lo?

Pastor Carlos: Bom, primeiramente meu nome é Carlos. Sou pastor evangélico e fui ordenado para liderar a igreja evangélica aqui da rua. Eu vim aqui, pois alguns membros de minha igreja fizeram alguns comentários a seu respeito.

Hortência: Comentários maldosos... Presumo eu.

Pastor Carlos, constrangido: É... Vou confessar que sim, e lhe peço perdão por isso.

Hortência: Já estou acostumada, Pastor.

Pastor Carlos: Enfim... Entre um comentário e outro, ouvi falar sobre um projeto social que você dirige com as crianças do bairro e fiquei interessado e gostaria de conversar mais sobre ele.

Hortência, desconfiada: Sobre o que queria conversar.

Pastor Carlos: Eu poderia entrar para conversarmos melhor?

Ela hesita um pouco, mas permite sua entrada. Descrevendo o Pastor Carlos, ele era um rapaz novo, apenas 31 anos, mas que já tinha muita história para contar. Viúvo pediu transferência de onde estava para ver se amenizava a dor da viuvez, já que perdeu a esposa em um trágico acidente de automóvel. Dentro do terreiro, o pastor Carlos começa a observar a quantidade de imagens, santos, atabaques e se sente um pouco constrangido, mas não deixa transparecer e acaba se esquecendo disso. Ele observa que as crianças estão lanchando e sendo auxiliados por Lara, filha de Hortência, que observa o pastor de maneira desconfiada.  Enfim, os dois entram na sala da casa que fica atrás do pátio do terreiro. Os dois se assentam no sofá da sala e começam a conversar.

Hortência: e então, pastor?

Pastor Carlos: Então. Quando eu fui ordenado a pastorear a igreja aqui do bairro, eu tinha como um dos meus objetivos desenvolver um projeto social no bairro, de acordo com a necessidade do mesmo. E, quando me mudei pra cá, ainda esta semana, fiquei sabendo do seu projeto social e me interessei por ele. E gostaria de saber se a senhora não gostaria de formar uma união juntamente comigo para fortalecermos esse projeto. Saiba que tenho ideias que podem melhorar o que já está sendo desenvolvido aqui.

Hortência: Olha pastor, confesso que me causa espanto o senhor aparecer aqui para me oferecer apoio. De todos os pastores que passaram por essa igreja, o senhor é o primeiro a tomar tal atitude. Até mesmo quando eu fui pedir apoio, nunca fui atendida.

Pastor Carlos: Olha dona Hortência eu...

Hortência, o interrompendo: pode me chamar de Mãe Tetê.

Pastor Carlos: Olha Mãe Tetê. Eu lamento muito o que a senhora passou a vida toda sem ter apoio dos meus antecessores. Mas saiba que eu vim por que quero fazer diferente. Em todas as igrejas que eu passei, procurei desenvolver um projeto social nas vilas onde atuei. Por que, mais do que apenas pregar o evangelho e abrir a igreja em dias pré-definidos, a minha função é alimentar o faminto, ajudar ao necessitado, socorrer o doente, e é isso que eu quero. Por isso quero me unir à senhora. Pois sei que este também é o seu objetivo.

Hortência: Bem pastor, muito me admira suas palavras. Confesso que fico feliz em ver que ainda há pessoas que não olham as diferenças de religião, como no nosso caso, e olha unicamente para o ser humano, procurando lhes suprir em suas carências.

Pastor Carlos: Sabe Mãe Tetê, não me vejo como um religioso, e creio que a senhora também não se veja assim. Eu me vejo apenas como um servo de Deus, designado a cumprir a maior das missões que ele confiou ao ser humano: a do amor. E creio que essa é a sua função também. Então, não vejo nada de errado em deixarmos de lado nossas diferenças doutrinárias e unir nossos objetivos em comum para um bem geral.

Hortência: Saiba que penso da mesma forma, pastor. E fico muito feliz em encontrar alguém que pensa dessa maneira. Saiba que é muito prazeroso fazer o que faço com essas crianças, mas também é muito trabalhoso e requer muitos recursos dos quais não possuo. Por isso, vou aceitar me unir ao senhor, pois sei que sua ajuda será de grande valia.

