Aeroporto  – Manhã.


Max: Felipe, dá pra andar logo?


Felipe: Vamos?


[Max e Felipe vão na frente. Kelly pega as chaves do banheiro e joga no lixo. Antes de entrar no avião ela coloca o óculos de sol e conversa sozinha]


Kelly: Nova vida, tudo novo, esse dinheiro que me aguarde. Bye, bye, Bellinha…


[Ela entra no avião]


 


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Sanitário – Manhã- Aeroporto.


[Bella continua a gritar por socorro, e a água do chuveiro já começa a tomar conta do banheiro inteiro]


Bella: Socorro! Alguém me ajude! [Ela tenta abrir a porta chutando e empurrando] Como aquela desgraçada de Kelly não sentiu minha falta? Só pode ter dedo dela nessa história.


[Ela continua a chutar a porta e a empurrar, até que consegue quebra-la. Ela desliga todos os chuveiros e encontra sua mala.]


Bella: Minha mala? Não é que aquela vigarista pensou em tudo? Então ela acha que eu perdendo o voo desistirei da viajem e vou ficar aqui? Coitada… É o que veremos Kelly, é o que veremos.


 


Mansão Mastur – Noite – Sala.


[Fátima está na cozinha organizando quando Divina chega apavorada.]


Divina: Ai meu Bom Jesus da Biscretinha!


Fátima: O que houve Divina?


Divina: Lembra da lenda, Fátima?


Fátima: Que lenda?


Divina: Do cachorro, a do cachorro.


Fátima: Eu já te disse que não é lenda, já peguei duas vezes ele rondando a casa.


Divina: Eu acabei de ver…


[Fátima se assusta]


Fátima: Tem certeza?


Divina: Juro por todos os cordeirinhos do meu São Cristinho. Eu fui pegar o regador no porão e quando virei de costas eu vi ele Fátima, do jeitinho que você descreveu.


Fátima: Com aquela cara de cachorro viadinho que tomba-lata e com os dentes pra fora não é?


Divina: Igualzinho.


Fátima: Arrepiei todinha!


Divina: Lembra da lenda? Dizem que o cachorro vinha todas as noites uivar na porta da mansão querendo namorar com a cadelinha da dona Oneide.


Fátima: E o senhor Virgulino de raiva mandou os seguranças pegarem o cachorro e ele mesmo jogou o coitadinho vivo dentro da cisterna do casebre.


Divina: E três dias depois a coitadinha da cadelinha também morreu. A dona Oneide chegou por várias vezes a ver o tal cachorro assombrando a casa, até cheiro de urina os moveis tinham.


[Elas escutam o uivo de um cachorro]


Divina/Fátima: Aaaaaaaaaaah!


[Elas correm para a porta da mansão e se acalmam ao ver o delegado – Atos.]


Divina: Doutor Atos?


Atos: Aonde pensam que vão?


Fátima: É que escutamos um barulho estranho e como já estava na hora de ir embora mesmo.


Atos: De jeito nenhum! O voo dos filhos do Seu Virgulino e da dona Oneide atrasou, tiveram que fazer um pouso de emergência em uma cidade vizinha e vão atrasar um pouco, mas tem uma filha da dona Oneide que resolveu vir em um outro voo que por sinal não atrasou e já deve estar chegando. Vocês devem ficar para recepciona-los.


Divina: Pode deixar, doutor.


 


Casa de Eurípedes – Noite – Quarto.


[Euripedes – vice-prefeito de Virgulino –  e sua esposa –Marisa – estão dormindo quando escutam barulhos no telhado e nas janelas.]


Marisa: Eurípedes, acorda. Acorda!


Eurípedes: Que corda?!


Marisa: Eu disse pra você acordar.


Eurípedes: O que foi?


Marisa: Está ouvindo?


Eurípedes: Ligue o abajur.


Marisa: Parecem pedradas no telhado e na janela.


Eurípedes: Deixe-me ver.


[Ele levanta e vai até a janela. Há varias pessoas do lado de fora arremessando pedras, ovos e papel-higiênico contra a casa dele.]


Eurípedes: Meu Deus!


Marisa: O que houve?


Eurípedes: Estão fazendo um protesto.


Marisa: Contra o que?


Eurípedes: Vou descobrir agora.


[Ele vai até o lado de fora da casa, no jardim]


Eurípedes: Que zona é essa na porta da minha casa?


– Zona? Zona é o que você fez com o povo da cidade.


– Elegemos Virgulino Mastur para prefeito e não o Virgílio.


– Queremos alguém da coligação do Virgulino. Fora Virgílio!


[Todos começam a gritar: Fora Virgílio]


Eurípedes: Vocês precisam entender que eu já cedi o cargo para o Virgílio, não voltarei atrás.