Pastor Carlos: estou aqui pra te ajudar no que for preciso.

Ele estende a mão direita para cumprimentá-la, e é correspondido por ela.

Hortência: mas mudando de assunto: O senhor veio sozinho pra cá?

Pastor Carlos: Sim, faz uma semana que cheguei aqui. Pedi transferência da igreja em que pastoreava em Curitiba, depois que presenciei a morte da minha esposa em um acidente de carro há um mês.

Hortência: Meus sentimentos. Me perdoe pela inconveniência ao tocar em um assunto tão doloroso e recente para o senhor.

Pastor Carlos: Não, tudo bem. A vida continua, não é? Bom, tenho que ir, ainda tenho alguns assuntos referentes à minha transferência para resolver. Mas voltamos a conversar?

Hortência: Claro, foi um prazer conversar com o senhor. Mas não quer me acompanhar em um café?

Pastor Carlos: Seria um prazer, mas realmente estou muito atarefado. Mas fica pra uma próxima.

Hortência: Eu o acompanho até a porta.

Os dois se dirigem até a saída do terreiro. O pastor se despede de Hortência e vai embora. De longe, uma mulher os observa com um olhar desconfiado. Era Vânia. Evangélica, fazia parte da congregação da qual o Pastor Carlos iria pastorear.

Vânia: Mas aquele não é o novo pastor da igreja? O que ele foi fazer naquele império de satanás?

Enquanto o pastor se dirigia a sua casa, Vânia continuava a observar. De repente, acontece uma troca de olhares nada amigável entre ela e Hortência. As duas vivem protagonizando episódios constrangedores no bairro, sendo Vânia uma inimiga declarada da mãe de santo. Aliás, Vânia era o desafeto de muita gente no bairro. Por se achar “A Crente Santa”, acha que tem o direito de julgar e condenar as pessoas. Por fim, Hortência decide se desfazer daquele embate de olhares e entra em seu terreiro, querendo atender as crianças e resolver alguns assuntos triviais. Lá dentro, Lara esperava o retorno da mãe, com aquele interrogatório pronto.

Lara: Quem era esse homem, mãe?

Hortência: O Pastor novo da igreja aqui do bairro.

Lara: Um pastor? Aqui no terreiro? O que ele queria?

Hortência: Ele veio se unir a mim em parceria no projeto social com as crianças.

Lara: E você aceitou?

Hortência: Sim. Por que não aceitaria?

Lara: Mãe! Ele é um pastor! Evangélico!

Hortência: E o que isso tem a ver?

Lara: Mãe, não finja que esqueceu tudo o que passamos por causa desse povo. Todas as humilhações.

Hortência a interrompendo: Filha, ele me mostrou ser diferente. Eu confiei nele por que eu senti que ele não nos causará nenhum mal. Você deveria muito bem saber que nem todos os evangélicos são arrogantes. Por causa de um, todos levam má fama, mas não são todos assim. Saiba, também, que tem muitos de nós que os humilham, falam mal. Eles sofrem também. E outra, nosso projeto precisa de apoio. Você sabe que o número de crianças triplicou nesses últimos anos. Então, qualquer ajuda, de quem quer que seja, será bem vinda.

Lara: Pode ser. Mas tome cuidado com ele, mãe. Por Favor.

Hortência: Pode deixar minha filha.

Hortência dá um beijo no rosto da filha. Ela entendia os motivos de preocupação de sua filha. Eles já sofreram diversas humilhações por parte dos crentes daquela igreja. Mas ela também tinha consciência do tempo em que seu irmão, quando vivo, vivia ofendendo os crentes da igreja, chegando a invadir um de seus cultos e insultá-los. E, além do mais, ela percebia algo diferente no Pastor Carlos. Pois ela também era diferente. Os dois tinham uma mesma visão: ajudar o próximo, amar os necessitados, independentemente da religião, raça, orientação sexual, e do modo de vida. Por isso, decidiu-se aliar a ele.

Vânia chega a sua casa com um olhar pensativo. Na sala, encontra seu esposo, Jardel, assistindo o telejornal antes de sair para o trabalho. O rapaz percebe a presença da esposa e lhe nota o olhar intrigado.

Jardel: Olá, querida.

Vânia, meio aérea: Olá...

Jardel: Está tudo bem?

Vânia: Eu vi o novo pastor de nossa igreja hoje. Ele tava saindo daquele antro satânico.

Jardel: você quis dizer, Centro de Candomblé Mãe Tetê de Ogum, sim?

Vânia: Isso, antro satânico, império do demônio, é tudo a mesma coisa.

Jardel: Eu já falei pra você ter mais respeito com os outros.

Vânia: Eles não são dignos do nosso respeito, Jardel, eles são um bando de pecadores, idólatras, cavalos do diabo. Vão todos arder no inf...

Jardel, a interrompendo: Vânia, chega! Quem é você para julgar as pessoas e mandá-las ao inferno? Você não tem esse direito e muito menos esse poder. Me dê licença, que eu vou trabalhar.

Vânia: Coitado, não aguenta ouvir a verdade.

Vânia espera o esposo sair para trabalhar. Olha pela janela para ver se ele já foi e pega o celular e manda uma mensagem. Ela olha com um olhar malicioso, como se estivesse aprontando algo. Minutos depois, um homem chega com uma bicicleta e é recebido por Vânia em sua casa. Lara, que estava à frente do terreiro observando a movimentação, vê a cena intrigada.

 



 

Alguns dias se passam. No Terreiro, Mãe Tetê está em seu escritório e confere as contas do projeto social e vê que elas não estão batendo. Ela fica muito preocupada, mas acredita que as coisas iriam melhorar. De repente, ouve a campainha soar e vai atender. Era o Pastor Carlos.

Hortência: Pastor Carlos! Como vai o senhor?

Pastor Carlos: Como vai, dona Horte... Mãe Tetê?

Hortência, sorrindo: Estou bem... Na medida do possível. Mas, entre, por favor, sim!

Os dois entram e vão até a sala conversar. Lá, o Pastor percebe que Hortência está preocupada.

Pastor Carlos: Está tudo bem? Parece aflita.

Hortência: Ah, pastor! Estava ali conferindo as contas do projeto social e elas não estão batendo, sabe. As dívidas são maiores que os ganhos, o número de crianças triplicou. Eu não estou dando conta, mas também não quero abandonar o projeto.

Pastor: Calma, Mãe Tetê. Acharemos uma solução. Tudo vai ficar bem.

Hortência: Deus te ouça pastor, Deus te ouça. Mas, a que devo a honra de sua visita?

Pastor Carlos: Ah, sim! Sabe, hoje à noite vai acontecer a minha posse lá na igreja, e eu queria muito que você estivesse lá.

Hortência: Eu até adoraria. Seria uma honra, mas não dá. O senhor sabe que eu não sou bem vinda na igreja. Não dá. Não é uma boa ideia.

Pastor Carlos: Não! Não aceito um “não” como resposta. É um momento especial e eu gostaria que você estivesse lá. Vá com sua filha. Serão minhas convidadas de honra.

Hortência: Bom, nesse caso, eu aceito. Vou estar lá. Mas não sei o que vestir.

Pastor Carlos: Indo de roupa, já é o bastante.

Os dois riem.

Hortência: Estou servindo a mesa do café, vamos lá?

Pastor Carlos: Não, eu detesto incomodar e eu tenho que...

Hortência: Não! Eu não aceito um “não” como resposta! Vamos lá.

Os dois riem novamente e se dirigem à cozinha. Lá eles tomam um café e conversam.

Pastor Carlos: Tive uma ideia para angariar fundos para o projeto: Vamos realizar uma festa beneficente. Sim, uma festa com doces, salgados, brincadeiras. Tudo em prol do projeto.

Hortência: Acha que pode dar certo?