– Cretino!


– Corrupto! Vai queimar no cabaré do inferno!


[Todos jogam ovos e pedras nele. Ele volta correndo para dentro de casa.]


 


Mansão Mastur – Noite – Sala.


[Divina imita o delegado Atos]


Divina: “Vocês devem ficar para recepciona-los.”


Fatima: Dá pra parar de imitar o doutor Atos? Já é a sétima vez que você tenta imita-lo.


Divina: Ele quer que a gente fique aqui por que não é ele que tá com a impressão de ser vigiada por um cachorro satânico. E nem é ele que vai receber mauricinhos.


[Alguém bate na campainha]


Divina: Chegaram, deve ser eles.


Fátima: Arrume o cabelo, tá mais alto que o da Maria Betânia.


[Ela passa a mão no cabelo e abre a porta. É Bella.]


Bella: Boa noite.


Divina: Boa noite senhorinha, vamos entrando.


Bella: É aqui a casa da senhora Oneide Mastur?


Divina: É aqui sim.


Bella: Nossa! Bem grande hein?!


Divina: Completou quarenta anos ano passado.


Bella: Realmente, é muito bonita. Ah, já ia me esquecendo. Meu nome é Bella, prazer.


Divina: Eu sou Divina e aquela é a Fátima, o prazer é todo nosso.


Bella: Minha irmã já chegou?


Divina: Não, não! O doutor Atos disse que o voo atrasou, eles vão atrasar um pouquinho.


Bella: Eles?


Divina: Não me pergunte quem.


Fátima: A senhora pode por as malas no quarto de cima, se quiser.


Bella: Quero sim, você pode leva-las pra mim, por favor?


Fátima: Sim, claro que sim.


Bella: Eu também já vou subir, quando eles chegarem, por favor, não diga que eu estou aqui.


Divina: Pode deixar, madame.


 


Aeroporto Brasileiro – Noite.


[Max, Felipe e Kelly descem do avião]


Kelly: Meninos, foi ótimo conhecer vocês.


Max: Ai amiga, o prazer foi todo nosso.


Felipe: Ela disse que foi ótimo Max, não que foi um prazer.


Kelly: Mas foi sim. Agora, se não importam já está tarde e eu tenho que pegar um taxi, ainda tenho que chegar no condomínio Diamante D’água.


Max: Diamante D’água? Não é o mesmo que a gente vai Felipe?


Felipe: Ih, é mesmo! Não quer dividir o táxi com a gente não?


Kelly: Claro que eu quero. [Um taxi passa e Kelly grita] Táxi! Táxi!


[O carro para. Os três entram]


Felipe/Kelly: Condomínio Diamante D’água. Mansão dos Mastur’s.


[Os três se assustam]


Kelly: Espera aí, que brincadeira de mau gosto é essa?


Max: Eu que pergunto. Vai fazer o que na casa do meu papito?


Kelly: Não, de jeito nenhum! O que “vocês” vão fazer na casa da minha mãe?


[O taxista interfere]


– Vocês não são os filhos do casal Oneide e Virgulino, prefeito e primeira dama?


Felipe/Max/Kelly: Sim!


[Os três se olham com desprezo]


Kelly: Não acredito!


Max: Dividir herança?! Ah, Credo! E meus gogo-boys?


Felipe: Só pode ser uma pegadinha do malandro. Meu pai não casaria com uma mulher que tem filhos.


Kelly: Filhas, meu querido, filhas!


 


Mansão Mastur – Noite – Entrada.


[Kelly, Max e Felipe descem do táxi]


Kelly: Eu não acredito. Estava bom demais pra ser verdade.


Felipe: E pensar que quase transamos no banheiro do avião.


Kelly: Transar com um meio-irmão?


Max: Ei, vamos mudar de assunto? Eu estou aqui, lembram?


[Eles tocam a campainha da mansão. Fátima abre a porta.]


Fátima: Boa noite!


Kelly: Boa noite o escambau minha filha.


Max: Boa só se for pra você.


[Eles já vão entrando.]


Divina: São filhos do doutor Virgulino?


Kelly: Cruzes credo! Eu sou filha de Oneide, poderosa e chiquérrima!


Max: Pois fique sabendo que se não fosse meu pai, sua mãe não tinha nem onde cair morta.


Kelly: Pelo menos não tem mais ninguém pra dividir a herança.


[Bella desce as escadas devagarinho]


Bella: É ainda que você se engana, querida. Estou mais viva do que nunca e pelo visto… Seu banheirinho não funcionou muita coisa.


[Kelly se assusta]


Kelly: Bella? Mas… Como?


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