Pastor Carlos: Claro que pode. Será um sucesso. Mas vamos conversar melhor. Agora, tenho que ir.

Os dois caminham até a porta.

Pastor Carlos: Espero a senhora hoje à noite.

Hortência: Estarei lá, sim.

O pastor se despede de Mãe Tetê e vai embora. Ali mesmo, no portão, aparece Lara.

Lara: Mãe, é isso mesmo que eu ouvi? Nós vamos àquela igreja?

Hortência: Vamos sim! É um momento especial pra ele, ele é meu amigo e...

Lara: Você só pode ter ficado louca. Quer que a gente seja apedrejada? Morta? Humilhada...

Hortência: Filha, por favor. Vamos dar um voto de confiança.

Lara: Depois não diga que não avisei.

Passam-se as horas e chega o horário do culto. Lá, os irmãos começam a adentrar ao templo que era bem simples, mas aconchegante. Logo, chegam Hortência e Lara. Ao entrarem ao templo, todos a olham com certa estranheza, principalmente a irmã Vânia, que não escondia o seu descontentamento em ver as duas ali no templo. Todos as conheciam, e as olhavam sem o menor pudor, deixando-as muito constrangidas e envergonhadas. As duas se assentaram no ultimo banco, lá no fundo. Logo, o culto começa com cânticos, orações, e o Pastor Carlos profere o sermão da noite, falando sobre o amor, baseando se no versículo descrito no livro bíblico de Mateus Cap. 22, vers. 39: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Foi um lindo sermão, emocionando a todos, inclusive a Hortência, que se sentiu muito tocada com as palavras do Pastor. A única que não demonstrava ter sentido nada era, nada mais, nada menos que a “Irmã” Vânia, que não parava de olhar para Hortência e Lara. O culto estava se encerrando e o Pastor começou a proferir palavras de agradecimento.

Pastor Carlos: Gostaria de agradecer a todos os presentes nesse momento muito especial para mim. Saibam que muito me alegra ser o pastor de vocês, e creio que teremos dias de muitas bênçãos, alegrias e muita comunhão com Deus.

Todos concordam, falando amém.

Pastor Carlos, continuando: Mas eu gostaria agradecer a alguém muito especial que está aqui nesta noite. Foi de imensa alegria vê-la aqui. Gostaria de chamar aqui a frente uma grande amiga. Aliás, a primeira que fiz ao chegar aqui. Dona Hortência e sua filha. Gostaria que elas viessem até aqui à frente.

Elas vão muito envergonhadas e sob os olhares espantados de todo o povo. Vânia não está nada satisfeita com o que está presenciando.

Pastor Carlos: A Dona Hortência... Ou Mãe Tetê, desenvolve um projeto muito especial aqui no bairro. E uma das minhas metas como pastor aqui da região, era realmente isso. Ajudar as pessoas não só com a palavra de Deus, mas com suas necessidades físicas também. E quero declarar aqui, diante da igreja, que eu estou apoiando esse projeto. E conto com o apoio de todos. Lembrem-se do sermão de hoje, sobre o amor ao próximo. Que não somente o vivamos em palavras e sermões, mas principalmente, em atitudes. Posso contar com os irmãos?

Todos aplaudem, e confirmam apoio. No meio dos aplausos, nota-se que uma pessoa está batendo palmas mais forte e pausadamente. Era irmã Vânia.

Vânia: Ora, ora ora... Vemos hoje a dissolução da verdadeira igreja do Senhor. O pastor, se unindo com a macumbeira. Onde já se viu? Não podemos permitir isso, igreja.

Todos olham assustados para Vânia. Lara e Mãe Tetê se olham, assustadas.

Pastor Carlos: Irmã Vânia, cadê o respeito? Isso são modos de tratar as visitas?

Vânia: Eu não posso permitir que essas enviadas do diabo profanem o santo templo do Senhor!

Jardel, tentando conter a esposa: Vânia, para! Olha o papelão!

Jardel: Papelão nada! Papelão é esse pastor tentando entubar em nossa goela abaixo, essas duas profanas no nosso meio, com esse discurso barato de amor. Essas duas não merecem amor. Merecem o inferno! É lá que é o lugar delas.

Hortência começa a chorar.

Pastor Carlos: Mas o que é isso? Quem você acha que é para julgar as pessoas dessa maneira? Estou muito decepcionado com você, Irmã Vânia.

Vânia: Eu é quem deveria estar decepcionada, Pastor. Mas vocês não aguentam a verdade né? É o fim dos tempos mesmo. Todos verão que é o certo nessa história, quando o Todo Poderoso voltar.

Lara, não aguentando de raiva: E todos verão a adúltera que você é!

Vânia, enraivecida: Mas o que você disse sua aprendiz de capeta?

Lara: Pensa que eu não vejo? Você só espera o seu marido sair pra trabalhar pra enfiar homem dentro de casa. E depois é nós quem somos as diabas da história?

Vania, partindo pra cima da moça: Ora, sua...

As duas se enroscam numa briga, mas logo são separadas pelos irmãos, pelo pastor e por Hortência.

Pastor Carlos: Chega!!! Isso é uma igreja, não um ringue de luta! Estou profundamente decepcionado.

Hortência, com os olhos inchados de chorar: Eu vou embora daqui.  – ela pega a filha pela mão e vai saindo.

Pastor Carlos, a impedindo: Espera Mãe Tetê! Saiba que eu estou profund...

Hortência, chorando: Eu disse, pastor. Eu disse que não era uma boa ideia. No fundo, no fundo, vocês são todos iguais, mesmo.

As duas saem. Em seguida, saem Vânia e o marido. Aos poucos, os irmãos começam a ir embora. O pastor, por sua vez, continua na igreja, sozinho. Ele está tentando digerir o que acabara de acontecer, com flashes de sua mensagem. O seu semblante é de profunda tristeza, e de consciência de que havia muito a ensinar àquele povo.

Vânia e Jardel chegam em casa. Vânia não para de resmungar, enquanto que Jardel só fica pensativo. Na sua mente ecoam as palavras de Lara, acusando sua esposa de adultério. Vânia resolve ir se banhar e esquece o celular na mesinha de centro da sala de casa. Logo, ele toca, sinalizando mensagem recebida. Jardel resolve lê-la. Ele fica abismado com o que vê. Mensagens com conteúdo sexual, acompanhado de uma foto de um rapaz mais novo, que estava nu. Ele começa a percorrer a conversa e vê que sua esposa também enviava fotos sensuais ao rapaz, e vê, também, que ela o chamava para casa no horário em que estava trabalhando. Jardel tenta manter-se firme, mas não contém a lágrima que rola em seu rosto. Vânia realmente o traia. Ele percebe que a esposa está saindo do banheiro, desliga o celular e se assenta novamente ao sofá, como se nada ocorresse.

Vânia: Ahhh! Precisava desse banho. Pra me limpar das impurezas que aquelas imundas nos trouxeram. Vou dormir, me acompanha?

Jardel, olhando-a seriamente: Sim. Sou seu marido. Devo sempre lhe acompanhar ao dormir.

 

No Terreiro, Mãe Tetê chora de soluçar na cama, e é consolada pela filha.

Lara: Eu te falei mãe, aquele povo é tudo igual. Eu sabia que isso ia acontecer.

Hortência: Filha, por favor, me deixa sozinha?

Lara: Ah, mas se eu ver um deles cruzando u meu caminho, eu não sei do que sou capaz...

Mãe Tetê: Lara! Me deixa sozinha, por favor!

Lara resolve se calar e ir para o seu quarto. Mãe Tetê continuava chorando. Mais uma humilhação, uma agressão, simplesmente por sua crença, por diferenças doutrinárias. Mas algo lhe dizia que o Pastor realmente não estava feliz com a atitude de sua liderada. Ele realmente era diferente.

Mais um dia amanhece em Foz. Nas ruas, as pessoas estão indo trabalhar. Em casa, Jardel estava se preparando para sair. Ele sai. Porém, não segue o seu destino rotineiro. Ele fica na esquina, à espreita, esperando por algo ou alguém. Dentro da casa, Vânia percebe que o marido foi trabalhar e manda mensagem para o amante. Na esquina, Jardel continua a observar quando, em alguns minutos, ele vê um rapaz de bicicleta parando em frente à sua casa. Vânia o manda entrar, e olha para os dois lados da rua para ver se alguém olhava. Da esquina, Jardel presencia a cena e uma lágrima rola de seu rosto. Ele vai até a sua casa, e, silenciosamente, entra no imóvel e ouve gemidos, gritos e risadas vindas do quarto. A cama, que outrora ele dormia com a esposa, agora estava sendo ocupada por outro. Ele entra no quarto e presencia a cena. Vania, que estava distraída, olha de relance para a porta e se assusta com a presença do marido.

Vânia, extremamente assustada e empurrando o amante: Jardel?

O amante de Vânia se assusta e, rapidamente, foge pela janela, pelado mesmo.

Jardel: Sua vagabunda, sua adultera! – Ele parte pra cima da esposa.

Vânia, tentando se defender do marido: Calma, Jardel, você está me machucando!

Jardel, puxando-a pelos cabelos: É pra machucar mesmo sua vagabunda.

Jardel puxa a esposa pelos cabelos e a joga na rua. Ele volta, pega as roupas da esposa e joga na rua.

Vânia, enfurecida: Você não pode fazer isso comigo. Não tem esse direito!

Jardel, chorando: Não tenho esse direito? Você enfia outro homem na nossa cama e acha que eu não devo fazer nada?

Vânia: Quer saber? Você é um frouxo! Um brocha! Não sabe fazer um papel de homem de verdade. Um homem que dá prazer a sua esposa.

Jardel não se contém e esbofeteia a esposa. Os vizinhos começam a se aglomerar e ver a confusão.

Jardel: Nunca mais volte a esta casa. Suma daqui! – ele entra a casa.

Vânia começa a ajuntar suas coisas para ir embora

Vânia, enraivecida, aos vizinhos: O que é? O que é? Perderam alguma coisa aqui? Vão procurar o que fazer!

Ela sai de nariz empinado.

Logo mais à tarde, Hortência está atendendo as crianças quando alguém toca a campainha. Lara vai atender. Ao perceber que eram o Pastor e alguns irmãos da igreja, solta lhes ofensas gratuitas.

Lara: Mas o que estão fazendo aqui? Já não bastou todo sofrimento que nos causaram ontem à noite, e vieram nos humilhar? Fora daqui. Fora!

Pastor Carlos: Por favor, eu sei que estão magoadas, mas eu preciso falar com sua mãe.

Logo aparece Hortência: Pastor Carlos?

Pastor Carlos: Mãe Tetê, nós viemos conversar com a senhora. Civilizadamente.

Lara: Mas não vão! Não queremos mais saber de nenhum de vocês aqui e...

Hortência: Filha, por favor.

Lara: Mãe, eu não acredito que...

Hortência: Lara! Vá cuidar das crianças, que desse assunto eu cuido!

Lara sai. Hortência os convida a entrar. Na passagem pelo pátio, os irmãos olhavam as imagens e os atabaques e roupas, e se entreolhavam. Na sala, eles se assentam e começam a conversar.

Pastor Carlos: Eu vim aqui dizer que estou muito triste com o que aconteceu ontem. Você já me conhece e sabe que eu não sou desse tipo de gente. Vim aqui me desculpar e reiterar meu apoio ao seu projeto.

Hortência: Eu aceito suas desculpas, pastor. E peço perdão por ter lhe destratado em sua igreja. O senhor não teve nada a ver com o que aquela mulher fez pra mim. Eu já deveria estar acostumada, aquela mulher sempre fez isso comigo. Mas, e esses dois?

Pastor Carlos: Ah. Esses são Ingrid e Fernando. São casados e vieram comigo para lhe prestar apoio também.

Ingrid: Sim, dona Hortência. Saiba que repudiamos a atitude da irmã Vânia, não compactuamos com tal atrocidade.

Fernando: Sim. E viemos aqui lhes prestar apoio no que for preciso para o projeto com a molecada.

Mãe Tetê: Oh, muito obrigado, meus queridos, muito obrigado.

Ingrid: Nós ficamos sabendo da festa beneficente que estão querendo organizar em prol do projeto.

Pastor Carlos: Eu comentei com eles.

Fernando: Nós faremos a doação de todos os doces e quitutes para serem vendidos na festa. E não queremos nada do lucro.

Hortência, não escondendo a felicidade: Oh, muito obrigado! Não sei nem como agradecer. Muito obrigado, mesmo!

Pastor Carlos: Eu te disse que tudo daria certo, e que te ajudaria minha amiga!

Mãe Tetê: Obrigado, meu amigo! Obrigado mesmo. Você foi enviado por Deus para nos ajudar.

Os dois se abraçam. Este ato mostra que quando o respeito é considerado ao invés das diferenças, a harmonia e a paz tornam se realidade.

Alguns dias depois, acontece a festa beneficente do projeto no pátio da igreja do bairro, cedida gentilmente pelo pastor. A festa está movimentada. Os moradores do bairro prestigiam a festa com entusiasmo e conhecem o projeto pelo qual a festa está sendo realizada. Dando abertura aos festejos, o Pastor Carlos e Hortência sobem no pequeno palco, onde atrações musicais embalariam a festa, e discursam.

Hortência: Eu gostaria de agradecer a todos que vieram nos prestigiar. Mas, principalmente, eu gostaria de agradecer a esse homem aqui. O Pastor Carlos.  Esse homem veio para me ensinar muitas coisas. Me ensinar a acreditar na humanidade. A acreditar que, apesar das diferenças, todos podemos conviver em harmonia. E, ainda, fazer o bem ao próximo. Que isso sirva de exemplo pra todos nós. Que nós possamos sempre nos respeitar, e nos amar. Muito obrigado.

Todos aplaudem as palavras de Hortência. O pastor Carlos pede a palavra.

Pastor Carlos: Eu é que gostaria de agradecer. Por essa experiência na minha vida. Saiba que eu é que estou aprendendo muito. Sabe, pessoal. A vida é muito curta para ficarmos trocando farpas e discutindo diferenças que são tão pequenas, se comparadas com os reais objetivos que devemos tomar na vida. Vamos viver a vida, em harmonia, em amor. Deus quer assim. E que nesse dia, possamos celebrar a harmonia do ser humano. Que Deus abençoe a todos. E aproveitem a festa.

A música iria começar a rolar, quando Lara avança no microfone.

Lara: Por favor, eu também gostaria de falar algumas palavras. Gostaria de pedir desculpas ao pastor Carlos. Eu fui muito injusta com o pastor. Estava cega, achando que, por causa das tristezas que sofri e vi minha mãe sofrer, achei que tudo se repetiria novamente. Mas vi que não. O senhor é um homem maravilhoso, e hoje quero reconhecer isso diante de todos.

O Pastor Carlos sobe novamente ao palanque e abraça a moça.

Pastor Carlos, ao microfone: Obrigado, minha linda. Não te culpo por nada. Inclusive eu, que te peço perdão. À você e a sua mãe. Em nome de todos aqueles que te humilharam e te fizeram mal.  – ao público – Agora sim, aproveitem a festa.

A música começa a tocar. Todos começam a aproveitar e curtir aquela festa que celebra a vida, o respeito mútuo e o amor ao próximo. Mãe Tetê e Pastor Carlos se abraçam felizes, mostrando que não nada que possa quebrar uma grande amizade.

 

 


Próximo episódio: Em Águas de São Pedro, em São Paulo, a vida para Caliandra não parece normal e ela está profundamente aborrecida com os rumos que sua vida tem tomado, mas a conversa com um amigo inesperado a ajuda a descobrir uma maneira mais interessante de enxergar a existência.
Autor: Matheus Barbosa
Data de publicação: 13 de fevereiro